Inconformado com as roupas quentes e escuras utilizadas pelos homens brasileiros, Flávio de Carvalho resolveu criar um novo traje para o cidadão tropical. Escolheu tecidos leves, cores claras e fez o modelo intitulado ‘‘Experiência nº 3’’. Vestiu ele próprio a roupa e saiu caminhando pelas principais ruas da cidade de São Paulo. Era o ano de 1956 e o trânsito literalmente parou para ver um homem de saia andando calmamente pelas ruas.
O escândalo era mais uma performance do artista plástico e também arquiteto. Sua obra anterior, realizada em 1931, quase terminou com seu linchamento por uma multidão de católicos nervosos. Com o objetivo de testar os limites da tolerância de uma massa de fiéis, colocou em prática a performance intitulada ‘‘Experiência nº 2’’. Durante uma procissão de Corpus Christis, na capital paulista, o artista, usando um chapéu verde na cabeça, caminhou em sentido contrário do fluxo dos fiéis. O insulto foi revidado com uma tentativa de linchamento, interrompida graças à intervenção da polícia.
Por essas e outras que Flávio (ou Flavio) de Carvalho é considerado o grande pioneiro brasileiro das experimentações da arte performática. Abriu caminho para o florescimento de posturas radicais nas artes que tomaram corpo a partir da década de 60. Artista original, seu papel na história da arte brasileira do século 20 se revela cada vez mais determinante.
Sua obra polêmica está sendo resgatada através da publicação de ‘‘Flávio de Carvalho’’, livro de autoria do acadêmico e crítico de arte Luiz Camillo Osorio que acaba de ser lançado pela editora Cosac & Naify. O volume traz reproduções de pinturas e desenhos das mais variadas fases do artista, realizados entre as décadas de 20 e 60. Também traz um ensaio em que o autor procura situar a obra de Carvalho dentro de um contexto mais amplo, abordando seu devido e merecido lugar na história da arte brasileira.
Para Luiz Camillo Osoria, Flávio de Carvalho foi uma verdadeira usina de idéia e provocações. A arte, para ele, ‘‘era mais vontade do que representação’’. Atuou em distintas áreas, como arquitetura, artes plásticas, cenografia, dramaturgia, escultura, literatura, performance, etc. Suas grandes marcas foram a não-convencionalidade e a ousadia: ‘‘O seu interesse por trás de uma produção tão multifaceada era desestabilizar nossos parâmetros de orientação, fazer-nos ver o que não está previsto em nosso códigos de normalidade.’’
Flávio de Carvalho nasceu em 10 de agosto de 1899 na pequena cidade de Amparo da Barra Mansa, Rio de Janeiro. Ainda garoto, foi enviado para estudar num colégio interno na França. Na sequência, passou a morar na Inglaterra, onde concluiu a faculdade de engenharia. Voltou ao Brasil em 1922, logo após a Semana de Arte Moderna.
Encontrou São Paulo em plena ebulição do Modernismo e colocou toda sua energia criativa e provocativa para fora. Elaborou projetos arquitetônicos que arrancaram aplausos de Mário de Andrade e Oswald de Andrade pela ousadia. Sua primeira exposição individual, aberta em 1934 foi fechada pela polícia e reaberta graças a uma ordem judicial. Segundo Mário Pedrosa, teria sido o próprio artista quem telefonou para a polícia numa denuncia anônima contra a exposição.
Rapidamente se distanciou do Modernismo para constituir uma obra única e solitária. Um dos trabalhos que ‘‘Flávio de Carvalho’’ traz, por exemplo, é chamado ‘‘Série Trágica’’(1947). Trata-se de um série de desenhos feitos com carvão em que Carvalho registra os momentos de agonia de sua própria mãe no leito de morte. Retratando o rosto da mãe, consegue apresentar o momento exato da morte, do sofrimento à tranquilidade.
Flávio de Carvalho morreu em 1973, em sua fazenda em Valinhos, interior de São Paulo. Não conseguiu ver sair da gráfica seu último livro, ‘‘A Origem Animal de Deus’’, onde procurava desvendar o mecanismo das emoções básicas do ser humano. Para ele, o surgimento de Deus estaria ligado a duas coisas – à fome e ao sexo. Em suas palavras, seria no ‘‘aparelho digestivo onde nascem os deuses do mundo’’. Admirador de Freud e Nietzsche, foi provocador até os últimos instante de vida.
•‘‘Flávio de Carvalho’’ de Luiz Camillo Osorio, Cosac & Naify Edições (telefone 11-255-8808), 120 páginas. Preço: R$ 41,00.

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