Muita gente assiste a concertos musicais e, nem sempre, tem noção do que representa aquela figura que fica de costas para o público regendo a orquestra. O maestro (palavra italiana que significa mestre) é o elo de ligação entre o compositor e o público. Para falar sobre o ofício, a Folha2 entrevistou três maestros que estão participando do 20º Festival de Música de Londrina: Norton Morozowicz, regente da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel) e diretor artístico do evento; Angelo Dias, do Coral da Universidade de Goiânia, e Roberto Farias, da Banda Sinfônica de São Paulo.
Para Morozowicz, o maestro tem o papel de intérprete. É ele quem vai recriar as idéias que o compositor concebeu. ‘‘A música no papel é morta. Precisa do intérprete para decodificar. E cada concerto é um momento de recriação musical’’, ressalta. O regente deve conduzir a orquestra, ordenando o pensamento do compositor e passando a mensagem para os músicos.
O grau de recriação musical, no entanto, vai depender da personalidade do maestro. Existem os mais técnicos e os mais passionais, e isso vai interferir na maneira de transmitir o recado ao público. ‘‘É essencial ter o dom da comunicação. Também é preciso talento, estudo e muito preparo’’, avalia o maestro da Osuel.
Trabalho mesmo, o regente tem nos ensaios. A apresentação é o resultado final. ‘‘Uma orquestra bem ensaiada não precisa mais que um maestro estático na frente do palco. Claro que diante da exuberância e da empatia com o público podem haver mais e diferentes resultados’’, avalia Morozowicz.
Atingir um conceito de peso na regência é uma tarefa árdua. Os grandes maestros ficam conhecidos depois de anos de profissão. ‘‘Levam-se dez anos para se fazer um regente e outros dez para um bom regente’’, salienta Roberto Farias.
A performance dos maestros nos palcos é marcada pela utilização de um outro instrumento: a batuta (palavra italiana, que significa compasso). O bastão com que se rege a orquestra pode ser considerado uma extensão do braço, através da qual o músico consegue visualizar as marcações.
Esse instrumento imprime precisão rítmica ao concerto. ‘‘O músico de orquestra precisa disso. É diferente da regência de coro, na qual as mãos acabam sendo mais expressivas’’, explica Norton Morozowicz. No entanto, existem maestros de orquestra que regem sem a batuta. ‘‘Na verdade, é um mero instrumento a serviço do músico. Dependendo da maneira com que rege, o maestro não precisa nem do braço. Basta o olhar’’, ressalta.
Angelo Dias, que está ensaiando o coro do 20º FML, explica que a ausência da batuta na regência de coros se explica pela diferença entre a voz e o instrumento. ‘‘O som instrumental é mais preciso no ataque. A voz faz isso naturalmente. Como o ataque é mais maleável no coro, pode ser conseguido sem a batuta, sem imprimir a fixação rítmica’’.
Para o regente, o coro tem uma vantagem: o referencial rítmico não depende tanto do maestro. Esse referencial, detalha Dias, é mais importante por causa dos compassos. ‘‘O músico é muito só e precisa do maestro, que unifica a orquestra’’, ensina.
Independente de ter a batuta nas mãos, o maestro se depara com os mais variados tipos e níveis de composições. O que seria uma peça difícil? Norton Morozowicz acredita que o regente tem que dominar, sobretudo, a questão estilística de cada compositor. De qualquer forma, existem as obras mais complexas e tecnicamente difíceis. Para isso existem os ensaios.
Roberto Farias diz que cada obra tem sua peculiaridade. ‘‘Um maestro pode se dar bem com uma peça do século 20 e ser um desastre com uma do século 17’’, analisa. O que importa é que ele induz o tempo todo a uma maneira de produzir o som. ‘‘O regente antecipa essa intenção e, com o gestual, induz à resposta do que imagina da qualidade sonora, da intensidade e do que quer o compositor’’, observa Farias.

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