O heroísmo do cotidiano na obra de Sandro Veronesi
Escritor italiano que conquistou o leitor brasileiro com o romance “O Colibri”, é um dos convidados internacionais da Flip
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de julho de 2025
Escritor italiano que conquistou o leitor brasileiro com o romance “O Colibri”, é um dos convidados internacionais da Flip
Marcos Losnak/ Especial para a Folha 
Histórias de família são a alma da literatura do escritor italiano Sandro Veronesi. Pessoas comuns vivendo experiências que alimentam a normalidade do cotidiano.
Para o romancista, pessoas especiais geralmente costumam viver destinos especiais. Mas com as pessoas comuns as coisas são diferentes: “Quando pessoas normais, que realmente não esperam nada grandioso de suas vidas, são convocadas a encarar o imenso heroísmo de aguentar algo que é insuportável, essas pessoas normais, para mim, são os heróis mais irresistíveis.”
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O heroísmo do cotidiano presente nas histórias narradas por Sandro Veronesi tem agradado o leitor braseiro. Seu romance “O Colibri”, publicado em 2024 pela editora Autêntica Contemporânea, vendeu mais de 20 mil exemplares de maneira silenciosa. Impulsionado pelos clubes de leitura e pelo boca a boca, o livro ganhou uma projeção extraordinária.
O escritor é um dos convidados internacionais da FLIP - Festa Literária de Paraty que acontece de 30 de julho a 3 de agosto na cidade de Paraty (RJ) - evento que este ano homenageia o poeta paranaense Paulo Leminski. Sandro Veronesi participa de uma conversa dia 31 de julho na mesa “A Extraordinário Vida Comum”, ao lado do escritor cearense Pedro Guerra.
Aquecendo a vinda de Veronesi ao Brasil, a editora Autêntica Contemporânea está lançando “Setembro Negro”, romance que narra a descoberta da paixão por um garoto de 12 anos durante uma viagem de férias no litoral italiano de 1972.
O personagem narrador, Gigio, na idade adulta, refaz suas memórias dos dias em que viveu ao lado Gilda, uma menina que o introduz ao universo do amor, da música, da literatura e da dança. Logo no início Gigio avisa: “Para começar a contar esta história, preciso falar dos meus pais. Naquela época, eles eram os guardiões da minha serenidade, e isso significa que eram bons pais. Eu tinha doze anos, e não havia nada em minha vida que chegasse perto da importância deles. Se é possível dizer que minha infância foi um espaço seguro e que fui uma criança feliz, é mérito deles. Eis a razão pela qual os fatos que contarei me abalaram tanto: porque, pela primeira vez, eles não souberam me proteger, ou melhor, foram uma das causas das perturbações que sofri. Pela primeira vez, o mundo conseguiu me tocar diretamente, sem filtros – e o mundo queima, é fogo vivo, e eu não sabia disso.”
O entendimento de Gigio é de que, imerso na bolha da primeira paixão e da primeira desilusão, ele não viu a tragédia que devastou sua família. Não foi queimado pelo incêndio provocado por seus pais. Não foi chamuscado pelo incêndio que destruiu a segurança da família e isso representou sua salvação: “O sentimento de culpa me protegeu, pois assinalava que, em meia àquele desastre, havia algo meu que sobrevivia, algo que pertencia somente a mim. Tudo bem, era uma perda, era uma dor, mas se encontrava fora da cratera produzida pelos adultos.”

TRÊS GERAÇÕES
Em “O Colibri”, Sandro Veronesi constrói uma história mais abrangente. Narra a trajetória de Marco, de seus pais, de seus avós. A história de três gerações é contada através de cartas, e-mails, documentos, bilhetes, mensagens de whatsapp, etc.
Marco é um homem normal, extremamente comum, dentro de um cotidiano banal. Uma pessoa que não tem a mudança como elemento de vida. Até o dia em que um acontecimento abre as portas do passado para reforçar sua posição diante da vida: “O fato é que é difícil entender que haja um motivo por trás do movimento, mas é mais difícil entender que haja algum também por trás da imobilidade. Mas isso é porque, aos poucos, a nossa época foi conferindo cada vez mais valor às mudanças, inclusive como fim em si mesma, e mudança é o que todos querem. Assim, não há o que fazer; no final, quem se move é corajoso, e quem permanece parado é medroso; quem muda é iluminado, e quem não muda é obtuso. É a nossa época que decidiu. Por isso, fico feliz, que você tenha se dado conta de que é preciso ter coragem e energia também para ficar parado.”
Apesar de ganhar popularidade apenas recentemente, a literatura de Sandro Veronesi não é exatamente uma grande novidade ao leitor brasileiro. A editora Rocco foi a primeira a lançar seus romances no Brasil. Publicou “A Força do Passado” em 2003, “Caos Calmo” em 2007 e “XY” em 2011 – livros hoje encontrados apenas em sebos.
Um detalhe. Todos os romances do autor sempre possuem uma mesma epígrafe, uma frase do escritor irlandês Samuel Beckett (1906 – 1989): “Não posso continuar. Continuarei.”
Uma frase que resume o sentido da trajetória das personagens das histórias narradas por Veronesi. Continuar, continuar e a esperança de continuar.
SERVIÇO:
“Setembro Negro”
Autor – Sandro Veronesi
Editora – Autêntica Contemporânea
Tradução – Karina Jannini
Páginas – 288
Quanto – R$ 74,80 (papel) e R$ 52,90 (e-book)
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“O Colibri”
Autor – Sandro Veronesi
Editora – Autêntica Contemporânea
Tradução – Karina Jannini
Páginas – 336
Quanto – R$ 79,80 (papel) e R$ 55,90 (e-book)


