Histórias de família são a alma da literatura do escritor italiano Sandro Veronesi. Pessoas comuns vivendo experiências que alimentam a normalidade do cotidiano.

Para o romancista, pessoas especiais geralmente costumam viver destinos especiais. Mas com as pessoas comuns as coisas são diferentes: “Quando pessoas normais, que realmente não esperam nada grandioso de suas vidas, são convocadas a encarar o imenso heroísmo de aguentar algo que é insuportável, essas pessoas normais, para mim, são os heróis mais irresistíveis.”

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O heroísmo do cotidiano presente nas histórias narradas por Sandro Veronesi tem agradado o leitor braseiro. Seu romance “O Colibri”, publicado em 2024 pela editora Autêntica Contemporânea, vendeu mais de 20 mil exemplares de maneira silenciosa. Impulsionado pelos clubes de leitura e pelo boca a boca, o livro ganhou uma projeção extraordinária.

O escritor é um dos convidados internacionais da FLIP - Festa Literária de Paraty que acontece de 30 de julho a 3 de agosto na cidade de Paraty (RJ) - evento que este ano homenageia o poeta paranaense Paulo Leminski. Sandro Veronesi participa de uma conversa dia 31 de julho na mesa “A Extraordinário Vida Comum”, ao lado do escritor cearense Pedro Guerra.

Aquecendo a vinda de Veronesi ao Brasil, a editora Autêntica Contemporânea está lançando “Setembro Negro”, romance que narra a descoberta da paixão por um garoto de 12 anos durante uma viagem de férias no litoral italiano de 1972.

O personagem narrador, Gigio, na idade adulta, refaz suas memórias dos dias em que viveu ao lado Gilda, uma menina que o introduz ao universo do amor, da música, da literatura e da dança. Logo no início Gigio avisa: “Para começar a contar esta história, preciso falar dos meus pais. Naquela época, eles eram os guardiões da minha serenidade, e isso significa que eram bons pais. Eu tinha doze anos, e não havia nada em minha vida que chegasse perto da importância deles. Se é possível dizer que minha infância foi um espaço seguro e que fui uma criança feliz, é mérito deles. Eis a razão pela qual os fatos que contarei me abalaram tanto: porque, pela primeira vez, eles não souberam me proteger, ou melhor, foram uma das causas das perturbações que sofri. Pela primeira vez, o mundo conseguiu me tocar diretamente, sem filtros – e o mundo queima, é fogo vivo, e eu não sabia disso.”

O entendimento de Gigio é de que, imerso na bolha da primeira paixão e da primeira desilusão, ele não viu a tragédia que devastou sua família. Não foi queimado pelo incêndio provocado por seus pais. Não foi chamuscado pelo incêndio que destruiu a segurança da família e isso representou sua salvação: “O sentimento de culpa me protegeu, pois assinalava que, em meia àquele desastre, havia algo meu que sobrevivia, algo que pertencia somente a mim. Tudo bem, era uma perda, era uma dor, mas se encontrava fora da cratera produzida pelos adultos.”

Embora seu sucesso seja recente no Brasil, livros de Sandro Veronesi já haviam sido publicados no país no início dos anos 2000
Embora seu sucesso seja recente no Brasil, livros de Sandro Veronesi já haviam sido publicados no país no início dos anos 2000 | Foto: Divulgação

TRÊS GERAÇÕES

Em “O Colibri”, Sandro Veronesi constrói uma história mais abrangente. Narra a trajetória de Marco, de seus pais, de seus avós. A história de três gerações é contada através de cartas, e-mails, documentos, bilhetes, mensagens de whatsapp, etc.

Marco é um homem normal, extremamente comum, dentro de um cotidiano banal. Uma pessoa que não tem a mudança como elemento de vida. Até o dia em que um acontecimento abre as portas do passado para reforçar sua posição diante da vida: “O fato é que é difícil entender que haja um motivo por trás do movimento, mas é mais difícil entender que haja algum também por trás da imobilidade. Mas isso é porque, aos poucos, a nossa época foi conferindo cada vez mais valor às mudanças, inclusive como fim em si mesma, e mudança é o que todos querem. Assim, não há o que fazer; no final, quem se move é corajoso, e quem permanece parado é medroso; quem muda é iluminado, e quem não muda é obtuso. É a nossa época que decidiu. Por isso, fico feliz, que você tenha se dado conta de que é preciso ter coragem e energia também para ficar parado.”

Apesar de ganhar popularidade apenas recentemente, a literatura de Sandro Veronesi não é exatamente uma grande novidade ao leitor brasileiro. A editora Rocco foi a primeira a lançar seus romances no Brasil. Publicou “A Força do Passado” em 2003, “Caos Calmo” em 2007 e “XY” em 2011 – livros hoje encontrados apenas em sebos.

Um detalhe. Todos os romances do autor sempre possuem uma mesma epígrafe, uma frase do escritor irlandês Samuel Beckett (1906 – 1989): “Não posso continuar. Continuarei.”

Uma frase que resume o sentido da trajetória das personagens das histórias narradas por Veronesi. Continuar, continuar e a esperança de continuar.

SERVIÇO:

“Setembro Negro”

Autor – Sandro Veronesi

Editora – Autêntica Contemporânea

Tradução – Karina Jannini

Páginas – 288

Quanto – R$ 74,80 (papel) e R$ 52,90 (e-book)

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“O Colibri”

Autor – Sandro Veronesi

Editora – Autêntica Contemporânea

Tradução – Karina Jannini

Páginas – 336

Quanto – R$ 79,80 (papel) e R$ 55,90 (e-book)

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