O herói do cinismo
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de janeiro de 1997
Marcelo Rezende Agência Folha 
O que é exatamente um gângster? Do que se imagina, parece alguém que está ao lado do crime, um parceiro fiel da violência e da ação cínica em nome da vantagem pessoal. O detetive seria então seu oposto. Isso, claro, até 1941, quando o nova-iorquino Humphrey Bogart mudava de lado e, após anos e dezenas de filmes interpretando bandidos e assassinos, encarnava o Sam Spade para O Falcão Maltês, de John Huston. Começa ali a construção de seu mito. E também de uma certa confusão de papéis.
Se os escritores de romances policiais da América obscureciam a diferença antes tão clara entre o herói e o vilão, Bogart serviu - com sua máscara de cinismo e o sorriso vacilante - como encarnação desse novo momento. O mundo estava em guerra e, por mais que a humanidade necessitasse de
heróis, havia também a clara noção de que tudo estava em risco, as certezas, os desejos e os tais valores norte-americanos. Em uma época assim eram necessárias então medidas extremas. Bogart foi o homem que, vivendo sem concessões tanto em sua vida pessoal quanto em sua carreira, percebeu rapidamente para que lado estava girando a Terra. Alimentou o mito e se apoderou dele. Pouco importa que tantas vezes se mostrasse frágil ou sensível, um amante dos clássicos gregos de educação refinada. Bogart só recebia crédito com a arma na mão em meio a uma situação de perigo, pois é esse o herói romântico. Assim, só poderia ser ele o homem capaz de deixar Ingrid Bergman partir em meio ao nevoeiro de Casablanca (1943), de Michael Curtiz. Ali, em dois ou três minutos de cena, há a convergência de força, auto-sacrifício e uma certa imensidão de caráter, pouco importando que esse mesmo homem viva de contrabando ou de uma casa de jogos. Com os anos, Bogart tenta a transformação. Assume papéis de risco, sendo explicitamente o vilão de Huston em O Tesouro de Sierra Madre, de 1948. Ou, ainda, o romantismo de Sabrina, de Billy Wilder. Mas Bogart não consegue, pois nada muda. Sua última aparição foi em O Acossado, de Jean-Luc Godard, dois anos depois de sua morte. Godard muda a história do cinema fazendo com que seu personagem, Michel Poiccard, ame Bogart desesperadamente. Muitos, antes e depois, seguiram Poiccard.


