O HERÓI DAS CORES
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Ziggy e Beile moravam num bairro feio e cinzento. Tudo era asfalto e concreto. Tinham em comum a paixão por antigos grafites coloridos espalhados pelos muros da região, desenhos que chamavam de grafiscos.
Na verdade os garotos Ziggy e Beile tinham muita coisa em comum. Ambos eram sérios, solitários e sem amigos. Ambos tinham famílias completamente malucas. A mãe de Ziggy, fanática por discoteca, vivia de sapatos plataforma e roupas de lantejoulas dançando em qualquer hora, em qualquer lugar. O pai, genuíno punk dono de um sebo encardido, vivia ouvindo discos arranhados e cuspindo para o alto. Por incompatibilidade musical, moravam em casas separadas.
A família de Beile não era muito diferente. A mãe, para sua tristeza, abandonou a casa deixando apenas um bilhete dizendo que precisava pensar, dar um tempo. Seu pai, após perder o emprego, enlouqueceu e passou a acreditar que era um comandante e a vida cotidiana uma guerra. Chamava Beile de recruta e só comia batata frita. Em seus surtos, qualquer espirro era uma bomba e só se acalmava assistindo Top Gun pela milésima vez. Para piorar a situação, o irmão mais velho, aquele que segurava as pontas da casa, apaixonou-se por uma moça que ministrava sorvetes para qualquer doente.
Beile achava que sua mãe não o amava, por isso o abanou. Ziggy, em sua cadeira de rodas, achava que sua mãe era preocupada demais. Ligava de cinco em cinco minutos para seu celular para saber se estava tudo bem. Quando se conheceram, Beile e Ziggy agarraram de unhas de dentes a paixão que os unia, os grafiscos. Criaram um fã-clube e inventaram um herói, na verdade um super-herói, o Kid Grafisco, aquele que iria trazer de vota a alegria das cores ao mundo cinzento. Num cinema abandonado, instalaram a sede do fã-clube, escreveram boletins informativos e imprimiram uma pequeno dicionário de palavras-código. Coisas como grafissaudações, afirmografiscativo, megagrafisfantástico e grafisbolante.
O problema inicial era que o fã-clube Kid Grafisco possuía apenas dois integrantes, Ziggy, o presidente, e Beile, o vice-presidente. Mas acreditavam que, com o tempo tudo mudaria, teriam milhares de integrantes sonhando com uma cidade mais colorida. Assim, refugiando-se no mundo de Kid Grafisco, deixando os problemas familiares de lado, os garotos começam a viver aventuras vibrantes, bem como doloridos dramas, que culminam na ressurreição do herói em pessoa que volta ao ofício.
A história de Ziggy e Beile é invenção de Philip Ridley, roteirista e diretor de cinema inglês. Está no livro Kid Grafisco, que acaba de ser publicado pela Editora Cia. Das Letras. Preserva a estrutura clássica da literatura infanto-juvenil o aprendizado dos ritos de passagem incorporando elementos da cultura pop. Apresenta a evolução das relações de convivência familiar, companheirismo e amizade. Com a invenção de Kid Grafisco, em torno dos garotos desenvolve-se um círculo de amizade que envolvem famílias e outras crianças. Uma história sobre o desenvolvimento da amizade, entre dores e alegrias.
Apesar da imagem caricata das personagens, Kid Grafisco mostra com bom humor que, apesar das diferenças individuais, as pessoas podem conviver coletivamente de maneira harmoniosa. A receita é simples, cada um compreendendo e respeitando o jeito do outro. E a união deve fazer a força, não a forca.
Kid Grafisco De Philip Ridley, ilustrações de Chris Riddell, Editora Cia. das Letras, tradução de Carlos Sussekind, 224 páginas, R$ 22,00.





