O herdeiro do samba
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de abril de 1999
Ranulfo Pedreiro 
- Toma o lenço meu filho, vai defender o que é nosso de geração para geração.
Foi assim que Ataulfo Alves Júnior recebeu o lenço com que o pai regia o conjunto As Pastoras, durante um espetáculo, levando também a incumbência de divulgar sua obra e lutar pela preservação da memória musical brasileira. Não é para menos. Ataulfo Alves é um dos maiores nomes da música nacional, mas faz parte do grande time de talentos esquecidos. Nos 30 anos de sua morte, completados hoje, o compositor está em evidência. E as homenagens vão continuar também pelos 90 anos de seu nascimento, ocorrido em 2 de maio de 1909.
Natural de Miraí, interior de Minas Gerais, Ataulfo Alves viveu no Rio de Janeiro, onde se consagrou como compositor e alcançou a fama definitiva com Ai que Saudades da Amélia. Cantor de voz intimista, criou o grupo As Pastoras para dar respaldo às suas limitações vocais numa época em que a empostação operística comandava os gostos e o mercado.
Depois de divulgar a música brasileira pela Europa e África, morreu em 1969 de hemorragia, após operar de uma úlcera no duodeno. Antes, porém, iniciou o filho caçula Ataulfo Júnior na arte do samba, ainda na década de 60. Preocupado em preservar o patrimônio deixado pelo pai, com mais de 600 composições, Ataulfo Júnior concedeu a seguinte entrevista à Folha2:
A música na família vem de longa data, seu avô era violeiro...
Ataulfo Júnior - Severino Alves era violeiro, tirava onda com a viola na fazenda numa boa. E meu pai começou a fazer os versinhos dele. Chegavam aquelas revistinhas com letras de música e ele improvisava e desenvolvia em cima daquilo.
Ele era um sujeito tranquilo?
Ataulfo Júnior - Sempre foi um mineiro gente boa, mas gostava de tudo muito certo, perfeito, nos trinques, e ficava aborrecido se algo desse errado. Ele teve sete irmãos.
Antes de se tornar compositor, seu pai teve que se virar para ajudar a família, não é?
Ataulfo Júnior - Com dez anos começou a ajudar minha avó. Meu avô morreu acho que foi de tétano. Meu pai foi leiteiro, condutor de boi, marceneiro, engraxate, lavrador e ao mesmo tempo estudava no grupo escolar Dr. Justino Pereira. Foi daí que surgiu Meus Tempos de Criança. Aos 17 anos veio para o Rio de Janeiro com um médico, o dr. Afrânio Moreira Resende. Meu pai entregava remédios e receitas e à noite fazia a limpeza. Mas esse não era o jogo dele. Então conseguiu numa farmácia uma vaga para ser lavador de vidros. Depois aprendeu a mexer com fórmulas e se tornou prático em farmácias.
E o samba?
Ataulfo Júnior - Quando ele voltava do trabalho, ia para as rodas de samba. Já tocava violão, cavaquinho e bandolim, e organizou um conjunto no bairro onde morava para animar bailes e festas. Em 1934, o Bide, que era amigo dele, ouviu uma de suas composições e resolveu apresentá-lo ao senhor Evans, diretor-chefe da RCA Victor. Depois a Carmen Miranda gravou Tempo Perdido, foi o primeiro samba de Ataulfo Alves a ser gravado. Aí ficou mais fácil entrar no meio musical.
É verdade que ele conheceu Carmen Miranda antes de ambos fazerem sucesso?
Ataulfo Júnior - A Carmen frequentava a casa do doutor da farmácia, e meu pai a conheceu ali.
Quando veio o sucesso?
Ataulfo Júnior - Acho que foi em 1935, o Almirante e o Bide o apresentaram a um cantor, o Floriano Belham, que gravou Saudade do Meu Barracão. Este foi o primeiro sucesso. Depois veio o Bando da Lua, com Menina que Pinta o Sete; Silvio Caldas gravou A Você, composta com Aldo Cabral; Carlos Galhardo com Quanta Tristeza, parceria com André Filho; em 1940 e 1941 ganhou o Carnaval com Oh Seu Oscar e O Bonde São Januário; e foi participando de festivais e entrando no meio.
Mas o maior sucesso não foi Ai Que Saudades da Amélia?
Ataulfo Júnior - Realmente, foi o maior sucesso dele. Aí teve uma briga do Herivelto Martins com a Dalva de Oliveira, que eram casados. Baseado na discussão, meu pai fez Errei Sim e Fim de Comédia, que a Dalva gravou com sucesso. E as músicas têm tudo a ver com a briga. Aí vieram outros sucessos, como Pois É e Mulata Assanhada.
E hoje, aos 90 anos do nascimento de Ataulfo Alves, como andam as homenagens?
Ataulfo Júnior - Acho que meu pai não está sendo bem homenageado em seu País. Eu batalho para deixar uma luzinha acesa para ele, e também para o Herivelto Martins, Pixinguinha, Ari Barroso e tanta gente que não é lembrada. Meu pai é tocado na Finlândia, Estados Unidos, Áustria, França, Suíça, Suécia, Japão, Alemanha, Bélgica, Itália, Rússia e outros países, mas aqui não é lembrado. Então organizamos uma série de shows em homenagem aos 90 do nascimento dele, ao lado da Áurea Martins, com Monarco, As Gatas, Zezé Gonzaga e José Luiz Mazziotti, Elza Soares e Roberto Silva, com direção de Henrique Cazes.
Você chegou a cantar com ele.
Ataulfo Júnior - Eu comecei no Teatro Record levado por meu pai ao programa da Elizeth Cardoso, minha madrinha musical. Depois cantei muito com ele, todo show que fazia me levava. O último foi em uma boate em Copacabana em 1969, e chamava-se Eu sou Assim.
Dizem que ele era muito correto. Ele conciliava boemia com família?
Ataulfo Júnior - Ah, ele saía muito, era um grande boêmio, mas também era um grande chefe de família. Adorava fazer longas temporadas em boates.
Tem aquela história de que ele teria passado o título de General do Samba para você...
Ataulfo Júnior - Eu sou um pupilo, não tenho título de nada, ele é inimitável, não vai nascer outro. O que ele fez musicalmente ninguém vai fazer. Ele foi um compositor de música brasileira, não só sambista. Outro dia peguei um maracatu dele e dei para o Alceu Valença, Fogueira no Coração. O Alceu ficou feliz da vida. Outro dia cheguei numa boate no Algarve, em Portugal, e tinha gente que lembrava do meu pai, de uma viagem que ele fez à Europa há mais de 30 anos, e me deram papel com autógrafo dele para eu autografar do lado. É uma loucura, dão o maior valor 30 anos depois.
Tem algum lançamento para marcar a data?
Ataulfo Júnior - O selo Revivendo, de Curitiba, vai lançar dois CDs em homenagem, com material cedido pela Polygram. Logo estará na praça. E estamos lançando uma coletânea com os cantores que estouraram na década de 70: eu, o Gilson de Souza, o Benito de Paula, Luiz Ayrão e muitos outros.


