São Paulo, 06 (AE) - Na entrevista que deu à Agência Estado por telefone, Volker Schlondorff contou que John Malkovich não foi sua primeira escolha para o elenco de "O Guardião da Floresta", que estréia amanhã (07). Ele queria fazer o filme com Gérard Depardieu, mas o ator francês não ficou interessado. Malkovich embarcou imediatamente no projeto. "Havíamos trabalhado juntos em "A Morte do Caixeiro Viajante" nos Estados Unidos, em 1985", lembra Schlondorff. Ele diz que com Depardieu o lado "ogro" do personagem talvez fosse favorecido, mas com Malkovich o ogro ficou mais nuançado do ponto de vista da construção interior. "Que Gérard não me ouça, mas John é um ator mais completo", diz Schlondorff.
"O Guardião da Floresta" reabre a discussão sobre o nazismo. É uma produção cara para os padrões do cinema alemão atual (US$ 10 milhões). A entrada de capitais internacionais no projeto obrigou Schlondorff a fazer concessões. Ele queria que o filme fosse falado em francês e alemão. Teve de rodar em inglês. É uma adaptação do romance "O Rei da Floresta", de Michel Tournier. Schlondorff confessa que o livro o assustou e fascinou
ao mesmo tempo. Oferece uma visão extremamente francesa dos alemães, como um conto de fadas verdadeiro. O mais difícil, segundo o diretor, foi achar este tom.
É a história de Abel, o ogro do título original (The Ogre). Abel é um gigante simples, um visionário de pouca visão que está sempre juntando as mãos para fazer um berço para uma criança pequena. Abel considera-se um predestinado. Quando o filme começa, para fugir a um castigo, ele diz que gostaria que o internato religioso em que estuda pegasse fogo. É o que acontece. Pela vida afora, esse homem imaturo vai sempre achar que poderá resolver assim os seus problemas, como se houvesse uma saída mágica para tudo.
Ele se envolve diretamente com Goring e depois vai trabalhar num castelo que funciona como centro de treinamento dos nazistas para garotos. Sua função é recrutar meninos nas redondezas, levando-os para o castelo. Isto cria a fama do ogro. Mas este ogro tem um coração. Quando a derrota é inevitável, tenta salvar suas crianças, mas choca-se com o fanatismo quase religioso que elas revelam pelo nazismo. Abel salva um garoto judeu. Carrega-o na travessia de um rio, quando recria a célebre passagem de Jesus Cristo e São Cristóvão.
O menino é franzino, mas Abel diz que nunca carregou um peso tão forte. O que ele carrega, na verdade, é a culpa do povo alemão durante o nazismo, que Schlondorff exorciza neste filme. O cineasta é conhecido por sua mão pesada (e isso nunca ficou tão evidente como na sua adaptação de Marcel Proust, Um Amor de Swann, que simplifica demais as sutilezas do escritor). "O Guardião da Floresta" não é o filme horrível criticado pelos "Cahiers du Cinéma", que detestam Schlondorff. Também não é o grande filme saudado pela crítica americana. Fica num meio-termo respeitável. A curiosidade é que os interiores foram todos rodados nos Estúdios Babelsberg, sede da antiga UFA. Schlondorff
atual diretor de Babelsberg, filmou sua saga antinazista nos mesmos estúdios em que Fritz Lang criou "Os Nibelungos", impregando a tela dos mitos alemães sobre os quais o nazismo gostava de se alicerçar.

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