'O Guarani' volta aos palcos nacionais em duas montagens após mais de 20 anos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de abril de 2000
Por João Luiz Sampaio 
São Paulo, 18 (AE) - No ano em que se comemoram os 500 anos do Descobrimento, duas montagens de "O Guarani", ópera do compositor campineiro Antônio Carlos Gomes, foram programadas como parte das comemorações oficiais. Uma delas, patrocinada pelo Instituto Alfa em parceria com a Prefeitura de São Paulo, ocorre no início de maio, com direção de José Possi Neto. Em Manaus, a montagem, sob o comando de Iacov Hillel, abre a 4ª edição do festival de ópera da cidade.
Segundo o diretor-geral do festival, Cléber Papa, é importante que "O Guarani" esteja sendo montado neste momento da história brasileira, após mais de 20 anos fora dos palcos nacionais. "Trata-se de uma verdadeira epopéia brasileira e é essencial que sua produção sirva de ponto de partida para uma revisão aprofundada da obra de Carlos Gomes e de outros compositores brasileiros", explica.
O maestro Luiz Fernando Malheiro, que vai reger a Amazonas Filarmônica no festival, também ressalta o significado dessas produções. "Desde o período barroco tivemos grandes compositores, mas suas obras têm ficado de fora das programações oficiais, mal preservadas, o que nos obriga a iniciar um processo de valorização de nossa música", diz o maestro, que tem realizado com a São Paulo Imagem Data produções de óperas de Carlos Gomes na àpera Nacional de Sofia, na Bulgária.
Influências - Apresentada pela primeira vez em 1870, alcançando grande sucesso entre o público do La Scala de Milão, "O Guarani" foi a terceira ópera de Carlos Gomes e a primeira inteiramente composta na Itália. Sua música é influenciada pela obra de compositores contemporâneos de Carlos Gomes, como o italiano Giuseppe Verdi. "Carlos Gomes conseguiu, com uma inspiração melódica genuína e rara, desenvolver uma linha de trabalho própria configurando-se como um dos poucos compositores realmente autênticos de seu tempo", indica Malheiro.
Um dos destaques da montagem de Manaus é a utilização, pela primeira vez, da partitura completa da ópera, reconstruída por Roberto Duarte, que teve como base para o trabalho a versão editada na Itália pela Ricordi e os manuscritos originais do compositor. Apesar de alguns problemas, essa versão inclui, por exemplo, o dueto de Peri e Ceci no terceiro ato, quando ele está para ser executado. Em São Paulo será utilizada a edição italiana, já com algumas modificações, utilizada pelo maestro John Neschling nas montagens feitas na àpera de Bonn, na Alemanha, e no Washington Opera House, nos Estados Unidos, em 1994.
Romance - Baseada no romance de mesmo nome, de José de Alencar, a ópera tem como palco o Rio do século 16. Ceci, filha do fidalgo português Dom Antônio de Mariz, apaixona-se pelo índio Peri, da tribo dos guaranis, que a salva duas vezes da morte e deflagra o plano de traição que aventureiros espanhóis arquitetam contra Dom Antônio. Ao mesmo tempo, os aimorés, tribo indígena guerreira, ameaçam invadir o castelo dos portugueses. No clímax da ação, Peri, agora batizado e convertido, salva, mais uma vez, Ceci, feita prisioneira pelos aimorés, e os dois fogem juntos.
Carlos Gomes procurou recriar uma das épocas mais conturbadas da história do País. Estão presentes elementos, como o encontro entre os indígenas e os europeus, o fim da civilização aimoré, a miscigenação e a importância da Igreja Católica no âmbito da colonização. Em meio a esse atribulado contexto, a história de amor entre o herói romântico Peri e a jovem e imaculada Ceci acaba impondo-se como um modo de deflagrar os conflitos em torno dos quais gira a ópera.


