A aflita criatura gritando em desespero na mais famosa pintura norueguesa, ‘‘O Grito’’, está no centro de uma confusão internacional sobre copyright (direitos autorais).
A obra prima de Edvard Munch, datada de 1893, que mostra uma figura embrionária gritando sob um céu sanguíneo, caiu em um lapso de 20 anos sobre leis de direito autoral nos Estados Unidos e Europa.
Cinquenta anos depois da morte de Munch, os Estados Unidos levantaram todas as restrições ao uso do trabalho do mais notório pintor norueguês, mas a Europa mantém proibida por 70 anos a utilização do trabalho de um artista sem a aprovação do detentor dos direitos autorais.
‘‘O Grito’’ é quase como um ícone agora, e é usado no mundo todo em propagandas e desenhos animados’’, disse o diretor do Museu Munch, em Oslo, Per Boym. ‘‘O corpo curvado da figura, sem dar pistas do sexo, representa claramente o homem moderno, sem um Deus, o indivíduo solitário se tornou uma expressão dos anos 90.’’
Em tudo Mas desde que a lei de restrições de direitos autorais foi levantada na América, o volume de propagandas e produtos inundando a Europa mostrando ‘‘O Grito’’ sem aprovação de copyrigth dos licenciados, o Museu Munch e a família do artista, aumentou consideravelmente.
A Sociedade Norueguesa de Artes Visuais (Bono) e grupos irmãos além-mar têm desde 1994 esmagado ou explodido figuras do ‘‘Grito’’, cartões postais do gritador fumando um baseado e uma toda uma linha de produtos ‘‘Grito’’, nenhum deles autorizado.
A mais recente batalha é contra um travesseiro com a figura do gritador dotado de uma caixa de voz que garante ter 3 mil gritos gravados. ‘‘Nós podemos impedir o uso, confiscar os produtos e exigir compensação por perdas e danos morais’’, disse o executivo chefe da Bono, Harald Holter.
‘‘Nós estimamos que agora ‘‘O Grito’’ é a obra de arte mais amplamente utilizada depois da ‘‘Mona Lisa’’. Sua expressividade é de fácil uso pelas empresas de publicidade, mas isso também pode ser abusado.’’
Arrecadação Autorização formal para o uso do ‘‘Grito’’ comercialmente é dada (melhor seria dizer pedida) raramente. Apenas 1,6 milhão de coroas norueguesas (US$ 240 mil) é arrecadado pelo uso da obra, anualmente.
Pedidos de empresas farmacêuticas querendo usar a obra em propagandas de anti-depressivo vêm sendo recusadas. Têm tido igual tratamento os partidos políticos.
Holter disse que seu grupo e outros que defendem direitos autorais estão tentando nivelar internacionalmente as leis que tratam do assunto, fazendo lobby para que os Estados Unidos se alinhem à União Européia, que definiu a restrição de 70 anos no ano passado.
Até lá, continuou Holter, a ação terá que continuar a ser tomada contra o crescente uso desautorizado de ‘‘O Grito’’. Ele também afirmou que o roubo da pintura, avaliada em US$ 30 milhões, da Galeria Nacional de Oslo, em 1994, parece ter acendido mais ainda o interesse pela obra.
Roubo Ladrões furtaram a pintura em um piscar de olhos, em 12 de fevereiro de 1994, dia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Lillehammer, usando uma escada. Eles quebraram uma janela do piso térreo e arrancaram o quadro da parede.
A tela foi recuperada intacta três meses mais tarde e os ladrões foram pegos depois que agentes britânicos do esquadrão de artes e antiguidades da Scotland Yard se fingiram de possíveis compradores do museu John Paul Getty, da Califórnia.
Quatro homens foram presos pelo roubo no começo deste ano. Mas foi um cartão de visitas engraçadinho, deixado no local do crime pela gangue, que deixou a Galeria Nacional de rosto vermelho.
‘‘Nós não temos mais nada a dizer. Tudo foi dito na imprensa’’, disse o assessor da galeria, Bodil Sorensen.
No Brasil A segurança na galeria agora foi aumentada. Guardas com pequenos fones de ouvido e walkie-talkies patrulham o lugar o tempo todo, e um deles fica sempre junto ao ‘‘O Grito’’. O quadro, atualmente, está no Brasil, exposto na 23ª Bienal de São Paulo, que termina amanhã.
Ainda que aclamado no século 20, ‘‘O Grito’’ não foi apreciado quando foi mostrado ao público pela primeira vez. Ele era parte de uma série que Munch chamou de ‘‘O Friso da Vida’’, exibida em Berlim, em 1893, causando um grande escândalo e rotulada de ‘‘um insulto à arte’’. Depois de uma semana, a exposição foi fechada.
‘‘Ela era vista como incivilizada e pornográfica’’, disse Boym. ‘‘Munch era tido pelo público como um mau pintor e era motivo de riso, mas era muito admirado pelos círculos de artistas’’, revelou.
Reconhecimento Foi entre 1902 e 1909, trabalhando na Alemanha, que Munch se tornou famoso como artista. Tornado irritadiço pela vida na cidade e bebendo muito, ele teve um colapso nervoso e, depois do tratamento, voltou à Noruega, onde passou o resto da vida em Skoyen, perto de Kristiania, seu lar de infância.
Munch morreu de pneumonia em 1944, com 80 anos. Em seu testamento, Munch deixou seu dinheiro para a família e também a uma fundação para artistas necessitados. Mas ele legou toda sua obra para a cidade de Oslo.
O museu Munch foi aberto em 1963. Uma nova ala foi adicionada entre 1992 e 1994, e mantém 1.150 das 1.800 obras que se supõe que Munch pintou, 17 mil gravuras e mais de 7 mil desenhos.

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