Drauzio Varella: livro "Prisioneiras" fecha uma trilogia sobre a realidade caótica do sistema prisional brasileiro
Drauzio Varella: livro "Prisioneiras" fecha uma trilogia sobre a realidade caótica do sistema prisional brasileiro | Foto: Fotos: Divulgação



"Preciso esquecer tudo o que aprendi nos meus dezessete anos em cadeias masculinas." Essa foi a primeira constatação a que chegou o médico Drauzio Varella ao colocar os pés, em 2006, na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo. Ele vinha de uma experiência de dezessete anos como médico voluntário da Casa de Detenção de São Paulo, vulgo Carandiru.
Após doze anos atuando como médico voluntário na Penitenciária Feminina da Capital, onde mais de 2 mil mulheres cumprem pena, Drauzio Varella acaba de publicar "Prisioneiras". Lançado pela editora Companhia das Letras, o livro traça o retrato da vida numa penitenciária feminina, um panorama das mulheres encarceradas e, como complemento, da falência do sistema penitenciário brasileiro.
"Prisioneiras" encerra a trilogia de Drauzio sobre o sistema carcerário brasileiro iniciada com "Estação Carandiru" (1999) e "Carcereiros" (2012). Os dois livros viraram best-sellers e ganharam versões para cinema e televisão, ao revelar, a partir de princípios humanitários, a realidade de uma penitenciária e a vida cotidiana de detentos e funcionários.
A diferença de "Prisioneiras", em comparação a "Estação Carandiru" e "Carcereiros", pode ser encontrada no fato de que, Varella, já conhecendo o funcionamento o universo das prisões masculinas, consegue estabelecer uma comparação entre o mundo das prisões femininas e masculinas.
Um dos primeiros pontos expostos por Dauzio diz respeito a hierarquia: "Os homens cumprem ordens dos superiores com o mesmo rigor com que exigem obediência de seus subordinados. A restrição do espaço físico só ressalta a relevância dessa coerência. (....) Nas prisões femininas as leis são semelhantes, assim como a hierarquia é estabelecida pelo mesmo processo de competição e seleção natural, com a diferença de que o respeito a ela é mais frouxo. Quase por instinto de sobrevivência, a mulher é mais avessa à submissão aos superiores; desde criança aprende a subverter a ordem, de forma a moldá-la aos ensejos pessoais sem dar a impressão de rebeldia, se possível. (...) A imposição de normas e as relações de mando, tão lineares entre homens presos, adquirem complexidade incomparável no caso das mulheres, porque as emoções entram em jogo com o mesmo peso da racionalidade.
Outra diferença exposta por Drauzio Varella está na frequência de visitas, o contato afetivo dos presos e presas com o mundo de fora. Enquanto nas prisões masculinas há filas de visitantes, nas femininas há gatos pingados. Se, por parte dos homens, há uma constância da visita de esposas, filhos, mães e parentes, por parte das mulheres ocorre um vácuo. Elas passam a cumprir duas penas, a judicial e o boicote afetivo por terem cometido um erro – na verdade o mesmo erro que os homens cometeram. Mas com consequências completamente diferentes e mais cruéis. Todo o machismo em exercício na sociedade se estende para o interior das cadeias femininas.
Seguindo a lógica dos volumes iniciais da trilogia, "Prisioneiras" traz uma coleção de relatos de vida. Histórias de dezenas de mulheres que podem ser consideradas a alma do livro. São revelados não apenas os acontecimentos que as levaram a cumprir pena, mas a história de toda uma existência e dos caminhos traçados. A grande maioria passou por algum tipo de abandono, miséria, violência física e sexual, ou por algum vínculo afetivo com homens economicamente vinculados ao crime.
No final do livro Drauzio realiza uma leitura sociológica e econômica do sistema prisional do país. Traça um mapa em que, na desorganização e ausência do poder do Estado dos presídios, o crime organizado assumiu tal poder. No caso o PCC (Primeiro Comando da Capital), que exerce o domínio de todos os presídios do estado de São Paulo, existe até um judiciário paralelo para regulamentar a conduta dos presos. Esse poder paralelo resolveu grande parte dos problemas internos de convivência.
Um poder paralelo que percebeu algo óbvio que o Estado não percebeu. A grande prioridade dos encarcerados, sejam homens ou mulheres, não é a liberdade como o senso comum acredita. A grande prioridade é permanecer vivo no cumprimento da pena. Simplesmente sair vivo da cadeia.

Imagem ilustrativa da imagem O grande sistema da desesperança



Serviço:
"Prisioneiras"
Autor – Drauzio Varella
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 280
Quanto – R$ 39,90

Fragmento: Os problemas de saúde eram muito diferentes daqueles que eu havia enfrentado nas prisões masculinas. Em vez das feridas mal cicatrizadas, sarna, furúnculos, tuberculose, micoses e as infecções respiratórias dos homens, elas se queixavam de cefaleia, dores na coluna, depressão, crises de pânico, afecções ginecológicas, acne, obesidade, irregularidades menstruais, hipertensão arterial, diabetes, suspeita de gravidez. Afastado da ginecologia desde os tempos de estudante, eu não estava à altura daquelas necessidades. O falatório ininterrupto na sala de espera era de atordoar. Por duas vezes precisei interromper a consulta e abrir a cortina para explicar que não conseguia auscultar os pulmões nem medir a pressão de ninguém no meio daquela balbúrdia, advertência jamais necessária em presídios masculinos. Num aspecto, entretanto, as duas experiências se assemelhavam: o grande número de doentes à espera, realidade que torna impossível dedicar muito tempo à mesma pessoa, tarefa especialmente árdua no caso das poliqueixosas. Com a sala de espera apinhada, é impossível resolver os problemas de alguém que diz sofrer de "agulhadas pelo corpo inteiro, problema de tireoide, bronquite, prisão de ventre, enjoo, falta de apetite, dor nos rins, pressão alta, bexiga caída e sistema nervoso" — queixas que me foram apresentadas, exatamente nessa ordem, por uma senhora de cabelo comprido à moda evangélica, presa na divisa do Paraná com vinte quilos de maconha no fundo falso do porta-malas do carro do marido, que desconhecia as atividades ilícitas da esposa. Ou satisfazer às expectativas de uma jovem de aparência saudável que alegava ter vindo à consulta com o objetivo de "fazer todos os exames". Quando já havia consultado perto de vinte pacientes, outras tantas para ser atendidas, uma gritaria assustadora ecoou pela galeria. É preciso ter sangue-frio nessas horas. A mais insignificante demonstração de insegurança ou nervosismo pode ser interpretada como covardia e jogar por terra uma reputação construída no decorrer de muitos anos. Permanecer impassível, quando o impulso natural é fugir de medo, exige autocontrole e experiência prévia. Levantei e abri a cortininha do consultório no exato instante em que o tropel invadiu a sala de espera aos gritos de sai da frente, sai da frente. No meio da confusão, vi uma loira miúda com o rosto e o cabelo ensanguentados carregada por duas mulheres que a seguravam pelos braços e por outras duas que lhe sustentavam as pernas, enquanto uma negra forte de calça justa e seios fartos amparava a cabeça desfalecida. (Fragmento de "Prisioneiras", de Drauzio Varella)
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