São Paulo, 20 (AE) - Demorou a ser lançado no Brasil, teve carreira rápida e passou como um cometa pelos cinemas. "O Grande Lebowsky" sai agora em vídeo. É uma oportunidade para conhecer esse filme dos irmãos Coen. Delicioso, embora se diga - e com razão - que não atinge o nível de trabalhos anteriores, como "Fargo", por exemplo. Os Coens operam sempre em dupla: Joel como diretor e roteirista; Ethan como produtor e co-roteirista. Mas os filmes são trabalhos a quatro mãos, mesmo.
Este é um belo divertimento - no sentido musical do termo. Lebowsky (Jeff Bridges) é uma espécie de hippie envelhecido. Desocupado, passa o tempo ouvindo rock dos anos 60 e jogando boliche com sua turma. Entre os amigos, há um veterano do Vietnã, o neurótico vivido por John Goodman, e um perdedor nato, bela caracterização de Steve Buscemi. Tudo vai no melhor dos mundos possíveis, até o dia em que Lebowsky é confundido com um homônimo, um milionário idoso casado com um linda aventureira. A partir daí, a vida de Lebowsky passa a ser tumultuada pela presença de sequestradores, policiais, chantagistas e mulheres fatais. Uma imersão no submundo violento da Califórnia, pela via da comédia.
E também da paródia. Porque a história lembra um Raymond Chandler que não se levava muito a sério. Tudo evolui na base da trapalhada, uma comédia de equívocos, que exige um personagem desligadão como Lebowsky. Aquele tipo que se julga o mais esperto do pedaço, mas nunca sabe exatamente com quem, ou com o que está lidando. Um Philip Marlowe devoto do baseado e não do uísque, como era o de Humphrey Bogart.
Paródia também de uma certa truculência social tão comum no país, expressa por um traumatizado Walter Sobchak (Goodman), veterano que se acha no direito de resolver tudo na base da violência porque encostou a cara na lama do Vietnã. Alguns dos melhores momentos de "O Grande Lebowsky" se devem à veia cômica de Goodman. É um ator que consegue captar o ridículo do personagem, caçoar dele e ao mesmo tempo humanizá-lo.
Não falta ao filme aquele tom meio nostálgico que se encontra às vezes na produção dita independente. Os Coens parecem evocar um tempo mais interessante para se viver, os anos 60 e 70, talvez porque menos contaminados pelo mercantilismo e pela brutalidade dos 80 e 90. Ouve-se a música da época, vêem-se os hábitos libertários e relembra-se de que já foi possível pensar a existência fora da cadeia produção, competição, consumo.
Lebowsky é o outsider que simboliza esse passado que não volta. Ao mesmo tempo, a nostalgia dos Coens é do tipo sem pieguice. Evoca e sabe rir de um tempo que pode ter sido ótimo, mas com frequência é idealizado, ou seja, mostrado melhor do que realmente foi. Serviço - "O Grande Lebowsky". EUA, 1998. Dir. Joel Coen, com Jeff Bridges. Warner

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