Enquanto nomes famosos (George Clooney causou frenesi) continuam a desembarcar no exclusivo píer do Hotel Excelsior, para alívio da organização, euforia da tietagem e irritação da imprensa francesa (que se esquece que Cannes também tem a sua dose de frivolidade), os diretores, a crítica e o público aqui da terra não se entendem quanto a alguns dos principais títulos italianos exibidos na 55ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza e continuam trocando farpas. Os filmes que estão sob fogo cruzado são ‘‘I Piccoli Maestri’’, de Danielle Luchetti, e ‘‘Il Giardini dell’Éden’’, de Alessandro D’Alatri, ambos na mostra competitiva. E o tiroteio acaba atingindo diretamente o curador Felice Laudadio, em última instância o responsável pelo que se vê na tela das sete salas situadas no Palazzo del Cinema ou nas proximidades.
‘‘Il Giardini dell’Éden’’ é apenas um filme correto, muito bem-feitinho sobre os anos desconhecidos da vida de Jesus. E nada mais. Sua entrada na competição se deu à última hora, pela porta dos fundos, substituindo um concorrente americano. Mas não é por isso que vem recebendo críticas ácidas, em parte exageradas. A imprensa italiana especializada não está muito convencida da necessidade de quatro filmes conterrâneos na competição. Mas pesando bem o que está dentro - em concurso - e o que está nas paralelas, qualquer julgamento fica complicado porque se desconhece os parâmetros para a seleção, que nem sempre se pautou pela qualidade. Coisas bem melhores ficaram de fora.
Já a implicância diante de ‘‘I Piccoli Maestri’’ tem tudo a ver com política.
O filme, produção ambiciosa para os padrões peninsulares e inteiramente rodado na região do Veneto, é baseado em romance homônimo de Luigi Meneghello. Conta a história de cinco jovens universitários, antifascistas, que pegam em armas pela libertação da Itália, com ‘‘partigiani’’. Para cada pequeno passo na guerrilha, longas confabulações teóricas, discussões sobre o que é e o que não é retórico. Como parcela significativa da crítica italiana segue o manual da anciã esquerda monolítica, o diretor Danille Luchetti foi acusado de revisionista, já que teria enfatizado a divisão entre ‘‘partigiani’’ e comunistas durante a resistência. À parte um certo tom melodramático que peca aqui e ali por excesso de grandiloquência, ‘‘Piccoli Maestri’’ é um filme sem problemas relevantes que o deixariam em desvantagem junto à média que está na corrida aos Leões.
Ainda se espera com impaciência aquele que seria o grande filme de Veneza-98, como aconteceu em Cannes com ‘‘A Eternidade e um Dia’’, de Angelopoulos. Há uma boa dose de desânimo, mas como ainda restam três dias e sete filmes em competição, as esperanças se renovam, etc.
Se por um lado o argentino ‘‘A Nuvem’’, de Fernando Solanas, não compromete a isolada participação latino-americana em concurso, o filme também não justifica maiores entusiasmos. Longe de sua melhor forma, ostentada em ‘‘Tangos, el Exílio de Gardel’’ e ‘‘Sur’’, o diretor fez um filme sobre a resistência cultural. A metáfora utilizada é um velho teatro ameaçado de demolição e alguns atores que não se entregam, numa Buenos Aires sob uma permanente nuvem que faz chover ininterruptamente. Estruturado em quatro partes, o filme ambiciona o status de ópera burlesca com pretensões de crítica política e social, e ao processo de descaracterizante globalização. O fôlego do cineasta - e do espectador - é curto para tamanha pretensão.
Curioso, ainda que irregular, o português ‘‘Tráfico’’. Discípulo aplicado e confesso de Luis Bu¤uel, o diretor João Botelho faz citação explícita de ‘‘O Discreto Charme da Burguesia’’ e referências a outros dois momentos do surrealismo de dom Luis, ‘‘A Via Láctea’’ e ‘‘L’Age d’Or’’. Diversas histórias se cruzam, envolvendo políticos, militares, padres, mendigos. Em suma, um ‘‘tráfico’’ de pessoas. ‘‘É uma farsa, um filme sobre Portugal de hoje’’, disse Botelho durante a coletiva. ‘‘É um país onde há um presidente da república que inaugura centros comerciais e um ministro da cultura que participa de concursos de top model. ‘Tráfico’ tem a estrutura de um quadro cubista que mostra simultaneamente várias faces. É uma obra aberta, onde trato os indivíduos não como personagens, mas como arquétipos, representantes de uma categoria.’’ À minha pergunta sobre o cinema que se faz hoje em Portugal, a resposta é animadora: ‘‘Nos últimos tempos, o cinema português atravessa um período de ouro. Poucos filmes ao ano, mas de ótima qualidade, presente em diversos festivais internacionais. E isto graças à enorme liberdade de fazer qualquer tipo de filme, bizarros, fora das regras. Não muito capital, mas há muitas idéias, com forte presença literária, com predominância da palavra sobre a imagem, da composição sobre a ação.’’
Além de Botelho, Rohmer e Solanas, outro nome ligado ao cinema de autor mostrou seu último trabalho, em competição. O romeno Lucian Pintilie, desconhecido no Brasil e que por muito anos trabalhou na França, está de volta ao seu país depois da revolução de 1990. O filme é ‘‘Terminus Paradis’’, e transita pelo terreno da transgressão. É a história de um amor em fuga, uma relação impossível ambientada na periferia de Bucarest. O tratamento não é simples. Pintilie dá cores metafísicas ao personagem masculino que busca a morte como uma espécie de renascimento, com rigor e intransigência. O modelo é tipicamente dostoievsquiano.
Grandes esperanças, ainda maiores desilusões. ‘‘New Rose Hotel’’, o aguardado filme do americano Abel Ferrara, é uma mixórdia irritante, um trabalho a ser esquecido rapidamente. Na aparência, uma história de paixão, amor, sexo, traição e complô, localizada num futuro próximo onde as multinacionais controlam o destino do mundo. No centro da trama, dois homens que querem raptar um cientista japonês famoso. Para isso contam com uma jovem que deverá seduzi-lo. Ela é treinada para a tarefa, mas um dos homens se apaixona pela mulher de forma quase doentia. Ela, porém, não se revelará a ninfeta ingênua e sem cérebro que parecia, mas uma espiã atrás de segredos científicos. A partir desta revelação, o homem segue uma espiral vertiginosa em busca do entendimento e de seu próprio destino.
Posto assim parece simples, linear e até psicologicamente aceitável. Mas da forma como Ferrara dispõe suas fichas na mesas, compreensão e motivação desaparecem. O problema é que em alguns círculos há um culto inexplicável a este diretor americano sempre chegado a extremos. Misto de visionário e obsessivo, Ferrara é até capaz de refinamentos e de interessantes imagens de antecipação (o roteiro é baseado em novela cyber punk de William Gibson), mas se perde em excessos de toda ordem e em incompreensíveis elipses, que deixam a trama obscura. Na coletiva, Ferrara não fez além de justificar sua fama de estratosférico. O que se comenta é que, a cada novo filme, ele vem ‘‘cheirando’’ parcelas cada vez maiores do orçamento. E que estaria a um passo do pornô explícito. Em vão, todo o talentoso empenho de Willem Dafoe e Christopher Walken.

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