'O grande barato'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de fevereiro de 2001
Mariana Meireles TV Press 
Desde que retornou à Globo, há três anos, o trabalho em Os Maias é o que mais entusiasmou Osmar Prado. Na minissérie, ele interpreta Tomás de Alencar, um poeta sensível e romântico. Este é o terceiro trabalho do ator na Globo desde que saiu do SBT e o que considera o mais importante desde então. Meu Bem Querer foi o retorno e Esplendor a consolidação desta volta. Mas estar fazendo Os Maias para mim é o grande barato, explica o ator.
A principal razão da empolgação de Osmar é a minissérie ser baseada em um romance de Eça de Queirós, a quem admira e conhece bem a vida e obra. O fato de ser adaptada por Maria Adelaide Amaral e dirigida por Luiz Fernando Carvalho também entusiasmou o ator. Dois dos principais personagens da sua carreira foram dirigidos por Luiz Fernando O Sérgio Cabeleira de Pedra Sobre Pedra e Tião Galinha de Renascer. E Osmar atuou em um espetáculo de sucesso da autora da minissérie no final da década de 70. Confio no bom gosto da Maria Adelaide. E ninguém melhor do que ela para entender de Eça de Queirós, já que é portuguesa e escrevia sobre ele em um jornal valoriza Osmar.
Como você analisa o seu personagem em Os Maias?
O Tomás de Alencar tem um espaço muito grande na subdivisão da personalidade do Eça de Queiroz. É um poeta apaixonado, uma torrente de emoção e sensibilidade. Maria Monforte é o grande amor da vida dele, sua musa inspiradora, mas é um amor puramente platônico. Ele jamais tocaria em um fio de cabelo dela, porque respeita a memória do grande amigo Pedro da Maia e tem muita ética e caráter. Acho que o Tomás de Alencar é daqueles homens que morreriam por uma grande paixão.
Qual foi a sua maior preocupação na hora de compor o Tomás de Alencar?
Me preocupei com a sensibilidade, o interior dele. O exterior ficou a cargo do diretor, o Luiz Fernando Carvalho. Como a barba enorme, por exemplo. Mas resolvi emagrecer por conta própria para fazer esse personagem. Foram uns 10 quilos, mais ou menos. Achei que tinha a ver. O personagem bebe muito, fuma muito e se alimenta mal. Não se preocupa consigo mesmo. Uma pessoa assim tem de ser magra. Não me incomodo nem um pouco em fazer sacrifícios por um personagem. Eu sou um privilegiado, tenho a possibilidade de viajar em várias personalidades. Representar Tomás de Alencar em uma obra de Eça de Queirós não pode ser um sacrifício.
Você sempre faz personagens de boa índole na tevê. Não tem vontade de viver um vilão?
É uma coincidência. O único vilão que fiz na tevê foi em Sangue do Meu Sangue, em 95, no SBT. Mas não sou um ator estigmatizado. Cada vez que eu faço um trabalho, limpo a serpentina e começo tudo de novo. Fiz papéis bem diferentes, como o maluco Sérgio Cabeleira em Pedra Sobre Pedra e o Tião Galinha, um catador de caranguejos, em Renascer. Não tenho nada contra personagens que não tenham um caráter legal. Mas gosto mesmo é de personagens contraditórios. O Alencar é contraditório como o próprio Eça de Queirós. O Eça era anti-clerical e mesmo assim confessou e comungou para se casar na igreja, porque estava apaixonado e não queria perder a mulher. Então ele é canalha por causa disso? Acho que o ser humano é feito dessas contradições. E o Eça mostra bem isso. Acho fantástico.
Você tem predileção por algum personagem da sua carreira?
Os melhores personagens são os que o público elegeu. O Tião Galinha de Renascer tocou fundo. Através dele falou-se de reforma agrária. É um personagem que dizia que quem trabalha e mata a fome não come o pão de ninguém, mas quem ganha mais do que come sempre come o pão de alguém. É legal poder falar isso na televisão. Pode ser que tenha entrado por um ouvido e saído pelo outro, mas se falou. E isso já é maravilhoso.


