Quando Giovanni Giacomo Casanova morreu, em 1798, um velhinho alquebrado de 73 anos, jogado na biblioteca provinciana do conde Waldstein, onde - horror! - ele trabalhava, ao seu lado estava a última fêmea de sua vida: a cadela fox-terrier Finette. ‘‘Vivi como um filósofo e morri como um cristão’’, foram suas últimas palavras.
Curiosa e sintomaticamente, nenhum comendador furibundo de pedra apareceu para levá-lo às profundezas infernais, como com o seu colega de libertinagem, versão sacripanta e revolucionária, Don Juan ou, para quem adora Mozart, Don Giovanni. A diferença na morte revela a diversidade das vidas.
Que já podia ser computada na matemática do erotismo: o rival espanhol teria seduzido 2.065 pobres mulheres, enquanto Casanova se contentou com 122.
Do par de milhares de vítimas dos avanços dom-juanescos, nenhuma viria testemunhar em seu favor: o burlador de Sevilha sempre as tratou miseravelmente mal, usando-as (como Valmont ou Sade), abusando-as, aniquilando-as apenas pelo gosto da estratégia amorosa, o desejo da transgressão, o jogo da desonra, em que o fundamental é ofender a sociedade, conquistando ‘‘honra’’ pela extração da honra do outro. De preferência, do sexo frágil. Ao diabo com ele.
Poucas mulheres reclamaram de Casanova. Sua matemática era outra: ‘‘Sem conversa, o amor perde dois terços do prazer’’; ‘‘Da vida que conto nas minhas Memórias, um terço me faz rir, um terço me faz gozar e um terço me faz pensar’’, escreveu Giacomo.
Ele não queria destruir o mundo de porcelana de Savres em que vivia; pelo contrário, adorava-o à loucura e, como muitos contemporâneos, dedicou sua existência a uma arte, o amor, e a um objetivo: embelezar, enfeitar a vida. O que, é claro, incluía, as mulheres (e, dizem, um par de rapazes, apenas por curiosidade), o seu vício, após o jogo, a filosofia e a boa conversação com as principais personalidades de seu tempo, entre elas, Voltaire, Metastasio, e os Grandes, Frederico, da Prússia, e Catarina, da Rússia. Gostava de pessoas inteligentes.
Procurava o mesmo em suas conquistas: em Londres, rejeitou uma cobiçada cortesã, apenas porque, desconhecendo a língua inglesa, não poderia trocar idéias com ela. E como teria coisas a dizer com sua experiência de seminarista, escritor, diplomata, músico, empresário, espião, soldado, fugitivo heróico (safou-se das temíveis Piombi, de Veneza), organizador de loteria (que o fez rico e deu a ele o título de Chevalier de Seingalt) e tradutor da Ilíada, de Homero. Mas sua ocupação primordial era o parasitismo social dos grandes, a possibilidade de gozar as delícias do mundo aristocrático, dando ao nobres entediados, em troca, a intensidade de suas aventuras.
Ou pregando nos mais desesperados uma boa peça: em 1762, arrancou uma boa soma de uma idosa aristocrata francesa, Madame D’Urfé, a quem prometeu nada menos do que a imortalidade e, ah sim, de quebra, uma operação de troca de sexo. Nascido em 1725, em Veneza, seus pais eram atores populares. Criado pela avó, Casanova, aos 11 anos, foi mandado a Pádua para tornar-se padre.
Em vez dos votos, preferiu tomar Bettina, irmã do abade que deveria ser seu mentor. Chega a fazer, em 1741, a tonsura que o levaria ao sacerdócio, mas a carne falou mais alto do que o espírito e, após elevações nada religiosas, foi expulso do seminário e teve de sair de Veneza. Em 1750, estava na França, onde se junta aos maçons. Viaja como um louco pela Europa e retorna, saudoso a sua Veneza apenas para cair na boca do leão de São Marcos: um poema considerado blasfemo, uma vida devassa e a ligação com os pedreiros-livres levam-no às garras da Inquisição a 17 meses nos Piombi.
Em 1757, conseguiu fugir espetacularmente do cárcere. Abrigado por um militar, agradece-o degustando a sua mulher. Já em Paris, reapareceu em grande estilo, como diretor da loteria real e encarregado de missões diplomáticas: sabia como se virar no século das luzes, embora se saísse melhor quando essas apagavam. Quando não estava entre os lençóis, jogava, perdia, duelava em Varsóvia, escrevia o seu Icosameron, quase se casou com a própria filha (jura tê-la deixado intacta), colaborava com Lorenzo da Ponte no libreto do Don Giovanni, de Mozart, e vivia intensamente.
Mas o tempo foi implacável e, aos 65 anos, aceitou ser bibliotecário do conde Waldstein. Tédio. ‘‘Escrever minhas memórias foi o único remédio que encontrei para não enlouquecer ou morrer de desgosto’’, explicou. Além de amores, há nas ‘‘Memórias’’ um retrato da condição humana.
E, é claro, fartas doses da boa inventividade veneziana: ao contar como seduziu uma menina de 15 anos, o libertino esquece-se de contar que, na época, a ragazza já tinha 46 anos. Estresse do métier: Casanova escreveu 13 horas diárias durante 13 anos. Além disso, a verdade não era o forte do século 18. Seja como for, a posteridade levou-o bem a sério. Esquecidas, as ‘‘Memórias’’ chegaram, em 1820, às mãos do editor alemão Brockhaus, que, pão-duro, entregou a tradução a um medíocre, Jean Laforgue, que castrou o pobre Casanova no que ele tinha de melhor: a sua licenciosidade e o seu estilo livre. O alemão, como se não bastasse a tacanhice econômica, também vetou o acesso aos originais e a família respeitou sua vontade. Por 140 anos, ninguém tocou o pobre Giacomo. Só em 1960 é que a editora francesa Plon conseguiu, finalmente, trazer à luz a ‘‘Histoire de Ma Vie’’ em toda a sua glória e sacanagem. O grande amante do século 18, que odiava revoluções, reviveu em meio à revolução sexual. Ou melhor, talvez dessa ele gostasse.

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