O apresentador de televisão Carlos Massa, o Ratinho, chegou sábado de madrugada a Londrina com uma fome de leão. Na hora de decidir pelo restaurante, não teve dúvidas: escolheu Bar da Costela, um boteco pequeno da avenida Celso Garcia Cid (área central), muito tradicional, e que tem como público cativo, além de alguns intelectuais da noite, os travestis e prostitutas que fazem ponto na região. Lá, para espanto dos fregueses e também dos assessores que o acompanhavam, Ratinho comeu a famosa costela e não dispensou um ‘‘rabo de galo’’.
‘‘Sempre quando terminava o trabalho, na época que trabalhei em Londrina, eu ia comer costela no bar do Davi. Isso há mais ou menos 20 anos’’, recorda o apresentador, hoje responsável pelo ‘‘Programa do Ratinho’’, no SBT, um dos maiores sucessos da televisão brasileira. ‘‘Agora, depois de todo esse tempo, fui lá no bar e vi que não mudou nada, não piorou nem melhorou. Até o Davi está do mesmo jeito. Só está com a barba branca. Foi muito bom reencontrar o velho amigo’’, declarou.
Ratinho esteve em Londrina para tratar de negócios e atendeu a imprensa sábado de manhã, no Hotel Bourbom. Entre outras coisas, falou sobre o programa, criticou o ministro da Cultura, Francisco Weffort - que ele chamou de ‘‘inexpressivo’’ - e chegou até a propor um novo modelo de saúde para o País. Revelou ainda que, no primeiro dia que apresentou o extinto ‘‘Ratinho Livre’’, na Record, comentou notícias da Folha de Londrina no ar. A seguir, os melhores trechos da entrevista.
Três meses depois, qual a sua avaliação sobre a troca de emissoras, da Record para o SBT?
Melhorou muito. Não tenho absolutamente nada contra a Record, fui muito feliz lá e, se precisar voltar um dia, eu volto. Mas a grande verdade é que o SBT faz televisão, não há mistura. Embora a Record não queira, ela ainda mistura televisão com religião, o que não é bom para televisão e nem para a religião. E, se misturar, fica difícil qualquer programa no estilo do nosso.
O que você acha do ‘‘Leão Livre’’, que substituiu o ‘‘Ratinho Livre’’?
Uma verdadeira cópia. Mas eu nem assisto esse programa. O Gilberto (Barros, apresentador) é um radialista amigo meu, não tenho nada contra ele, mas não assisto. Até porque é no mesmo horário que o meu programa. Eu só vejo o Ibope, que sou obrigado a acompanhar. E o programa dele é uma cópia mas com um resultado de audiência bem menor que o meu.
O ministro da Cultura, Francisco Weffort, fez duras críticas contra seu programa. Afirmou que você zomba dos deficientes físicos. O que você acha das declarações do ministro?
Eu acho que zomba quem não cuida. E quem zomba é o governo dele. Ele é que é um zombador do público. A música sertaneja, por exemplo - só para dizer que esse ministro está totalmente fora da realidade nacional -, é a que mais vende disco no Brasil e o Ministério da Cultura nunca sequer fez uma só promoção para saber do que é que o povo gosta. Tanto que fizemos uma pesquisa de rua, através do nosso programa, que não é uma pesquisa oficial, mas é uma pesquisa oficiosa que dá certo. Perguntamos para 100 pessoas quem é o ministro da Cultura e 98 não souberam responder. Ele é inexpressivo e tem um ministério que, na mão dele, é medíocre. Então não tem nenhuma condição de discutir.
A crítica, de uma forma geral, condena muitas coisas que são mostradas no programa, como exibição de deficientes físicos, brigas, casamento de homossexual. Que avaliação você faz da crítica?
Por incrível que pareça, para casamento de homossexual eles nunca ligaram, a imprensa nunca falou disso. Falam das brigas e falam de levar deficiente. O deficiente eu até sou obrigado a levar para mostrar uma realidade da saúde brasileira. Na minha opinião, a medicina tem que ser socializada. O médico não tem que cobrar para curar esse ou aquele. Tem que ganhar um salário do governo, um bom salário. Mas hoje o médico finge que trabalha e o governo finge que paga. Você acha que o médico faz uma consulta decente por R$ 2,50? Não vai fazer! Vai fazer uma cesária por R$ 40,00? Não faz, é mentira. Só que eu não acompanho esta mentira. Temos que brigar, todos nós da imprensa, para forçar o Congresso a socializar a saúde, para que o médico seja como o juiz de direito que ganha relativamente e trabalha bem. E ver o doente não como um número, mas ver o doente como uma pessoa que precisa de ajuda.
O jornal ‘‘Folha de São Paulo’’ denunciou que houve fraude no seu programa, que alguns casos levados ao ar não eram verdadeiros.
E houve mesmo. Ficou comprovado que houve meia dúzia de fraudes. Porque todo mundo que entra no programa ganha em torno de R$ 180,00 a R$ 300,00. Se você for cantar uma música lá, você ganha isso. É um contrato que o SBT tem há muitos anos. E nós também compravamos casos, porque não temos uma produção muito grande. Então apareceu lá uma moça, uma tal de Regina, que falou que tinha o caso de um vizinho que estava brigando com a mulher, porque a mulher o traiu. A gente disse: ‘‘Ah, traz porque esse problema a gente vai resolver aqui’’. E ela trouxe mais três ou quatro casos verdadeiros e depois começou a inventar. Ela estava agenciando os casos. Agora, como é que você vai conferir se é certo ou errado? É difícil. Mas a partir do momento que a ‘‘Folha de São Paulo’’ descobriu, nós paramos os casos. Agora não tem mais casos de fora. Ou vem no programa e a gente confere, ou não entra.
O programa estimula as brigas entre os convidados?
Eu tenho que ver o programa não como atendimento social. Eu não posso ver isso senão não tem Ibope, não tem audiência. Eu vejo o programa como um todo. Porque essas brigas caseiras, por motivo banal, eu vejo como um tumor, um furúnculo. Quem já teve ‘‘cabeça de prego’’ sabe o que é isso: ele vai ficando vermelho, até que explode. No nosso programa ela explode! Sai briga, sai tapa, e em cinco minutos a questão está resolvida. Coisa que a Justiça leva três ou quatro anos para resolver.
O que é condenável hoje na televisão brasileira?
Eu acho condenável na televisão brasileira, por exemplo, essa vulgarização do sexo. Não é salutar eu ter uma filha de 13 anos e alguém na televisão, num programa como o ‘‘Malhação’’, falar que o menino de 14 ou 15 anos tem que transar. Eu discordo disso. Talvez eu seja muito moralista, mas eu discordo porque aí você vulgariza o sexo e, toda vez que você vulgariza o sexo, você ajuda a aumentar a prostituição infantil.
Como você avalia as tentativas do Ministério Público de impedir que o programa mostre, por exemplo, as brigas? Seria censura?
Eu não acho que eles estão censurando o meu programa. Eu acho que eles estão censurando a minha audiência. No dia em que eu fizer dois pontos no Ibope, não vai aparecer ninguém para me condenar. Ninguém!
Você começou a carreira no Paraná. Como foi?
Comecei cedo, em Mandaguari, na Rádio Atual. Era o ano de 1976. Depois fui para a Rádio Cidade, de Jandaia do Sul. Até que o Pinga Fogo, que é meu amigo, me mandou embora e então eu fui para Curitiba. Lá comecei a trabalhar em rádio, depois no programa do Luiz Carlos Alborguetti. Isso mais ou menos em 1986. Fiquei no programa até eleger deputado federal, em 1990. Eu até queria continuar deputado e fazendo programa, mas o Alborguetti me mandou embora. Depois voltei para o rádio e a televisão. Passei a comandar o programa ‘‘Cadeia’’ porque o Alborguetti saiu. Depois tiveram a idéia de fazer um programa em rede nacional e criaram o 190, que fez sucesso e começou a incomodar as grandes. Aí a Record me levou. Não porque gostava de mim, mas porque eu estava incomodando o programa deles, o ‘‘Cidade Alerta’’. Eles disseram: ‘‘Entra aí às 20h30 e faça o que você quiser’’. Esse era o horário que eles chamavam de ‘‘horário do lobisomem’’, ou seja, ninguém assiste. Comecei com dois pontos de audiência e depois foi subindo.
Então o programa começou por acaso?
Foi por acaso. Fiz o primeiro programa aproveitando notícias da Folha de Londrina, que eu tinha recebido, o ‘‘Notícias Populares’’ e a ‘‘Folha de São Paulo’’. Depois eu falei: ‘‘Bom, e amanhã, eu vou fazer o quê?’ Daí eu peguei um caboclinho sem-terra e pus para brigar com cara da UDR. Deu certo e eu pensei: ‘‘Trazer caso para o programa resolve’’. Depois colocamos o auditório, para o público ter reação, e deu certo.
Como você define o Programa do Ratinho?
Meu programa é popular, que mostra um país que é brincalhão mas que, ao mesmo tempo, sofre muito. Por isso o programa pegou. Na segunda-feira, por exemplo, eu estou buscando uma mulher que teve um deslocamento de mandíbula, que é uma coisa simples, pode acontecer com qualquer pessoa. Num churrasco, por exemplo, você pode deslocar a mandíbula. Mas com ela isso aconteceu há 12 anos. E há 12 anos ela está com a boca aberta e não consegue fechar. Isso porque ninguém pegou essa mulher e levou no médico. Então fomos lá, a mulher foi levada para São Paulo, vai ter que fazer uma cirurgia e vai fazer. Então é a falta de atendimento que a gente tem que mostrar.

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