O GOSTO DO SUCESSO
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de fevereiro de 2001
Simone Mattos De Curitiba 
Ela nasceu nos Estados Unidos e criou-se em Curitiba. Sua beleza estonteante e o talento promissor, entretanto, não permitiram que Guenia Lemos, 25 anos, ficasse muito tempo por aqui. Depois da bem-sucedida trajetória como modelo internacional, ela decidiu se estabelecer em Nova York, onde cursou Teatro e Psicologia na Fordham University.
Fora de casa há cinco anos, a atriz se refere hoje aos meus dois países e confessa que sua maior realização seria conciliar seus trabalhos no Brasil e Estados Unidos. Enquanto isto não acontece, ela segue brilhando como a personagem Ruby Frank, da tradicionalíssima telenovela As The World Turns, transmitida pela rede CBS desde 1956. Há dois meses no ar, Guenia já se tornou popular em todo os Estados Unidos, o que lhe rendeu a extensão de seu contrato para mais seis meses.
Em ritmo alucinante de trabalho, ela grava a novela e ensaia um espetáculo de teatro baseado em Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, cuja estréia deverá ser em abril, off-Broadway. Apesar da correria, Guenia gentilmente concedeu entrevista à Folha2 através de e-mail.
Como surgiu a oportunidade de atuar em As The World Turns?
O primeiro passo na carreira de um ator aqui nos Estados Unidos é conseguir uma agência que nos represente. Sem isto, é praticamente impossível conseguir uma entrevista ou um teste em qualquer lugar. Conseguir uma agência também não é uma tarefa fácil, pois a concorrência é fortíssima, então as agências estão sempre procurando por atores que tenham algo único, um diferencial. Foi aí que eu tive muita sorte, pois o fato de ser estrangeira, ter um leve sotaque e um look meio ambivalente fez com que eu me destacasse das minhas amigas da faculdade que são o protótipo americano. Assim que me formei, logo assinei contrato com uma agência e dois meses depois pintou este teste para o As the World Turns, para o papel de uma cigana/ladra. Depois da primeira leitura para o casting director, eles me chamaram para os testes finais. Após algumas semanas de angústia, finalmente fiquei sabendo que havia sido escolhida...
E você está sendo bem recebida pelo público americano?
Bom, também existem muitas pessoas que me odeiam... e isso foi um pouco difícil de lidar no começo. A minha personagem não é de forma alguma uma boa menina, ela usa a sedução para enganar as pessoas. É muito aberta quanto a sua sexualidade, tem um sotaque exótico e é uma ladra... Então, muitos dos telespectadores que estão acostumados com um padrão mais americano e puritano se chocaram com ela... é aquele lance de muitas pessoas amarem e odiarem a minha personagem... Mas também têm muitos que adoram qualquer personagem que crie conflito, então eu diria que comigo não há meio termo... ou o telespectador ama Ruby Frank ou a detesta.
Esta é uma nova experiência para você?
Como atriz, acho que de fato esse é o objetivo: você não quer que a audiência seja indiferente, você quer causar emoções, quaisquer que sejam. Então fico feliz em saber que a minha personagem consiga atingir isso. Pelo que fiquei sabendo, os produtores da novela também ficam felizes com o mesmo.
Quais os outros trabalhos cênicos que você já realizou?
Acabei de me formar na faculdade, então de fato este é o início da
minha carreira profissional. Já fiz muitos comerciais quando trabalhava como modelo, mas peças de teatro e filmes foram a maioria na época de estudante. Em Curitiba trabalhei bastante com o diretor de teatro Émerson Rechenberg.
E como modelo?
Minha carreira como modelo fotográfico teve início graças a minha irmã, a fotógrafa Anuschka R. Lemos. Eu ter sido a sua modelo/cobaia favorita foi ótimo, pois me permitia manter um sustento enquanto estudava teatro. Nesta época, os principais trabalhos que fiz no Brasil foram comerciais para a C&A, Kibon e Cica. No Japão, assinei contrato com uma marca de lingerie chamada Cecile.
Continua trabalhando como modelo?
Ainda faço um trabalho aqui e outro ali, mas decidi que não deixaria a vida de modelo atrapalhar o meu futuro como atriz. É até engraçado pois no dia em que meu agente marcou o primeiro teste para As the World Turns eu tinha sido escolhida para fazer um trabalho como modelo... Graças a Deus segui o meu instinto e recusei, pois agora estou trabalhando na novela... Aliás, o meu instinto anda aguçadíssimo ultimamente...
Sua família ainda mora em Curitiba. Como é conviver com esta dupla cidadania?
Toda a minha família, com exceção do meu irmão que faz mestrado em Engenharia Aero-Espacial no Colorado (EUA), mora em Curitiba. Mas acho muito difícil que eu volte de vez para o Brasil... Sinto falta de muita coisa, mas gosto muito de morar em Nova York. No entanto, adoraria poder viver numa ponte-aérea... não seria nada mal poder trabalhar nos dois países, afinal de contas adoraria voltar a fazer papéis na minha língua natal... Para ser sincera, eu gosto muito de ter dupla cidadania e duplo endereço (quem não gostaria?). É muito bom poder estar aqui no inverno, entrar no avião, aterrissar no Brasil e curtir o maior sol de verão, ou vice-versa. Adoro viajar, então não ligo, a única coisa ruim é que vejo muito pouco minha família, adoraria poder vê-los pelo menos todo fim de semana.
Sua mãe é da área de Literatura (a professora e tradutora Brunilda Reichmann Lemos) e a sua irmã é da área de Fotografia. Elas influenciaram em sua decisão de ser atriz?
Cada pessoa da minha família seguiu o que queria da vida e cada um foi para um ramo diferente. Graças a Deus tive pais que se importavam com que eu fizesse o que me faria feliz, sempre dando o maior apoio emocional e financeiro. Acho que de certa forma tanto meu pai como minha mãe influenciaram na escolha da minha profissão... Devido ao meu pai (que é psiquiatra) eu sempre tive fascinação por psicologia, que também cursei na faculdade. Devo a minha mãe a fascinação por arte e literatura.... Mas acho que isto tudo já nasceu comigo, pois sempre quis ser atriz, desde muito pequena.
Quais são seus futuros planos profissionais?
Enquanto eu puder continuar trabalhando e me sustentando como atriz sei que serei feliz!!! Gosto tanto de teatro como de televisão e cinema, então onde tiverem trabalhos interessantes eu me jogarei de cabeça. Também adoro comédia, que é algo que eu queria fazer mais frequentemente.... A grande dificuldade de ser atriz é a eterna aprendizagem. Você nunca chega num ponto onde diz: pronto, sei tudo e fiz o máximo que poderia fazer com este personagem. Não! Você constantemente tem mais para descobrir, para desvendar... a busca nunca acaba.


