Por muitas décadas o ‘‘cinema de artes marciais’’ foi rótulo pejorativo. E fez por merecer. Tratado com mínima atenção pela crítica e menosprezado pelas platéias mais exigentes, o gênero não se dava ao respeito: eram filmes com tais excessos e atrevimentos-arbitrariedades formais que só tinha mesmo que deixar indiferentes ou agressivos quem não curtia as delirantes convenções daquilo que os asiáticos chamam de ‘‘wu xia’’. Cedo ou tarde, porém, apareceria alguém para revestir de respeitabilidade o filme ‘‘marcial’’. A idéia básica seria deixar o gênero mais próximo das rotinas do espectador ocidental. Sem, é claro, enxugar muito o fascínio e o estranhamento causados pelo exótico. E foi Ang Lee, o cineasta asiático de melhor performance nos Estados Unidos, a tomar esta tarefa a sério.
Nascido em Taiwan mas formado em universidades e escolas de cinema americanas, Lee trabalhou sempre em ambas as margens, tentando combinar as diferentes formas de sentir e pensar o mundo. Aos 45 anos é dono de invejável filmografia, iniciada em 92 com o surpreendente ‘‘A Arte de Viver’’. A consagração chegaria com o título seguinte, ‘‘Banquete de Casamento’’ comédia romantica nada convencional que levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, além da nominação para concorrer ao Oscar melhor filme estrangeiro. O terceiro filme, ‘‘Comer, Beber, Viver’’, fecharia a trilogia em 94: outro êxito de público e crítica, novas nominações para Globo de Ouro e Oscar. E no ano seguinte Ang Lee daria o grande salto em Hollywood com ‘‘Razão e Sensibilidade’’. Foram sete candidaturas ao Oscar . Seus trabalhos seguintes, ‘‘Tormenta no Gelo’’ e ‘‘Cavalgada com o Diabo’’, tiveram lançamentos sofríveis no Brasil. A princípio impulsionado por forte repercussão internacional via festivais, e agora há pouco pela generosa acolhida da Academia, que lhe reservou dez indicações aos Oscar do dia 25, entre elas as de melhor filme, melhor filme estrangeiro e melhor diretor, ‘‘O Tigre e o Dragão’’ vem cumprindo ótima carreira comrrcial no Brasil – no Paraná há cópias em exibição em Curitiba, Londrina e Maringá.
A premiSre mundial do filme foi no dia 18 de maio do ano passado, no Festival de Cannes. Leia, a seguir, os principais trechos de uma entrevista concedida no dia seguinte por Ang Lee a alguns jornalistas no Hotel Martinez, na Croisette.
De onde veio a idéia para o filme ?
Desde criança, em Taipei, sonhava com este tipo de histórias fantásticas, irreais mas fascinantes. Há mais ou seis anos descobri um romance muito popular na China, que me seduziu. Mas foi também um velho sonho que realizei, o de fazer um filme de artes marciais. Não apenas um sonho de criança, fanático pelos filmes do gênero, mas também o do cineasta que queria utilizar o drama como um dos pontos fortes do roteiro. E quando me debrucei sobre o livro encontrei um personagem feminino tão forte que podia literalmente levar a história nas costas, o que é muito raro no genero. Isto me permitiria abordar a sociedade chinesa, de dominação masculina.
Como você definiria ‘‘O Tigre e o Dragão’’ ?
Para mim é uma espécie de ‘‘Razão e Sensibilidade’’, mas com artes marciais. Todos os meus filmes tratam do desejo da liberdade, da resistência frente às heranças culturais pela via familiar, resistência à repressão, aos códigos sociais. Nesta caso era uma alegoria sobre a sociedade chinesa, tão reprimida, tão submissa, Como estrutura também há paralelos: Michelle Yeoh está para Emma Thompson assim como Zhang Ziyi está para Kate Winslet.
O fato de voltar à China foi pessoalmente muito importante?
Não necessariamente a circunstância de fazer um filme na China, mas sobretudo o fato de me impregnar novamente, trazer a China a mim. Sua história, sua cultura. Não creio que a China seja um país que saiba preservar sua cultura. Eles são bem rápidos quando se trata de demolir...
Para muitos, ‘‘O Tigre e o Dragão’’ nada fica a dever aos filmes de Bruce Lee, Jackie Chan ou Jet Li, e nem às coreografias de John Woo...
Estudamos detalhadamente as cenas de ação porque sabíamos que cada uma ia durar entre três e cinco minutos. E contratamos Yuen Wo-ping, meu ídolo, para que tudo fosse coreografado como se fosse um balé . Ele já tinha trabalhado em filmes de Jackie Chan e Jet Li, e logo foi contratado por Hollywood onde se consagrou em ‘‘Matrix’’. Comigo o registro foi mais clássico: neste sentido, é claro que os mestres de Hong Kong continuam sendo os melhores.
As cenas de ação foram o principal desafio? Como foram elaborados os combates?
Tive que aprender uma nova linguagem narrativa para fazer um filme como este. Não me sentia preparado, até agora, para manejar uma cena de ação com um custo e uma complexidade de produção que superam os de um filme convencional inteiro. Além disso, não queria fazer algo violento, com um par de golpes e um nocaute, mas converter as cenas físicas em alguma coisa bela e até emotiva. Queria encontrar a musicalidade e a sensualidade que há nelas. E outro grande desafio foi combinar o épico com o drama humano, demonstrar que o gênero popular de ação e o cinema de arte não são incompatíveis.
Pode-se dizer que o filme é uma síntese entre o espírito do cinema chinês e a tecnologia hollywoodiana?
Sim, me serviu para adaptar a um filme chinês tudo o que aprendi na indústria hollywoodiana. E na China, felizmente não há um produtor metido a controlar cada um dos detalhes da filmagem.
‘‘Tempestade no Gelo’’ e ‘‘Cavalgada com o Diabo’’, seus dois últimos filmes americanos, não foram bem nas bilheterias. Algum motivo especial?
É que Hollywood não sabe o que fazer comigo. E creio que os produtores e programadores de festivais também não. Os produtores de ‘‘O Tigre e o Dragão’’ me disseram que não tínhamos que entrar na competição aqui em Cannes para que não fosse confundido com arte, já que se trata de um filme pensado para um publico de massa. Por outro lado, a curadoria do festival argumentou que se sentiu desorientada, que ninguém sabia lidar com um filme de artes marciais...

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