Há três meses perdi um brinco de pérola, imitação, na verdade. Bijuteria boa como a ideia de não comprar joias, já que as imitações causam impacto sem muito custo. Mas tenho afeto por essas “coisas sem valor”, afeto pelo que me proporcionam de pequena alegria no cotidiano. O dia teria menos beleza sem um brinco de pérolas fajutas.

Imagem ilustrativa da imagem O gol de Havana
| Foto: Marco Jacobsen

Ocorre que a Havana, minha gatinha, é uma grande caçadora de tesouros. Ao ver o brinco sob o travesseiro, onde o deixei antes de tirar um cochilo, suponho que a gata tenha gostado dele. Não vi a cena, mas assim que um dos pares sumiu, eu já sabia que se tratava de “coisa de gato” porque acho difícil que os objetos escorreguem, saindo sozinhos de baixo dos travesseiros.

Por conta do sumiço, passei meses procurando o brinco em lugares prováveis: embaixo da cama, atrás da cômoda, em todas as frestas. A faxineira também fez minuciosa varredura, não encontrando nada.

Assim me esqueci do brinco, até que na manhã de quinta-feira o objeto apareceu atrás da porta do quarto, sendo observado pela gatinha que o empurrava de um lado para outro, tocando com as patinhas como fazem os gatos quando ensaiam partidas de futebol.

Logo pensei: quem escondeu, devolveu. Agradeci a ela mostrando a pérola que tirei do 'jogo', quando ela já se encaminhava para mais um drible, daqueles que só acontecem entre uma gata e uma bolinha minúscula.

O jogo de esconde-esconde de Havana me fez rememorar histórias engraçados de achados e perdidos. As rodoviárias são os locais onde mais se perdem coisas. Viajantes cansados e distraídos são vítimas fáceis do esquecimento e as perdas vão de bagagens inusitadas, como uma caixa de codornas encontrada no Terminal Tietê, em São Paulo, à prótese de um dente, perdido num ônibus por uma idosa quando eu viajava com ela.

A mulher entrou em desespero assim que se deu conta de que perdera o dente postiço e todos os passageiros fizeram a varredura, até encontrá-lo num dos degraus da escada de entrada e saída. Nunca vi alguém tão feliz por recuperar um dente, que foi guardado na bolsa como verdadeira joia.

O fato é que dói perder qualquer coisa, entre as maiores aflições estão as perdas de documentos. Dá pena olhar para um sujeito quando ele percebe que sua carteira de identidade sumiu do bolso de trás, local por onde RGs escapam com facilidade. Tenho um filho especialista neste tipo de perda e tão sortudo que já recuperou o documento três vezes.

Li que a perda constante do RG tem a ver com problemas de identidade. Análises psicanalíticas para um fato comum que tira do sério milhares de pessoas por dia. Perder documentos desespera, assim como perder celulares pelo prejuízo material e também de todos os contatos que acumulamos durante meses ou anos.

Perder e encontrar não é para qualquer um. Há quem tenha perdido para sempre a certidão de casamento, levando bronca imensa do cônjuge, ou o registro de um imóvel que foi custoso tirar.

Por isso, sempre que encontro de novo minhas coisas perdidas - ainda que sejam tão insignificantes quanto uma pérola fajuta - penso que os deuses estão do meu lado e conspiram para que os acasos me façam reencontrá-las. Achar o que já se dava por perdido é sinal de sorte. Por isso, minha última quinta-feira foi um dia feliz, pelo simples fato da Havana ter devolvido o que havia pegado.

Minha gatinha bem poderia trabalhar nos Correios, local onde tudo o que se perde é devolvido, talvez com menos graça do que a felina rolando pela casa com um brinco de pérolas para devolvê-lo à dona, como quem faz um gol.

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