''.../Vai vir o dia/ Que tudo que eu diga/ Seja poesia''

Leminski


Delírio: No livro ''Diálogos'', de Platão, em uma das passagens, o filósofo Sócrates se vê atormentado por uma voz interior lhe pedindo para fazer uma música, uma música qualquer, uma canção que lhe roubasse por um momento que fosse de seus grandes pensamentos sobre a vida e a natureza das coisas. Quase como uma profanação de suas virtudes e sabedoria. Que se permitisse a uma pequena alegoria, alegria, simples distração.
Discurso: Manabu Mabe e Krajeberg entre bilhões de outros são artistas muito populares, reconhecidos por uma certa faculdade de decorar o quadro como se este fosse um lugar para o sonho, para a fantasia e para o delírio. Enfim, tudo aquilo que a gente acha do Salvador Dalí, também. Um lado kitsch bem acentuado, sejamos francos.
Idéia: Em se tratando de pintura, a partir do século 20, três gestos radicais podem ser atribuídos como de importância máxima para a arte: o branco sobre branco de Malevich (antes de 1920), a redução do plano às três cores básicas e à formas quadradas, de Mondrian (anos 20) e à fenda de Lucio Fontana, abrindo espaços para além da superfície plana da tela.

Mas o que liga os três conceitos acima?

Provocação: E se propusermos um Sócrates compositor de música e filósofo nas horas vagas? Um Mabe radical? Um Fontana fake? Loucura? Nada. É só lembrar que a arte não se deixa aprisionar por conceitos.
Conexão: Em cartaz, no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio de Janeiro, uma exposição do mestre argentino-italiano bem boa para a gente rever uma série de conceitos vendidos para nós, que sempre acreditamos ser Fontana um daqueles bambas capaz de fazer uma revolução por dia, rasgando e perfurando suas telas a torto e a direito. Diremos, que coisa mais chata!
Não. O Fontana que se apresenta lá é outra coisa. Suas obras, intituladas todas de ''Concetto Spaziale'' a partir de 1940, mostram nitidamente sua preocupação como pintor em luta com a superfície, o tempo todo. Basta ver os furos indo e voltando em desenhos que lembram um pouco Klee, Picasso ou Kandinski para entender que a procura por novos espaços não era da ordem espacial, escultórica, pós-moderna, de diálogo com a arquitetura, híbrida. Mas de plano bidimensional, chapado, por mais que isto possa parecer escandaloso.
Sua obra não vai dar no movimento Minimal de arte, mas na Povera italiana e seu baixo materialismo. Como diz Ives-Alain Bois, ao lado de Rosalind Krauss no catálogo escrito para a exposição ''O Informe - modo de usar'', de 1996, no Centre George Pompidou, Paris: ''ainda que sua obra seja reconhecida pela elegância das fendas, o que sobressalta é o gosto pelo excremento''. São lantejoulas e pedrinhas falsas coloridas ao lado dos cortes, glacê de bolo pintado em volta das punções, anilina e purpurina assopradas por cima de tudo isto. Cafona, barroco, muito mais para Ingres do que para Pollock. Aliás, muito mais Pop e menos purista em relação ao papel das vanguardas para alívio geral da história, ''que nunca exclui, mas incorpora'', como nos lembra o professor compositor Koellreuter.
Claro que o pensamento e até a época é outra, mas enquanto uma Ligya Clark, por exemplo, se debate angustiada para se ver livre da tradição da arte e do suporte, Lucio Fontana inscreve aí seu nome. Com ''talhos rápidos e certeiros como navalhadas'', segundo o historiador e crítico Giulio Carlo Argan, mas decorando a tela de modo sedutor e lúdico. Quer saber, lindo! Por esta, nem Sócrates imaginava...

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