Pete Docter nunca tinha pisado em Cannes. Mal sabia ele que sua estreia no mais badalado festival de cinema do mundo se daria justamente sobre o tapete vermelho, cujo metro quadrado é o mais inflacionado no mercado de celebridades consumadas e de candidatos à fama instantânea. Dupla honra, para cineasta e para o festival. Ambos fizeram história: Docter pela assinatura de ''Up'', um dos melhores filmes da animação contemporânea; e Cannes, pela primeira vez em 62 anos de existência, por abrir oficialmente sua programação de gala com um filme realizado em 3D.

Nascido há 41 anos em Minnesota, Pete Docter é um produto típico da Pixar, fábrica de sucessos surgida em 1995 e que produziu até agora apenas dez títulos, todos prodigiosos tanto nas bilheterias quanto no balcão de prêmios. Versátil, ele vem batendo ponto com exemplar genialidade como animador e roteirista em ''Toy Story'' (95), como diretor em ''Monstros S.A.'' (2002) e agora com ''Up - Nas Alturas'', em exibição em Londrina.

Grandalhão, desengonçado, falante e simpático, de certa forma não há como não vê-lo como um personagem animado. A seguir, os melhores momentos da conversa que a Folha teve com Docter em Cannes em maio passado, depois da abertura triunfal da mostra.


Como surgiu o argumento de ''Up''?
O co-diretor e co-roteirista Bob Peterson e eu nos trancamos num quarto e começamos a desenvolver certas linhas de argumentos. Uma coisa que parece sempre comum entre animadores é a ideia escapista de fugir desse nosso mundo. Fizemos então uma lista de alternativas, uma delas sobre um idoso meio desiludido, teimoso e ranzinza. A tal fuga seria sua casa levada aos céus por milhares de balões coloridos.


Como você alimenta sua imaginação, e o que lhe serve de inspiração?
Muitas coisas, e algumas delas vindas da vida real. Por exemplo, um dia estava num zoológico com meus filhos e vi um pássaro que me deu a ideia para um dos personagens de ''Up''. Observar pessoas também ajuda. E outras vezes me sento, começo a desenhar e simplesmente me deixo levar pela minha imaginação.


E os contos de fada, tiveram alguma influência em seu trabalho?
Gosto deles sim, mas creio que não tirei nada diretamente de nenhum. Mas com certeza me influenciaram indiretamente, porque afinal são muito parecidos com sonhos e seguem uma lógica mais emocional que real. Exatamente como em ''Up''...


A Pixar tem fama de ser um estúdio que protege e estimula a integridade criativa de seus diretores. É assim mesmo?
Desde sempre tem sido um estúdio conduzido por seus cineastas. Todas as ideias são válidas. Nosso trabalho tem sido de criar filmes com o melhor de cada um de nós. O que queremos é fazer bons filmes.


''Up'' é seu filme mais pessoal até o momento?
Acho que sim, mesmo que eu não tenha quase nada em comum com o protagonista, um homem de 78 anos que segue em viagem até a América do Sul a bordo de sua casa voadora.


Quanto a este personagem específico, como vocês o criaram?
Começamos olhando para nossos próprios avós e pessoas idosas em nossas vidas. E também diferentes tipos de atores como Spencer Tracy, Walter Matthau, James Whitmore. Depois, enquanto desenhávamos o tipo e pensávamos em como ele realmente seria, tentamos combinar uma manifestação física com o interior dele. Decidimos então que ele seria alguém introvertido, centrado em suas próprias manias, um cara quadrado. Assim, sua cabeça e seu corpo terminam quadrados, angulosos.


De que maneira a tecnologia 3D afetou seu filme?
O processo 3D não alterou a forma como narrei a história, porque eu estava consciente de que a maioria do público veria o filme em duas dimensões, como qualquer outra animação. Não me agrada que façam esforços e malabarismos pelo fato de contarem com essa tecnologia. Assim, simplesmente preferi usá-la como uma janela através da qual algumas coisas podem ser mostradas. Portanto, utilizamos o 3D mais para melhorar a transmissão das emoções dos personagens do que para divertir ou assustar os espectadores, jogando objetos em cima deles.


Você voltaria a fazer uma animação em 2D?
Sem dúvida, embora neste momento seja muito difícil prever o futuro do 3D. Acho que está inteiramente nas mãos das plateias se elas acolhem integralmente ou não. Alguns colegas estão muito empolgados com o momento, outros estão bem pessimistas. Portanto, repito - a palavra final está com o publico.


Agora uma curiosidade. Como fã, quais são seus desenhos animados favoritos produzidos pela Disney?
Gosto imensamente de ''Peter Pan'' e ''Cinderela''. Mas entre os clássicos, meu favorito mesmo é ''Dumbo''.

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