Crumb já foi underground, liderou a Geração Beat nos quadrinhos, tocou em banda de jazz, mudou-se para a França, onde vive até hoje e, depois de seu último trabalho, chega ao status de um dos maiores artistas contemporâneos, no auge de sua forma. Assim como foi Will Eisner, Crumb é considerado pelos fãs como um gênio vivo. Especialmente após o lançamento de sua mais recente e ruidosa obra, a releitura do texto original do livro Gênesis, do Velho Testamento da Bíblia Sagrada.
Antes de mais nada, para os que chegaram agora e não sabem quem é Crumb, o cara, com 66 anos, foi uma das figuras mais importantes para o cenário alternativo dos quadrinhos e da cultura underground mundial. Em 1960, seus traços rebuscados, com arte-final aparentemente tosca, iam na contramão do mercado, a cada dia mais sedento por super-heróis, ficção científica e afins.
Suas primeiras histórias, de gibis artesanais da Zap Comix, com personagens como Fritz The Cat, procuravam um público mais adulto, com temas ligados a sexo e drogas, bem no estilo de vida da diversão perigosa divulgada pelos beatniks e seus herdeiros.
Crumb popularizou uma série de obras e personagens, como Mr. Natural e ''American Splendor'', com Harvey Pekar. Com sua narrativa sempre irresistível e traços inconfundíveis, texto irônico e humor ácido, Crumb tornou-se uma figura pop e ícone contestador, chegou a ilustrar capa de disco de Janis Joplin e foi colaborador da revista The New Yorker.
Por isso tudo, ''Gênesis'' era aguardado por todos como o maior lançamento editorial do ano. Mais. Pelos fãs radicais, o novo trabalho de Crumb seria uma forma iconoclasta de ver a Bíblia. Talvez cheia de ironia, de crítica política, social ou religiosa. Uma provocação.
''Gênesis, por Crumb'' não é nada disso. É um relato minucioso de um pesquisador detalhista e preciso, de um artista perfeccionista que entregou o melhor que podia por uma obra encomendada. Inicialmente, o artista faria somente o Paraíso. Mas, com um incentivo financeiro bem gordo, acabou aceitando fazer todo o Gênesis. Crumb buscou em diversas fontes, especialmente na tradução de Robert Alter (''The Five Books of Moses'', de 2004), a história mais próxima do texto original.
O resultado é uma grande história em quadrinhos, adaptação do maior clássico e best-seller de todos os tempos, a Bíblia. Ele transformou a narrativa original em uma empolgante aventura, de leitura fácil e linear.
Desde o Paraíso, com Adão e Eva; passando por Caim e Abel; Noé, Abraão e Isaac; Esaú e Jacó; Crumb vai caracterizando com maestria cada um dos personagens e transformando a longa e delirante árvore genealógica do mundo em algo mais lógico, terreno. Como o próprio autor diz, transformou a ''palavra de Deus'' nas ''palavras dos homens''. Tudo isso sem a ironia ou a crítica que os fãs radicais tanto queriam.
Crumb mudou. Não é mais o escritor que adorava só rir dos outros, que se contentava em contestar e criticar. Não é mais ''apenas'' o talentoso ilustrador da contracultura. É muito mais. É um artista maduro, que comprova que só se mantêm estáticos os pobres de espiríto.

Serviço
- Gênesis, por Robert Crumb, é lançamento da Conrad Editora. Tem 216 páginas em preto-e-branco, com capa dura e formato 21,5 x 28 cm, a R$ 49,90.




Tradução manteve contradições



Se para Crumb foi difícil traduzir coisas do hebraico e procurar traduções de outros pesquisadores, seria impossível editar o material no Brasil sem prestar atenção nesses detalhes. Por isso mesmo, Rogério de Campos, à frente da Conrad Editora, cuidou pessoalmente desse aspecto na versão nacional.

''É um texto que já tem várias traduções por aí, muitas bem-sucedidas. Mas quando começamos a mexer no texto, sentimos que tinha muitas coisinhas, muitos detalhes na tradução que fariam toda a diferença'', afirma Rogério. ''A Bíblia foi utilizada muitas vezes como ferramenta de evangelização e teve muito de seu texto simplificado''.

Assim como Crumb, Rogério seguiu o mesmo caminho, do texto original. ''O Crumb faz parte de um movimento de recuperação do texto original da Bíblia e seguimos por esse mesmo caminho na tradução'', diz. Ele manteve até mesmo as incoerências originais. ''O texto original traz uma série de confusões, incoerências e contradições. Por exemplo, em certo momento Esaú tem a mesma esposa com dois nomes diferentes. Nós mantivemos essas confusões porque fazem parte do texto original.''

Para Rogério, o Gênesis de Crumb não é direcionado aos que buscam ''a verdade divina''. ''O livro de Crumb vai interessar àquele que busca o texto fundador.''

De acordo com o editor, até mesmo a confusa árvore genealógica original ficou mais atraente. ''O Crumb é um bom contandor de histórias. Até mesmo da lista genealógica do Gênesis ele consegue fazer uma coisa interessante.''

Rogério vê essa edição como o lançamento mais importante de 2009. ''É o livro do ano. Curioso, um livro com mais de 2,5 mil anos, é o livro do ano.'' (C.Y.)

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