São Paulo, 01 (AE) - Em muitos filmes de François Truffaut, o herói marginaliza-se ou é marginalizado pela sociedade. "O Garoto Selvagem", de volta à Sala Cinemateca, em São Paulo, em cópia nova, realiza o movimento inverso. Mostra a sociedade tentando readaptar um ser que sempre viveu à margem - um menino criado entre os animais, na floresta. É um belo filme, austero e emotivo na sua sóbria fotografia em preto-e-branco.
Truffaut baseou-se na história real de Victor de Aveyron
que viveu no século 18. Reservou-se o papel do professor Itard, que se dedica a fazer Victor comunicar-se com o mundo. Truffaut foi sempre muito ligado ao tema do amor, fazendo filmes sobre a educação sentimental. E amava os livros, a cultura. Fez de "Fahrenheit 451" a história de um homem que não pode viver sem os livros. "O Garoto Selvagem" é a história de um menino que precisa aprender os signos da comunicação.
É um processo duro e, por vezes, difícil. Truffaut comunica um certo sentimento de tristeza, mostrando quanto se perde no processo. Numa cena, Victor uiva para a lua, à noite, sozinho. Em outra cena, corre na mata, tentando experimentar um sentimento fugidio de liberdade. A cultura, por mais que seja necessária, é repressora. Uma das questões que o filme levanta é de ordem moral ou filosófica. Seria Victor mais feliz no seu estado primitivo? A que correspondem exatamente os castigos a que Itard o submete para desenvolver seu senso de justiça? Outra questão diz respeito ao pungente sentimento de solidão que acompanha o pequeno herói.
Truffaut experimenta sentimentos ambivalentes neste filme, único em sua carreira. É um filme fortemente influenciado por Roberto Rossellini, o mestre italiano que o diretor francês reverenciava. Rossellini realizava, por esta época (anos 60), seus filmes didáticos para a TV. Muitos deles tratavam do aprendizado e eram, certamente, expressões de um humanismo intenso. Truffaut bebe na fonte de Rossellini. Mas essa é só uma das fontes de influência, ou referência. O filme também é autobiográfico e não porque Truffaut, em algum momento, tenha vivido entre selvagens. Mas é preciso prestar atenção a um detalhe: o filme é dedicado a Jean-Pierre Léaud. Foi o ator que interpretou o alter ego do cineasta, Antoine Doinel, na série autobiográfica iniciada com "Os Incompreendidos", em 1959.
Victor, o garoto selvagem, é, de certa forma, o próprio Truffaut e Itard, que o cineasta interpreta, talvez seja o grande crítico André Bazin, que desvendou para o diretor os signos da linguagem erudita e o levou a querer tornar-se cineasta, ao aprofundar nele o amor pelo cinema. Pode-se ver o filme assim. Ele fica melhor e mais complexo ao atualizar a saga de Victor de Aveyron. Anos depois, o alemão Werner Herzog fez o filme que talvez seja sua obra-prima: "O Enigma de Kaspar Hauser", contando a história de outro garoto selvagem. São filmes fascinantes, o de Herzog ainda mais que o de Truffaut, mas isso não diminui o interesse pela reestréia da Sala Cinemateca. É um programa imperdível para fãs do diretor que morreu em 1984 e cuja obra, a cada ano que passa, fica melhor e mais densa.

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