O futuro vira objeto de consumo
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de janeiro de 1999
Agência Estado 
Os governantes da antiga Grécia nunca tomavam uma decisão sem consultar as sacerdotisas, que invocavam a ajuda do deus Apolo, no Oráculo de Delfos, para fazer suas previsões. Os sacerdotes da Babilônia também usavam a astrologia, há 1000 a.C., e as cartas do tarô, que surgiram como baralhos em 1390, eram consultadas pelos nobres franceses. Mas será que esses oráculos previram que a arte de adivinhar o futuro ainda se tornaria objeto de consumo?
O vício de querer saber o futuro nem sempre é percebido ou aceito. O simples fato de não sair de casa sem ler o horóscopo, ou mesmo acreditar piamente no que ele diz, pode ser indício de uma necessidade, fantasiada de curiosidade, de saber o que poderá acontecer no dia.
A estudante de psicologia N.D., de 24 anos, que achou melhor não se identificar, garante ter ido a mais de 30 cartomantes, em dois anos, por causa de um amor platônico, mas acabou chegando à conclusão de que isso não leva a nada. É como jogar dinheiro fora, constata.
Procurada por políticos, artistas e pessoas comuns, a futuróloga Mãe Dinah reconhece que o esoterismo virou um comércio perigoso. Há muitas videntes sem caráter que tiram dinheiro das pessoas e enfiam minhocas na cabeça dos outros, diz. Se o seu problema é sério, você tem que procurar uma vidente séria.
A numeróloga Elisabeth Olivatti da Silva, apresentadora de um programa sobre numerologia na Rádio Globo AM, começou a estudar o tema numa fase difícil de sua vida. Ela define sua especialidade como um processo de auto-conhecimento e diz que sempre procura deixar claro que a numerologia não deve reger nossa vida.
Na opinião da psicóloga Eliana Bertolucci, autora do livro Psicologia do Sagrado e Psicoterapia Transpessoal, o perigo não é a cartomante e sim a possibilidade dessa pessoa substituir uma solução pessoal que ela poderia dar ao próprio destino e ficar na dependência de símbolos adivinhatórios.
Segundo ela, o que motiva alguém a procurar uma cartomante é o fato de não conseguir suportar a tensão psicológica de um desejo que não consegue ver realizado. Não é o caso da secretária Sandra Maria Machado Preto, que costuma consultar o tarô uma vez por mês, mas não se considera uma viciada. O importante é não se envolver demais, garante.


