O futuro já chegou
Nelson Sato
de Londrina
A virada do milênio virou motivo de galhofa no mundinho pop. A piada que circula no meio é que muitas bandas estariam à espera da passagem do século para desovar seu primeiro trabalho, adiando o lançamento para se livrar da pecha de pertencer ao século passado.
A banda Flaming Lips não vai precisar de muletas cronológicas para parecer contemporânea. Mesmo sendo uma veterana da cena alternativa norte-americana, o futuro já ressoa nas tramas sonoras urdidas pelo seu fundador Wayne Coyne.
Coyne e seus companheiros Steven Drozd (bateria, teclados e guitarra) e Michael Ivins (baixo e guitarra) acabam de lançar o novo e nono álbum, The Soft Bullet (importado), no qual dividiram a produção com o preciosista Dave Fridmann.
Este último, vale lembrar, já tocou no Flaming Lips na época em que Coyne ainda dava duro como motorista de ambulância. Hoje é o produtor preferido dos grupos da vanguarda pop tendo prestado serviços recentemente para os aclamados Mercury Rev e Mogwai. Agora, com o trio de Oklahoma, ajudou a burilar um repertório de rara sofisticação, candidato a figurar com vantagem no topo das listas de melhores álbuns do ano.
The Soft Bullet é elaborado, mas também bastante acessível. Chega a ser um alento, inclusive como objeto de consumo se comparado com o projeto anterior da banda. Como sabem os fãs, eles lançaram há dois anos um CD quádruplo intitulado Zaireeka que exigia nada mais e nada menos do que a audição dos quatro discos ao mesmo tempo para se obter uma apreciação mais completa do material.
A caixa, obviamente, ficou restrita aos fiéis seguidores de Coyne. Mas The Soft Bullet deve aliviar a conta bancária dos rapazes. É um CD para evaporar das prateleiras, afinal não é todo dia que se encontram discos por aí contendo canções tão impecáveis como Race for the Prize ou Feeling Yourself Disintegrate.
A banda surgiu há quinze anos mesclando psicodelia, rock-n-roll setentista e produção fuleira de fundo de quintal. Ganhou fama com o álbum Transmissions from the Satellite Heart (93), cujo hit She Dont Use Jelly chegou a ciscar a parada da Billboard. De lá para cá, a banda perdeu um integrante (o filipino Ronald Jones) e o visual de hippies malucos.
A vocação experimentalista, no entanto, manteve-se intacta. No novo disco, Coyne e seus vocais ronronantes à la Neil Young chegam a arrepiar em algumas faixas. O grupo, parece, trocou a dispersão microfonada dos trabalhos anteriores pelo refinamento harmônico. Os arranjos incorporam violinos, cellos, xilofones e piano aos violões e guitarras dedilhadas.
O tratamento das canções é altamente inspirado, repleto de variações de dinâmica, colagens, ecos, ruídos e atmosferas épicas. A bateria em The Spiderbite Song é um achado, assim como os vocais gospel em The Gash. A abordagem, que resulta em paisagens sonoras melancólicas, remete ao álbum Deserters Songs, do já citado Mercury Rev. O parentesco é revelador. Prova de que as obras de arte se contaminam.A banda norte-americana Flaming Lips está lançando The Soft Bullet, um dos melhores álbuns do ano
ReproduçãoFlaming Lips: banda troca sujeira e distorção pela delicadeza melódica. Novo disco traz canções recheadas de violinos, piano e xilofone





