Desde o início de 2008 já se desenhava a aposta hollywoodiana pelo cinema digital tridimensional, sinalizada por duas produções em andamento: ''Monstros vs. Aliens'', da grife DreamWorks, que já pode ser visto hoje no Brasil em pré-estréias, e o mega-espetáculo de James ''Titanic'' Cameron, o ainda mais ou menos secreto ''Avatar'' - previsto para o Natal. Assim, 2009 foi anunciado como o ano em que a mais poderosa indústria cinematográfica do planeta jogaria todas as suas fichas para restabelecer o primado das salas novamente lotadas, depois de amargar um rebanho inteiro de vacas macérrimas. E continua jogando: até um festival intelectualizado como Cannes rendeu-se, programando uma animação Pixar em 3D.
Muito mais hiperrealistas, porém, do que as imagens tridimensionais e estereoscópicas da 3D, são os desdobramentos ainda imprevisíveis da crise que contamina diariamente os mercados mundiais (e consequentemente as fontes de financiamento). O paradoxo da história toda é que os produtores acham que aguentam o furacão e querem reprisar a velha fórmula vencedora - em tempos de crise o público quer mais e mais evasão, correndo atrás das feiras de novidades, neste momento o filme em 3D. Mas desta vez o alto custo do novo produto, tanto para quem faz quanto para quem consome, pode sair muito caro. E a linha de produção recém-iniciada corre o risco de estagnar pouco adiante da largada.
Pode-se definir esta como a terceira grande revolução na história do cinema. Depois da ruidosa introdução do som e do triunfo do technicolor, agora é a vez da terceira dimensão. Não que seja exatamente uma novidade. São conhecidas as frustradas experiências dos filmes precursores exibidos por este processo nos anos 1950, com retumbante fracasso financeiro. Aquelas primeiras produções do período, entre elas ''O Monstro da Lagoa Negra'' e ''Museu de Cera'', não foram lá muito convincentes, para usar de moderada franqueza. E depois, os testes dos anos 1980, com óculos bicolores de cartolina para ver partes já bem decadentes da saga ''Tubarão'' e ''Sexta-Feira 13'', muito menos foram saudados com efusão.
Bem, e agora ? Justamente no momento em que os grandes estúdios tinham preparado um plano de amplo financiamento para converter cerca de 15 mil salas nos EUA em formato digital-3D, as linhas de crédito internacional foram drasticamente fechadas - estima-se por alto em cerca de 240 mil reais todo o processo de adaptação ao novo sistema, isto para uma única sala (não incluídos custos de taxas alfandegárias do equipamento, todo importado).
Assim, a capital do entretenimento cinematográfico enfrenta momento crucial. Se esta reconfiguração das salas pelo mundo afora (como a que ocorreu neste momento com a sala 6 do Multiplex Catuaí) obtiver literalmente o aval dos bancos, e a 3D conseguir os espetaculares resultados visuais dos quais não se duvida, isto somente ocorrerá com a adesão em massa do publico ávido por novidades.
Neste momento entra na equação o poder aquisitivo do espectador, que pagará mais caro o ingresso - e é inegável realidade estatística que a evasão de público, em qualquer mercado, tem ocorrido em grande parte por conta do dinheiro escasso e do alto valor do ingresso. Assim, a estréia de qualquer desses blockbusters será equiparável em custo, para o bolso da população, a um concerto ou a uma representação teatral, no Brasil sabidamente bens culturais usufruídos pelas classes A e B. E a 3D não é exatamente o que se pode chamar de um bem cultural...
Por outro lado, se a crise não permitir que os empresários do setor façam a necessária transformação nas salas de cinema para projetar os filmes em 3D, a diminuição de publico seguirá aumentando. O que, uma vez mais, vai colocar em xeque a cíclica crise de sobrevivência do cinema como grande espetáculo comunitário e de massas. Interessante e conturbada conjuntura, que pode ameaçar a médio prazo projetos como a trilogia projetada por Peter Jackson e Steven Spielberg com as aventuras de Tintin, herói belga das HQ, integralmente concebida em 3D.

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