O cenário é devastador. A terra foi contaminada por um vírus que matou 90% da população do planeta. As poucas pessoas que sobreviveram estão escondidas em subterrâneos imundos porque a superfície foi dominada por animais selvagens: ursos, elefantes e tigres passeiam livremente pelas ruas de cidades fantasmas. Essas são as primeiras imagens do filme ‘‘Os Doze Macacos’’, dirigido pelo visionário Terry Gilliam, que o Telecine exibe hoje, às 21 horas.
Não dá para negar que o filme guarda um certo parentesco com ‘‘Blade Runner’’, repetindo de algum modo sua sombria visão do futuro. A semelhança não é mera coincidência, uma vez que Gilliam teve David Peoples como co-autor do roteiro, o mesmo que assinou o filme de Ridley Scott. A história se passa no ano de 2035, nas cidades de Baltimore e Filadélfia, que emprestram ao filme sua arquitetura nostálgica e decadente.
Entre os miseráveis que vivem nos subterrâneos, está o prisioneiro James Cole, interpretado por Bruce Willis, que é selecionado para servir de voluntário e voltar ao ano de 1996 para descobrir quem espalhou vírus. A pista mais provável é que a catástrofe foi provocada por um grupo radical de defesa dos animais chamado de ‘‘Os Doze Macacos’’. A partir do momento que Cole é literalmente despejado nas ruas de Baltimore, começa uma série de confusões que coloca o espectador em contato com um universo que vai do real à alucinação.
Anti-heróiConsiderado louco por pregar a destruição da humanidade por um vírus desconhecido, Cole vai parar em um hospício onde conhece o interno Jeffrey Goines (Brad Pitt), que exibe um visual pra lá de inusitado. O diretor conseguiu deixar o ator feio, vesgo e cheio de tiques nervosos. Para cuidar do novo paciente, entra em cena a psiquiatra Kathryn Railly (Madeleine Stowe). Com esse trio que tem em comum a loucura, o filme joga o espectador num emarranhado de situações que a princípio parece não ter qualquer sentido. A charada só é revelada nos últimos três minutos do filme.
Apesar de um pouco confuso, ‘‘Os Doze Macacos’’ é um filme curioso por vários motivos. Ainda que sombrio, pode ser visto como uma comédia. É também um thriller da maior qualidade. No meio da parafernália de efeitos e ângulos de câmeras inusitados e enquadramentos herdados das histórias em quadrinhos, o filme presenteia o público com um personagem que tem tudo a ver com o homem deste final de milênio. O Cole interpretado por Bruce Willis é um anti-herói confuso. Além disso, vive atormentado por lembranças do passado que ele não sabe se são reais ou apenas sonhos.
Assim como nos filmes ‘‘Brazil’’ e ‘‘O Pescador de Ilusões’’, também dirigidos por Terry Gilliam, o cenário é metade da história. ‘‘Os Doze Macacos’’ tem um visual assustador. As cenas internas foram gravadas no interior de antigas catedrais e fábricas abandonadas. A televisão vai estar presente em praticamente todas as cenas do filme. A explicação para isso é a antipatia que Terry Gilliam tem pela tevê. Para o cineasta, ela é um espelho horrível do mundo que emite um reflexo distorcido e banal da vida.
‘‘Os Doze Macacos’’ é uma intrigante história que lida com o tempo, com a loucura e com a percepção que temos do mundo. É um estudo sobre a insanidade, a morte e o renascimento, ambientado num mundo que está se desmoronando sem que o homem possa fazer nada para salvá-lo da destruição.

mockup