O futuro ali na esquina
Este é um momento de travessia para o Armazém Cia. de Teatro, ou melhor, para Paulo de Moraes, Patrícia Selonc, Simone Mazzer, Ricardo Grings, Simone Vianna. Adriano Garib deu suas braçadas em alto-mar há mais tempo, é ator contratado da TV Globo, trocou alguns papéis em novelas para se dedicar ao palco, e agora junta-se ao grupo do qual foi um dos fundadores. O futuro promete.
Patrícia Selonc, apesar de todo peso e respeito conquistados nos últimos anos, até bem pouco tempo achava que jamais faria alguém rir. Comédia não estava em seus planos. Mas nesta virada - que ela chama de uma senhora fase de mudança - acabou abraçando um projeto que, apesar de tudo, tem momentos de muito humor. Eu não sabia que podia fazer rir; é muito gostoso saber que posso, vibra.
Esse é um exemplo. Acumulam-se outros e entre eles a própria condição dos artistas frente à sua arte. Eles deixaram a comodidade de uma cidade quando sentiram que todos os espaços estavam tomados, e foram abrir novos horizontes.
O grupo mudou, sentencia Garib. Como consequência, a realidade é outra, reflete o ator:
- Em Londrina eles investiam 100% no trabalho e o resultado muitas vezes era de 10%. No Rio, ou qualquer outra capital, certamente o retorno não será 100%, mas será mais que dez. A mesma tática de trabalho que tinham em Londrina, aplicaram no Rio e lá tiveram muito mais retorno. Em um mês conseguiram marcar dois meses de apresentações em escolas.
Simone Vianna cita as dificuldades para levar espetáculos dirigidos aos alunos das escolas londrinenses. Não conseguimos entrar em todas, afirma. Já no Rio, agendaram dois meses de apresentações de Literatura no Palco, com um mês de trabalho. Os portões que se abriram são de instituições nobilíssimas como os colégios Sion e Santo Inácio. Tem escolas querendo que a gente volte em novembro, outras estão marcando para ano que vem, conta a atriz.
A disputa é acirrada, porém o mercado é maior. Os membros do grupo estão se organizando. Patrícia dá aulas de técnica vocal na Escola Martins Penna (a mais antiga da América Latina voltada ao teatro; está completando 90 anos), Adriano Garib dá aulas na CAL (Centro de Artes de Laranjeiras), Paulo de Moraes está dirigindo outro grupo, Simone Vianna faz aulas na Escola Nacional de Circo e assim por diante. Grings espera a confirmação de comerciais.
Esperando Godot ficará em cartaz de 4 de novembro a 6 de dezembro no Teatro Glória, de quarta a domingo. O teatro pertence ao município e o grupo acredita que a peça correrá outras salas municipais. O otimismo tem fundamento: os londrinenses estão recebendo grande apoio da secretária de cultura do Rio, Helena Severo.
Através da Rioarte (órgão do poder público) tiveram acesso ao teatro e direito a uma verba destinada à divulgação da peça. Esse apoio financeiro salvou a pátria para a nossa estréia lá, comemora Garib. As perspectivas cada vez maiores de sucesso em nada tiram dos artistas a responsabilidade de cada um.
A gente vende espetáculos, briga com o patrocinador, prega botão, costura, passa roupa, sobe e desce escada, monta e desmonta luz, carrega cenário. Fazemos tudo que precisa ser feito, enfatiza Simone Mazzer. Assim sabemos valorizar as pessoas que fazem isso. Você aprende a respeitar um pouco mais, complementa Patrícia.
Pés-vermelhos na terra da Rede Globo, o que aspiram esses atores? Antes de tudo o teatro, afirmam em uníssono. Televisão não é a prioridade, embora estejam abertos a negociações, claro.
E o Festival de Teatro de Curitiba? Gostariam de ver Esperando Godot na programação oficial do evento? É o festival nacional mais importante que nós temos, diz Simone Vianna. Deixamos claro aos organizadores nossa vontade de estar aqui, avisa Patrícia Selonc. A gente faz questão absoluta, determina Garib. As braçadas em alto-mar continuam.





