Tica Tiritilli/DivulgaçãoRenata Jesion e Dionísio Neto, em cena de ‘‘Perpétua’’Misture-se o manguebeat de Chico Science aos delírios quadrinhescos de Sandman e para que não reste assim tão descaradamente pop, vá buscar ao vetusto Ingmar Bergman, de ‘‘A Vida das Marionetes’’, um quê e uns fumos da ‘‘solenidade’’ morbo-existencial dos nórdicos e terás, pacientíssimo leitor, ‘‘Perpétua’’, de Dionísio Neto, interpretada pelo próprio e por Renata Jesion, dirigidos ambos por Leonardo Medeiros, mais um dos equívocos desta sexta edição do Festival de Teatro de Curitiba.
Informam os boletins oficiais do evento que o espetáculo é o primeiro de uma trilogia que inclui ainda ‘‘Opus Profundum’’ (duramente vaiada em sua estréia no Festival) e ‘‘Desembestai’’ da qual, pelo visto, os curitibanos foram poupados. Ainda que críticos daqui e d’alhures insistam em situar Dionísio Neto como uma das grandes revelações do novo (sic) teatro brasileiro. Não sabemos ao certo nem se há um teatro brasileiro, quanto mais xingá-lo de novo como se o novo fosse o moderno, ou vice-versa. Equação que só na vasta uganda tupiniquim ainda tem lugar, sob o império da mediocridade chapada e lesiva em que vibra a ‘‘ambiência’’ cultural no país de Fernando Henrique Cardoso.
Dá preguiça relatar a estória da peça, de um clichê que parece não temer o ridículo: numa grande cidade brasileira, inquieto e inquietante jovem brasileiro, entre o intelectual de almanaque e o pirado dos tratados clínicos do Dr. Phillipe Pinel, se vê às voltas, no dia de seu aniversário, no nem tão distante ano de 2007, com a prostituta Perpétua. Em razão de uma lei que impede os cidadãos de circularem depois das dez horas da noite, nosso herói descuida-se e acaba preso ao apartamento da amante, e à amante, até a manhã seguinte. O que se desenrola depois disso é vexaminoso: guiado pelo texto paupérrimo do próprio Dionísio, de um ‘‘espontaneísmo’’ forçado e esforçado, o casal se enrola, se embola, se come e se lambe, unha-se e morde-se, mas sobretudo grita, durante mais de uma hora de espetáculo. É patético.
Para lá de qualquer papo sobre vanguarda, ‘‘make it new’’ poundiano, ou outras mumunhas mais, e aquém da ‘‘proposta’’ de muitos grupos de Londrina de há dez anos, Dionísio Neto é um ingênuo, um ‘‘naif’’, ainda que insista interpelar os rumos da estética universal e impor que o mundo seja visto desde a ótica de seu umbigo. Imaturo, de uma mediocridade pretensiosa e às vezes atrevida, o jovem mancebo assenhora-se do aval de Gerald Thomas e de Antunes Filho, para fazer o que lhe dê na cabeça. O público? O público há de aplaudir sempre, mesmo levando porrada - para lembrar Thomas Bernahrd, outro ícone, este felizmente legítimo, do presente Festival.
O raconto futurista de ‘‘Perpétua’’ fica devendo à ficção científica, como gênero, o melhor e mais difícil de seus trunfos - a verossimilhança. Assim como não existe ‘‘realismo mágico’’, em literatura, sem um feroz naturalismo de fundo, como suporte, causa estranheza, logo de cara, que daqui a dez anos apenas, prostitutas brasileiras imponham-se do modo como se impõe a personagem de Renata Jesion - melhor afim aos figurinos de ‘‘Blade Runner’’ do que à miséria nossa molamba de um ‘‘Pixote’’, por exemplo. E mais: não levando em conta o lugar-comum, será que em dez anos teremos toques-de-recolher, à la Orwell, que trancam os cidadãos, por controle remoto, em seus apartamentos, depois das dez da noite? Soa falso não soasse ainda feito um flagrante clichê de quem não sabe, ao menos em matéria de ficção científica, onde tenha cantado o galo.
Mas nem tudo está perdido neste espetáculo pretensioso e menor: a trilha sonora de Arrigo Barnabé é de uma beleza essencial. Pena que a peça não ajude. E é aí então que dá na gente uma vontade insensata de tapar os olhos e no escuro da platéia conectar fones-de-ouvido diretamente ao walk-cd dentro do bolso e ouvir, ouvir madrugada adentro, sem pausa nem horário, de novo e para sempre, todas as faixas de ‘‘Clara Crocodilo’’.
É que o próprio Arrigo se dá tão pouco ao espetáculo que em vez de saciar, fissura.

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