O furacão da linguagem
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de novembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Uma obra louca escrita por um homem louco. Dessa maneira o escritor irlandês James Joyce (1882 - 1941) definiu seu trabalho mais radical, Finnegans Wake. Quando foi publicado em 1939, depois de dezessete anos de elaboração - num período em estava ficando cego -, o livro foi considerado apenas um experimento linguístico.
Melancólico com o descaso de críticos e leitores, declarou pouco antes de morrer que, com Finnegans Wake, queria manter os críticos ocupados nos próximos trezentos anos. Tudo indica que sua profecia se concretizou. Hoje, 70 anos após sua publicação, a obra é considerada de uma genialidade sem precedentes na literatura mundial. Revolucionária, é um verdadeiro totem das letras. O mais cultuado e menos lido clássico do exercício da linguagem.
Finnegans Wake é um sólido bloco de concreto em que o leitor, munido de martelo e talhadeira, penetra num labirinto temporal e mítico da humanidade. Focaliza a mitológica e sublime queda do homem e sua ressurreição numa abordagem declaradamente estética. As personagens se transmutam em outras personagens sem descanso, numa espiral desconexa de tempo. O inconsciente escancara suas portas contaminando o consciente com seus fantásticos vírus. Desloca propriedades do campo divino para operários encharcados de cerveja.
Joseph Campbell definiu a obra da seguinte maneira: Finnegans Wake é uma poderosa alegoria da queda e ressurreição da humanidade. É uma estranho livro, um misto de fábula, sinfonia e pesadelo - um monstruoso enigma a acenar imperiosamente dos abismos sombrios do sono. Sua mecânica assemelha-se à de um sonho, um sonho que libertou o autor das necessidades da lógica comum, possibilitando-lhe comprimir todos os períodos da história, todas as fases do desenvolvimento individual e racial, em um desenho circular, de que cada parte é começo, meio e fim.
Pela sua linguagem, normalmente Finnegans Wake é considerado um texto intraduzível. Os irmãos Augusto e Haroldo de Campos foram os primeiros a publicarem traduções de fragmentos do livro no Brasil. Lançado em 1962, Panorama do Finnegans Wake (Editora Perspectiva) trazia 15 pequenos fragmentos que davam suporte aos argumentos da Poesia Concreta.
Agora, pela iniciativa da editora Ateliê e da Casa de Cultura Guimarães Rosa, a obra de Joyce começa a ser publicada integralmente no país. Um projeto editorial ousado. O trabalho de tradução/versão é uma iniciativa do professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o gaúcho Donaldo Schuler. Sob o título Finneganns Wake/Finnicius Revém, o primeiro volume (Livro 1, Capítulo 1) foi publicado no fim do ano passado. O segundo volume (Livro 2, Capítulos 2, 3 e 4) foi publicado recentemente. Os outros volumes devem ser lançados nos decorrer dos próximos três anos.
Em edição bilíngue, Finnicius Revém oferece elucidativas notas de leitura de cada elemento importante do texto. Nessa notas, Donaldo Schuler não fica preso aos chamados problemas de tradução, mas no conteúdo e nas referências propriamente ditas de acordo com os propósitos de James Joyce. Em seu trabalho de tradução/versão, ao mesmo tempo que procura preservar o original, insere criativamente elementos de brasilidade. O termo nonada cunhado por Guimarães Rosa a partir de referencias sertanejas em Grande Sertão: Veredas, por exemplo, é utilizado por Schuler.
O leitor que se aventurar na leitura de Finnegans Wake/Finnicius Revém deve estar predisposto a entrar num universo de linguagem pouco usual. Paciência e lentidão, virtudes do passado, são bem vindas nesse território. E claro, coragem para realizar a própria aventura independente de leitura - isso porque a própria obra estimula esse procedimento. E, se necessário, sentir-se à vontade para achar a genial obra de James Joyce um saco.
Finnegans Wake/Finnicius Revém - Livro 1, Capítulo 1 de James Joyce, tradução/versão, apresentação e notas de Donaldo Schuler, Ateliê Editora/Casa de Cultura Guimarães Rosa, edição bilíngüe, desenhos de Lena Bergstein, 144 páginas, R$ 42,00.
Finnegans Wake/Finnicius Revém - Livro 2 Capítulos 2, 3 e 4 de James Joyce, tradução/versão, apresentação e notas de Donaldo Schuler, Ateliê Editora/Casa de Cultura Guimarães Rosa, edição bilíngue, desenhos de Lena Bergstein, 256 páginas, R$ 52,00.


