O funk como produto da realidade
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sábado, 04 de junho de 2016
José Patrício<br>Estadão Conteúdo 
Na semana passada, um caso de estupro coletivo abalou o Brasil e provocou protestos colocando o Rio das Olimpíadas na mira do que há de pior nos noticiários. O fato também chegou ao exterior fazendo possíveis turistas que viriam aos Jogos cancelarem a viagem por medo do que encontrariam na Cidade Maravilhosa. Certamente não se trata de um caso isolado, pesquisas mostram que cerca de 47,6 mil mulheres foram estupradas em 2014 e há estatísticas que consideram que uma mulher é estuprada no país a cada onze minutos. Só que desta vez, correspondendo à ideia de que tudo deve ser exibido nas redes sociais, os agressores divulgaram o vídeo do estupro e fomentaram o escândalo que alcançou repercussão internacional. Não fosse isso, o caso não teria passado dos limites da Praça Seca, no Morro de José Operário, na zona oeste do Rio.
No plano da cultura da violência, o vídeo que mostra cenas dos algozes da menor B.P., 16 anos, se vangloriando do feito chocou internautas que também ouviram a narração de um dos agressores repetindo a frase tosca "mais de 30 engravidou", num clima de deboche que dá a medida da banalidade com que se toma hoje o que é um crime bárbaro, a ser denunciado e refutado de todas as formas possíveis.
A frase dita pelo narrador entusiasmado pela ação coletiva, seria alusão à letra de um funk criado pelo DJ Daniel em 2010 que diz: "mais de 20 engravidou" (sic). Mas o que seria apenas detalhe - ou mera coincidência - não pode ser analisado como fato isolado, mas dentro de uma cultura que celebra o sexo irresponsável ou à força, a marginalidade e o abuso sexual como forma de poder, evidenciando o machismo de tratar as "novinhas" ou menores como alvo da libido machista e destrambelhada.
Muitas letras dos funks não deixam dúvidas de que há um culto ao rebaixamento da mulher e da sexualidade, isso traz indagações sobre que tipo de sociedade estamos criando e o que, afinal, está sendo celebrado de forma ostensiva. No fundo, tudo isso não passa da subjugação de um gênero sobre o outro.
Muitas letras do funk discriminam e subjugam a condição feminina: "...se liga aí novinha, por favor tu não se engane. Abre as pernas e relaxa. Que esse é o Bonde do Inhame. Que esse é o Bonde do Inhame. Esse é o bonde dos cria que enfogueta as novinhas. Esse é o bonde dos cria que enfogueta as novinhas. Vai na treta do Nem que a Kátia tá também eeemmm. Larga o inhame na Silvinha".
Não há muito o que dizer sobre letra tão edificante composta em 2009, a não ser desligar o rádio ou tapar bem os ouvidos quando passa um carro de som exibindo o pancadão nas ruas, ainda mais quando se sabe que o Nem citado na letra seria um líder do tráfico na Rocinha.
Mas não se trata também de censurar ou criminalizar o funk, a banalidade sexual não é exclusividade do gênero, letras de músicas sertanejas caminham na mesma direção, a ponto de muitas duplas atualmente decidirem fazer o caminho inverso evitando falar de sexo e bebedeiras em suas composições. Na verdade, a cultura marginal é objeto de culto da juventude que nem sempre celebrou a paz e o amor. A cultura é reflexo da realidade e muitos sugerem que captar a violência e transformá-la em música, ou arte de modo geral, seria uma espécie de catarse que faria as comunidades transformarem em ato simbólico o que seria um ato concreto.
Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio, é autor de uma lei que considera o funk uma "manifestação cultural" a ser, inclusive, incentivada nas escolas como "instrumento pedagógico." A ideia é boa. Isso seria um modo de jogar luz sobre a questão e criar nova consciência que substitua as letras agressivas, tendo em vista que o funk é um gênero musical como outro qualquer e,por seu alto poder de sedução, também foi apropriado pelo tráfico que através dele mantém suas bandeiras de apologia às drogas e à violência, incluindo a pedofilia.
O funk nasceu do cruzamento da cultura pop e da música negra americana, sendo que no Brasil enveredou por outras vertentes, sendo exemplar o funk carioca que preza pela cultura de tudo que é proibidão.
O proibido sempre foi celebrado pela juventude, o funk não é exceção. Muitas letras de rock também celebram as drogas, a literatura beat tem em seu rol de autores pessoas que estiveram presas ou cometeram delitos,James Dean transformou-se em mito nos anos 50 ao protagonizar Juventude Transviada. Se fossemos usar a ótica estrábica da censura ao que é considerado ruim ou violento na arte, os filmes sangrentos de Quentin Tarantino não poderiam estar nas telas, da mesma forma que muitas óperas nunca teriam sido encenadas e nem mesmo as tragédias gregas nas quais as mães matam os próprios filhos, a exemplo de Medeia.
O fato é que não haveria música, teatro ou cinema violentos se a própria realidade também não o fosse. Criminalizar o funk - no lugar do tráfico ou da cultura do estupro - seria uma negação da própria realidade a ser conhecida, criticada e transformada.
O princípio da arte é a transformação, a cultura cataliza valores que entram no contexto dos costumes e vícios que muitas vezes vão parar em letras de músicas ou enredos de filmes. Discriminar um gênero musical como "perigoso" seria negar-se a enxergar o risco que se projeta nos bailes funks como uma sombra da violência real. Uma sombra que também assusta comunidades da periferia que se negam à integrar uma cultura promíscua não só pela banalização do sexo, mas pela banalização das relações humanas.
À arte cabe o papel de levar ao plano simbólico o que está nas entranhas da mais hedionda realidade. Não adianta censurar o funk se o limbo da criminalidade não for tratado com competência político-social. De outro modo, estaríamos censurando a música sem contextualizá-la com a matriz da violência. Isso seria como prender o ator que interpreta um bandido pensando em eliminar o crime.
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