O Fringe em três espetáculos
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sexta-feira, 19 de março de 1999
Jackeline Seglin e Zeca Corrêa Leite 
Três grupos fazem hoje sua estréia no 8º Festival de Teatro de Curitiba (FTC), dentro da programação do Fringe. À meia-noite, no teatro José Maria Santos, o ator e coreógrafo mineiro Antônio Mello coloca em cena a figura contraditória de um transexual, que traz dentro de si as vozes ardentes de suas mulheres. Carmen, mistura de teatro e dança, empresta da obra imortal de Bizet apenas a citação de algumas árias.
Algum susto com o tema? Pode ser. Ele é pouco tocado, porque é cercado de tabu. Meu interesse é destrinchá-lo, diz Mello. Nesta montagem fala-se da hipocrisia da sociedade frente ao que é diferente, dispara. O glamour com que o transexual tenta se cercar, a alegria superlativa com que enfrenta a sociedade e o mundo são tão-somente imagens. Antônio evita ilusões naquilo que se propôs a mostrar:
- A minha Carmen é absolutamente dramática, feita de conflitos dramáticos. Então meu espetáculo é de pouca fala; priorizei a dramaturgia corporal. O corpo diz tudo ao espectador.
A atração do teatro Lala Schneider, também à meia-noite, é o espetáculo Eu Sou Mais Nelson. Com direção, concepção, roteiro e encenação de Ana Kfouri, a montagem é definida como um mosaico de neuroses e desejos do ser humano com o humor sarcástico e inteligente de Nelson Rodrigues.
Eu Sou Mais Nelson trata a essência da obra do autor, identificada como a impotência do homem diante do amor e da morte e a descoberta da sexualidade. A sensação de urgência que os personagens necessitam para alimentar os seus desejos é evidenciada em cena pelo trabalho corporal de 12 atores.
O terceiro espetáculo, que acontece também à meia-noite, é Nau de Verdades - a vida e a obra do escritor Gil Vicente, apresentada em três autos: No Auto da Visitação, Barca do Inferno e da Alma e Todo Mundo e Ninguém. Dirigido por Patrícia Venâncio, será levado no Espaço Cênico.
O texto de Gil Vicente analisa a vivência humana segundo os padrões cristãos medievais, apontando erros e expondo os problemas. O discurso é impiedoso e cheio de sátira. Nenhuma classe social é perdoada. Quem dá o ritmo à peça é o personagem Bobo da Corte.


