|
  • Bitcoin
  • Dólar
  • Euro
Londrina

O CINÉFILO FIEL 5m de leitura Atualizado em 14/11/2021, 14:38

O fresco e bom faroeste negro

“Vingança e Castigo” está no streaming galopando com estilo, charme e violência histórias de heróis e vilões negros

PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de novembro de 2021

Carlos Eduardo Lourenço Jorge
AUTOR autor do artigo

menu flutuante

 No longa metragem escrito e dirigido por Jeymes (isso mesmo, Jeymes, não James...) Samuel, não se espante com a narrativa subversiva que faz uma releitura da tradição ocidental com tiroteios espetaculares, diálogos habilidosos e um elenco de primeiríssima linha apontando em todas as direções. Adicione uma trilha sonora recheada de ótimas surpresas e você terá um faroeste contemporâneo, a um só tempo divertido e instigante que, de maneira inteligente, coloca um absoluto olhar de negritude na medula de seu rico universo humano. Um mix de influências ocidentais de boa origem  - Leone e Tarantino, principais fontes de ascendência, com pequena ajuda da ousada extroversão daquele Baz Luhrmann de “Gatsby” e “Moulin Rouge” - transforma o western negro de Samuel em um espécie de vertiginoso deleite.

O diretor e roteirista Jeymes Samuel traz um Oeste transformado pela cultura pop, com diálogos modernos, e uma play list à base de reggae, hip-hop e agrobeat
O diretor e roteirista Jeymes Samuel traz um Oeste transformado pela cultura pop, com diálogos modernos, e uma play list à base de reggae, hip-hop e agrobeat |  Foto: Divulgação
 

O espectador volta e meia se pergunta, diante da história que vai num crescendo: há segregação neste filme de cowboys barulhentos ? Sim, com certeza, mas não do tipo que se espera. Há charme na coisa, e boa dose de invenção. As cidades negras são inteiramente negras e os assentamentos brancos são imaculadamente brancos. Mas, ao contrário de quase todos os outro westerns sob o sol escaldante da fronteira, “Vingança e Castigo” tem reduzidíssimo interesse na urbe dos brancos. Há somente uma (divertida e maravilhosa) sequência caucasiana, em tom de alabastro, um branco quase  feérico e ofuscante. O roteirista-diretor Samuel não se demora nesta anedota. Porque, para ele, este é um Oeste quase cem por cento negro devido a uma transformação via cultura pop, com diálogos rapidamente modernos – incluindo algumas dissidências que Tarantino sem dúvida encamparia – e uma play list com hits imediatos à base de reggae, hip-hop e afrobeat.

Crucialmente, o mundo ficcional e implacável das disputas entre os bandos do vilão Rufus Buck (Idris Elba) e do vingador Nat Love (Jonathan Majors) é povoado por personagens históricos reais. Um letreiro de abertura anota que “essas pessoas existiram”. E o diretor Samuel (também compositor de várias músicas da trilha) as recria não apenas para capacitar os cowboys negros, mas também as mulheres, como a esperta e valente empresaria Stagecoach Mary (Zazie Beetz, de “Deadpool”) e a guerreira Trudy (Regina King, diretora de “Uma Noite em Las Vegas”). Aqui as mulheres lutam tão ou mais ferozmente que os homens, e matam com a mesma facilidade.

.
. |  Foto: Divulgação
 

E as mortes no filme são violentas, cruas, até gratuitas às vezes, mas nunca menos que elegantes. A câmera do diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr. encontra novos ângulos para capturar cowboys fazendo coisas que já vimos antes centenas de vezes. Como o confronto tem as sombras de dois homens armados se estendendo pela rua empoeirada de uma cidade deserta: ali até mesmo as sombras parecem terríveis.

 Muitas dessas mortes são cortesia do bad boy Rufus (Elba, de certa forma reencarnando aquele Frank tenebroso de Henry Fonda em “Era uma vez no Oeste”), um fora-da-lei que se mostra ainda mais cruel na vida real. Um ato brutal cometido há muito tempo dá ao filme um cenário de faroeste espaguete, colocando o assustado Nat em missão de vingança que logo envolve varios personagens ao redor, como o certeiro Bill Pickett (Edi Gathegi), o pistoleiro Jim Beckwourth (RJ Cyler) e a inesperada força muscular da minúscula Mary Cuffee (Danielle Deadwyler). Há o lendário homem da lei vivido por Delroy Lindo (um dos veteranos do Vietnam de “Destacamento Blood” de Spike Lee) e o pistoleiro Cherokee Bill, interpretado por LaKeith Stanfield. É um ensemble imensamente desfrutável, todos ótimos em seus respectivos ofícios. Mas o carismático e gélido Elba é a atração principal; e a direção, sabendo o valor lapidado do ator, entrega a ele momentos em que o espectador desfruta de enorme fruição – como a sequência do desenlace entre os dois oponentes. Nota-se que o ator britânico realmente se deleita com a complexidade desse vilão, em atuação que está entre as melhores de sua carreira.    

Esses e outros personagens do filme existiram em tudo, historicamente, exceto no nome, nesta versão trangressora do gênero, já que suas características, motivações e desventuras não se alinham com suas contrapartidas na vida real que tiveram. Mesmo assim, Jaymes Samuel preparou uma grande diversão. Apesar da tensão sempre presente, há um apreciável senso de humor contemporâneo no roteiro. Nem todo tiro disparado é uma bala. Às vezes é uma piada, e muitas vezes usada para desafiar as expectativas de como um confronto tenso pode acontecer.

A estréia de Samuel (que é músico, também conhecido como The Bullits) no cinema é uma exibição impressionante de criação de mitos que tornou o Velho Oeste grande novamente.

instagram

ÚLTIMOS POSTS NO INSTAGRAM