O 'Frankenstein' romântico de Del Toro está na Netflix
A mais recente versão do clássico de Mary Shelley, adaptado centenas de vezes, é imperdível; confira no streaming
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quarta-feira, 12 de novembro de 2025
A mais recente versão do clássico de Mary Shelley, adaptado centenas de vezes, é imperdível; confira no streaming
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

A criatura que acabou por receber o nome de seu criador e que surgiu da mente alucinada da inglesa Mary Shelley no início do século XIX, na aurora da era vitoriana, foi adaptada centenas de vezes, do cinema aos quadrinhos, da televisão às canções pop.
Em todas elas, o denominador comum foi o grotesto. A criatura sempre foi um monstro. Talvez não seja surpresa que Guillermo del Toro tenha sido o primeiro a resgatar o personagem das profundezas do horror bizarro. Seus trabalhos anteriores em filmes premiados como “O Labirinto do Fauno” (2006) e “A Forma da Água” (2017) demonstraram o interesse em humanizar o horror, levando-o por um caminho mais próximo da fantasia. Sua criatura é um ser apolíneo, envolto em musgo e folhas de outono. É uma criatura muito mais próxima daquela que Mary Shelley imaginou naquela noite sob efeito de ácido, memoravelmente retratada pelo diretor Ken Russell em “Gótico”, seu filme de 1986. Mas o filme de Del Toro não começa da maneira mais amena.
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Ambientado em 1857, o atual “Frankenstein” tem uma abertura visualmente deslumbrante. Buscando alcançar o Polo Norte, um grande navio fica preso em águas congeladas, e o capitão dinamarquês, Andersen (Lars Mikkelsen), luta para manter a ordem entre a tripulação. Tudo se acalma quando os marinheiros avistam fogo no horizonte. Lá, encontram um homem ferido e à morte, o Barão Victor Frankenstein (Oscar Isaac), que é levado para o navio. Mas tudo muda novamente quando outra figura gigantesca aparece no horizonte. É a criatura enorme (interpretada pelo ator australiano Jacob Elordi), que vem ao navio para se entender de vez com seu criador.
Assustados, os marinheiros atiram na criatura, mas vários morrem tentando bloquear seu caminho. É Andersen quem salva a situação, atirando no gelo e afundando a criatura na imensidão do oceano.
CRIADOR E CRIATURA
Toda esta sequência, a mais violenta do filme, com seu tom intensificado pela música sempre magnifica de Alexandre Desplat, é apenas um prelúdio para o flashback, que é a própria história: o romance de Mary Shelley. Del Toro faz uma mudança formal na narrativa do clássico: ele apresenta uma nova estrutura, produto de sua imaginação, para contar a história que todos conhecemos. A aula magistral onde Victor afirma a possibilidade de criar vida (apenas para ser expulso da academia), a aliança com um mecenas, Herr Harlander (interpretado por Christoph Waltz), o noivado de seu irmão William (Felix Kammerer) com a filha de Harlander, Elizabeth (Mia Goth), e finalmente a criatura, feita com partes de homens enforcados ou mortos na guerra, ganha vida — tudo isso é relatado por Victor a Andersen na cabine do navio, até que, num truque da dramaturgia, a criatura pede para contar sua versão dos acontecimentos.

AMBIENTAÇÃO FANTÁSTICA
Mais do que qualquer outro artista que tenha dado vida cinematográfica ao romance de Mary Shelley, Guillermo del Toro buscou dramatizar e polarizar o vínculo entre os dois principais protagonistas da história. De seu estúdio em Edimburgo, Victor é retratado como uma figura megalomaníaca e egocêntrica, homem que usa a ciência para alcançar um projeto cósmico. Sua criatura, por outro lado, é a própria natureza: inocente e alheia à maldade humana. Ele é vítima de seu próprio criador, a quem procura anos depois (no presente do filme) para descobrir as razões de sua criação e os motivos de sua imortalidade (algo semelhante às questões eternas da humanidade, mas inversamente proporcional).
Nesse tipo de drama shakespeariano com ambientação fantástica, o diretor mexicano se move com desenvoltura. Ele não teme nem mesmo se repetir: a atração idílica entre Elizabeth e a criatura espelha o vínculo entre aquele homem anfíbio e jovem muda Elisa em “A Forma da Água”. Este Frankenstein é inconfundivelmente de Del Toro, carregando todas as suas marcas registradas. Exuberante, melodramático, extremamente romântico e dolorosamente emocionante, é uma história de pais e filhos, de amantes e marginalizados, de homens como verdadeiros monstros. As criaturas abandonadas lutam para compreender um mundo insuportável, e seus criadores, seus pais, nunca o compreenderam completamente. O esqueleto de Shelley está aqui, mas a carne que o envolve é a do diretor mexicano.
A filmografia de Del Toro conta a mesma história, de maneiras diferentes, é claro, mas na essência é a mesma. Todos abordam o mesmo tema: aceitar o outro, o estrangeiro, o diferente, o imigrante; aceitar a pessoa que não é como você e amá-la, assim como essa pessoa poderá amá-lo de volta. Por isso é que não se tratam de filmes de horror. Nunca estiveram nessas listas, nem dos góticos, nem de terror. Este “Frankenstein” sempre foi uma história de amor poética. É sobre amor – qualquer tipo de amor – e sobre humanidade, sobre como expressar a humanidade para com os outros.
Sem negligenciar o entretenimento, “Frankenstein” é um resgate emocional do ângulo menos explorado do personagem, e um novo ponto alto na carreira do cineasta.





