Quem me inspirou foi Boccaccio e o seu frade Rinaldo. Vê se ti emenda homem. Na pequena cidade de Três Marias, as pessoas desconfiadas crêem em tudo. As histórias mirabolantes criam vida, as reais então... Aconteceu por aqui nesta cidadezinha, numa casinha bem localizada, perto do campinho onde os guris lançam pipas e bolas, mudou um frade.
Gente boa o rapaz: gostava de prosear, tocava violão, falava da vida, entendia um pouco de filosofia, se é que existe alguém que não entende um pouco dessa coisa. Ele era boa pinta, como as pessoas falam, não gostava de mentiras, só as dele. Vivia contente, tinha um baita sorriso fácil que cativava os mais arraigados daquele lugar.
Mas cá comigo eu desconfiava, sou bobo mas nem tanto. Já tenho uns bons anos aqui e conheço um pouco de cada gente, tou de olho nele, embora, reconheço, também me alegro com suas histórias e com o baralho que jogamos, eu, ele e meus dois filhos, João e Armindo. Sigo eu, segue o frade, cortando os caminhos que a vida nos prepara.
O tal frade, quando bebia um vinho mais que precisava, dava a falar comigo sobre as suas andanças e da opção que a vida fez dele. O homem contou que vinha de Bela Vista dos Perdizes, pequenina cidade perto de onde minha familhagem morava. Órfão de mãe, seu pai fugiu, deixando-o mais órfão ainda. Pegou o caminho da igreja, como escreveu Victor Hugo, lugar de aconchego para os maltratados pela vida, pelo tempo e pela falta de dinheiro.
Na paróquia desenvolvia tarefas de rotina, ajudava no preparo das missas e dos seminários, na limpeza da sacristia, mas também aprendeu a ler com o cura e também a ouvir, de forma, no começo às escondidas, as confissões das senhoras daquele lugar (lá como aqui, como outro lugar, as mulheres se confessam mais que os homens e me parece são mais crentes também, não quero entrar nos motivos que acredito, mas vamos seguindo nossa história que é o que deve interessar ao leitor).
O problema graúdo é que as histórias do frade são apenas histórias de uma boca só. Ele conta e eu as ouço. Não sei se é o caso de desacreditar, mas vou vendo e vivendo desconfiando, é mais seguro assim. Na dúvida, vou ouvindo até onde não sei, mas a contagem da história me atiça a abrir mais uma garrafa que peço ao meu bom garoto menor fazê-lo por mim. Ele, como estava dizendo, me contava sobre ouvir as confissões das almas de saias.
Então, onde se viu isso, frade não deve dar a essas coisas, ficar ouvindo, se bem que deve ser bom fazer isso, mas entrar nas intimidades dos outros não está certo não, só o homem que chamam de padre deve ter esse direito. Como ninguém sabia que ele ouvia as tais histórias, ele passou a ser também meio que confidente, amigo leal daquelas mulheres, sabia de suas vidas mais que os próprios maridos. Diz ele que saiu fugido daquelas redondezas, indo parar num convento, porque um deles presenciou uma cena que não era de confessionário.
Eu só sabia porque ele me confiava aquelas suas histórias que não eram carecas, talvez era porque confiava em mim. Sei não, na dúvida continuei não sabendo. O conto do frade foi se descortinando na minha frente. Acho que já éramos amigos, e amigos, você sabe, precisa guardar segredos, vou permitir guardar alguns que ele me contou e não vou contar ao leitor, espero que me compreendas.
Bem, concluída a questão, saiu fugido e sem dinheiro, ele já nunca teve mesmo trocado algum. Veio para cá para retomar a vida, tocar o barco como dizem. Mas o moço é humilde, logo arruma um serviço na igreja, minha mulher há muito não confessa mesmo. Eu não sei se o frade se deu bem naquelas terras, tudo leva a crer que sim, não sei a certeza porque vendi uns pedaços de solo que tinha por lá e me mudei para cá, para Tocantins.
Quem sou eu para julgar os outros, acho que possuo mais defeitos que muitos daquele lugar, inclusive o frade que não era frade. A história dele parece um pouco com a minha, que não conto para ninguém, pelo menos até chegar em uma cidade como Três Marias e tomar um bom vinho na casa de um amigo. E por falar nisso, você gosta de vinho?

MARCIO CARRERI é professor de História, autor de ''Agulha no Palheiro'', publicado pela EDUEL

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