O fracasso da liberdade
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
Nenhum jornal anuncia em suas manchetes que a humanidade está em completo colapso. Nenhuma canal de televisão anuncia que a humanidade caminha para o caos pela sua incapacidade de resolver seus problemas básicos como fome, poder e desejo. Nenhuma sociedade assume sua decadência, mesmo que seus membros estejam sendo diariamente enterrados num solo inundado de frustrações, infelicidades e desespero.
Para sua própria sobrevivência, o homem prefere contagiar-se pelo otimismo. Se não fosse pelo otimismo, as pessoas não acordariam às 7 da manhã para trabalhar, nem se casam, não criariam filhos, não ergueriam casas, não sairiam para passear com o cachorro nem fariam tricô. Mas o pessimismo possui uma importante função, a de impulsionar uma reflexão mais fria da realidade já que o mundo está longe de ser uma mar de rosas.
De maneira geral, um escritor, direta ou indiretamente, retrata o tempo em que vive. O romancista francês Michel Houellebecq leva a sério esse princípio no romance Partículas Elementares lançado pela Editora Sulina. Sem laços cor-de-rosa, sem colheres de açúcar, sem enfeites. Para Houellebecq, vivemos numa sociedade que caminha para o colapso total. Uma sociedade profundamente doente, moribunda em sua longa trajetória autodestrutiva. Não há otimismo que consiga remendar seus farrapos.
Publicado em 1998 na França, o livro foi palco de acirradas discussões. Rapidamente se tornou um best seller traduzido para 21 línguas. Michel Houellebecq traça um painel irônico e mordaz das últimas quatro décadas, da lendária década de 60 ao final da década atual. Apresenta uma visão pessimista de todas as conquistas culturais e comportamentais das últimas gerações, conquistas geralmente ovacionadas em nome da bandeira da liberdade. A chamada revolução sexual, por exemplo, é apresentada como uma brincadeira de adolescentes desprovidos de maturidade emocional. Em alguns pontos o romance pode ser considerado conservador e até mesmo reacionário, mas a crítica que realiza é violenta, pautada pela coerência. Aponta coisas que muitos têm vergonha em admitir, pois seria admitir o próprio fracasso, o fracasso dos próprios ideais.
Partículas Elementares conta a história de dois irmãos, Michel e Bruno. Nascidos na década de 60, a única semelhança entre ambos está no abandono. A mãe, hippie mística, abandonou os filhos em nome da liberdade e dos amantes. Também foram abandonados pelos pais (são filhos de pais diferentes) que possuíam outros planos para a vida. Michel e Bruno passam a ser criados pelas avós, sem nenhum tipo de contato entre eles.
Os garotos vivem como podem, sob o carinho das avós e as atrocidades dos colégios internos. Com o falecimento das avós, seguem a vida sozinhos. Michel se torna um respeitado biólogo molecular, Bruno um professor ginasial de literatura. Michel se transforma em um homem duro e frio, indiferente ao mundo e às pessoas. Incapaz de amar ou oferecer algum tipo de sentimento, segue solitariamente sua existência, alheio aos prazeres do sexo. Bruno, pelo contrário se torna um homem obcecado por sexo. O desejo sexual rege sua vida, desejo que nunca consegue apaziguar, mesmo se entregando aos mais variados tipos de prazeres.
Michel e Bruno são um reflexo do mundo e do tempo em que nasceram com frustração atrás de frustração e toda e qualquer esperança apagada como um cigarro atrás do outro. Toda e qualquer possibilidade de bem-estar é uma falácia. Vivem numa sociedade em que os problemas não se resolvem, troca-se um problema por outro, uma neurose por outra, uma injustiça por outra, uma violência por outra, uma droga por outra, uma religião por outra, etc, etc, etc. O mundo em que estão inseridos cultua liberdade e o individualismo como ouro, e, paradoxalmente, faz com que seus indivíduos tornem-se escravos da própria idéia de liberdade.
Partículas Elementares não é um romance de entretenimento. Apresenta um recorte reflexivo sobre a época em que vivemos. Em síntese, a geração que proclamou a superioridade da juventude sobre a idade madura não foi capaz de educar a geração seguinte, simplesmente abandonou-a. Nessa processo, a geração seguinte passou a agir de modo a desprezar a geração que não conseguiu instruí-la, com estrutura, para a juventude. Ou seja, ocorreu um rompimento justamente entre a geração que defendia um novo ideal e a geração de deveria se desenvolver, desde a infância, neste ideal. A geração que teve a coragem, e a possibilidade, de não mais reproduzir as doenças sociais das gerações que a precederam, desenvolveu outras doenças que sobrecaíram sobre a geração seguinte, aquela que, teoricamente, estaria mais preparada para mudanças.
A obra de Michel Houellebecq (41 anos de idade) não possui uma linguagem elaborada, mas utiliza instrumentos variados em sua narrativa. Mistura dados científicos, psicológicos, biológicos, físicos, químicos, etc, ao gênero romance. Trata-se de um livro que oferece centenas de leitura e múltiplas interpretações.
No final de Partículas Elementares Houellebecq utiliza argumento de ficção científica. No ano de 2029, um cientista, baseado nos trabalhos de biologia molecular de Michel, anuncia o desenvolvimento de seres humanos em laboratório. Criando pessoas ideais a humanidade sentia-se honrada em ser a primeira espécie animal do universo conhecido a organizar ela mesma as condições de sua substituição a espécie que soube considerar a possibilidade de sua própria superação e com o tempo soube colocar em prática essa superação. Cinquenta anos depois, com resignação, os humanos naturais resolvem extinguir-se, aliviados com o próprio desaparecimento. A Terra passa a ser habitada, em toda sua extensão, pelos homens criados pelos homens.
Enfim, embora o homem tenha fracassado em sua própria existência, conseguiu construir algo superior a si mesmo. Neste momento, abandonou a Terra deixando-a como herança para sua criação. Em seu estado natural, a humanidade revelou-se um fracasso e, para compensar esse fracasso, criou elementos para justificar sua existência, no caso um homem superior a ele próprio.
Partículas Elementares De Michel Houellebecq, Editora Sulina, tradução de Jurandir Machado da Silva, 340 páginas, R$ 32,50.





