O FRACASSO DA HUMANIDADE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de maio de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Enquanto uma parte do mundo aplaude e brinda a globalização da economia, outra parte enxuga as lágrimas diante da globalização da exclusão. Entre milhões de pessoas que enxugam lágrimas estão aquelas que fogem desesperadas da pobreza, ou da guerra, ou da repressão, ou as três juntas. Migrantes, refugiados e exilados em trânsito pelos quatro cantos do planeta são tema do novo livro do fotógrafo Sebastião Salgado, Êxodos publicado pela Editora Companhia das Letras. Composta por quase 500 fotografias em preto-e-branco, a obra coloca em evidência a história da humanidade em trânsito.
Considerado um dos maiores fotógrafos do mundo, o brasileiro Sebastião Salgado levou seis anos para concluir o trabalho. Percorreu 40 países fotografando a sobrevivência limite de pessoas em fuga, entre campos de refugiados e favelas urbanas. Em suas palavras, pessoas que atravessavam os piores momentos de suas vidas: Estavam assustados, mal alojados e humilhados. Mesmo assim, aceitavam ser fotografados porque, acredito, queriam que seu sofrimento fosse divulgado. Sempre que possível, eu lhes explicava que minha intenção era essa. Muitos não faziam mais do que postar-se diante de minha câmera e dirigir-se a ela como se fosse um microfone.
Êxodos é dividida em quatro partes. A primeira apresenta o instinto de sobrevivência de migrantes e refugiados. Os migrantes, a maioria do terceiro mundo, abandonam seus lares na esperança de uma vida melhor, os refugiados abandonam por medo e perseguição - ambos vítimas da violência e da pobreza. Sebastião retrata mexicanos, marroquinos, vietnamitas, russos, curdos afeganes, bósnios, sérvios, kosovares e palestinos onde a ruptura com o passado é uma regra com consequências claras: refugiados se tornarão exilados e exilados se transformarão em migrantes.
A segunda parte retrata a tragédia do continente africano. Com uma população marcada pela pobreza, fome, corrupção e guerra, produziram as imagens mais fortes do livro. Percorrendo regiões de Angola, Sudão, Ruanda, Zaire, registra um continente à deriva, esquecido pelos países ricos e entregue a um festival de atrocidades.
O êxodo rural e o caos urbano da América Latina é o tema da terceira parte. A migração de camponeses, vítimas da miséria, para os grandes centros urbanos como a Cidade do México e São Paulo, engrossam as favelas e aumentam a violência urbana. Os rebeldes zapatistas, o Movimento dos Sem Terra, a resistência dos indígenas da região amazônica, estão entre os retratados.
A quarta e última parte apresenta semelhante situação nos países asiáticos. Os camponeses inflaram as cidades em busca de novas possibilidades de sobrevivência provocando a germinação de imensas favelas. Cidades como Cairo, Xangai, Istambul, Jacarta, Bombaim e Manila são retratadas em seus espaços mais desesperadores, bem longe dos coloridos cartões-postais. -
Em suas viagens pelos buracos do planeta para realizar Êxodos, Sebastião Salgado era constantemente assediado pelas crianças do local para serem fotografadas. A solução que encontrou para essas situações, principalmente nos campos de refugiados, foi fotografar uma a uma. Em fila indiana, as crianças posavam para a câmera. Essas fotos deram origem a um livro complementar intitulado Retratos da Crianças do Êxodo também publicado agora pela Companhia das Letras.
O resultado surpreende. Grande parte das crianças, no ato de serem fotografadas, deixaram a alegria característica, apesar da situação limite em que estavam inseridas, para exibirem um seriedade adulta. Parecem crianças demostrando um envelhecimento precoce provocado pelo sofrimento de uma experiência dolorosa.
Sebastião Salgado reúne, em sua arte, duas importantes qualidades que conferem às suas fotografias uma aura de obra-prima. Uma seria sua integridade estética que o transformou no mestre contemporâneo, depois da aposentadoria de Henri Cartier-Bresson, da fotografia preto-e-branco. A outra seria sua integridade como fotógrafo humanista, onde a coerência de sua arte chega a se constituir uma verdadeira ideologia de vida. O ser humano é seu objeto estético, é um meio e um fim ao mesmo tempo. Não está preso nas garras da linguagem fotográfica, faz uso dela para a construção e um ideal de humanidade onde a bondade, a justiça, o bem-estar e a solidariedade sejam uma realidade não uma esperança.
Entrar em contato com as imagens de Êxodos é sentir um nó na garganta, lágrimas nos olhos. Pode parecer difícil acreditar que aquilo que as fotografias revelam existam, sejam reais. O mérito indiscutível do humanismo de Salgado está em mostrar aquilo que nós nunca conseguiríamos ver com os próprios olhos. Isso porque preferimos ficar longe das desgraças, longe da miséria, confortavelmente sentados em sofás aconchegantes. Não temos nem coragem nem disposição de percorrer pessoalmente os buracos da miséria. Talvez pelo medo de que nossa alma fique impregnada de miséria humana a tal ponto que nenhum banho será capaz de limpá-la.
Sebastião Salgado faz isso por nós com a mais refinada linguagem fotográfica. Suas imagens não são para serem olhadas, mas para serem lidas e sentidas. Como se cada uma delas fosse um livro, e em cada livro uma vida, dezenas de vidas. Vidas caminhando para a morte com grãos de esperança no canto dos olhos. Como areia, uma esperança ardendo e ardendo nos olhos.
Podemos até mesmo acreditar no fracasso da humanidade enquanto espécie detentora de ideais de um mundo melhor. O próprio Salgado admite que a experiência de Êxodos provocou uma profunda mudança em suas convicções: Ao dar início a este projeto, eu estava habituado a trabalhar em condições difíceis. Pensava que minhas convicções políticas ofereceriam respostas para um grande número de problemas. Acreditava sinceramente que a humanidade avançava num rumo positivo. Estava despreparado para o que veio a seguir. As coisas que aprendi acerca da natureza humana e do mundo em que vivemos deixaram-me profundamente apreensivo quanto ao futuro.
Sua esperança é de que, enquanto indivíduos, grupos ou sociedades, tenhamos coragem de refletir sobre a condição humana no mundo atual: As ideologias predominantes do século 20 - o comunismo e o capitalismo - fracassaram, em ampla medida. Hoje a globalização nos é apresentada como uma realidade, não como uma solução. Nem mesmo a idéia de liberdade, sozinha, pode dar respostas a nossos problemas: é preciso temperá-la com noções como responsabilidade, ordem e compreensão. O individualismo em sua forma mais crua continua sendo uma receita para a catástrofe.
Após percorrer dezenas de regiões para fotografar Êxodos, Sebastião declara que, mais do que nunca, sente que a espécie humana é uma só. Existem, é claro, as diferenças de cor, de idioma, de cultura e de oportunidades, mas os sentimentos e as reações das pessoas são muito parecidos: Elas fogem das guerras para esquivar-se da morte, migram para melhorar de vida, edificam novas vidas em países estranhos, adaptam-se a condições extremamente adversas. Em todo lugar, impera o instinto individual de sobrevivência. Mesmo assim, como espécie, parecemos propensos à autodestruição.
Sebastião Salgado, nascido no interior de Minas Gerais em 1944, não pode ser considerado apenas um fotógrafo, mas um verdadeiro historiador que não faz uso de palavras, mas sim de imagens estéticas. Um dos melhores historiadores contemporâneos.
Êxodos de Sebastião Salgado, concepção e design de Lélia Wanick Salgado Editora Companhia das Letras, 432 páginas, capa dura, R$ 87,50.
Retratos de Crianças do Êxodo de Sebastião Salgado, Editora Companhia das Letras, 112 páginas, R$ 38,50.


