''O folclore é mutável''
19º FML
O folclore é mutável
Paulo WolfgangCarlos Sandroni: O folclore está sempre se renovando e se transformandoQuem afirma é o etnomusicólogo fluminense Carlos Sandroni. Ele diz que pelo peso etimológico nosso folclore abarca até mesmo o hip hop
Nelson Sato
Uma elástica variedade de enfoques marcou os três dias do seminário Identidades e Diversidades: Debate Sobre a Música no Limiar do Século XXI, realizado esta semana como parte da programação do 19º Festival de Música de Londrina.
O etnomusicólogo Carlos Sandroni, 41 anos, foi um dos participantes da mesa contribuindo com idéias familiares à sua disciplina, ou seja, a partir da perspectiva de quem estuda a música de tradição oral das culturas não-ocidentais.
Para o pesquisador, que também está ministrando um curso sobre o tema desde segunda-feira, há muita confusão na forma como a mídia opera com conceitos e expressões ligadas a seu campo de atuação. Afirma que o termo étnico, por exemplo, passou a ser difundido como sinônimo de exótico pelo linguajar comum.
No seminário, citou um desfile de moda no qual o termo teria sido utilizado para designar supostos motivos asiáticos ou africanos presentes na coleção de um estilista. Já ouvi falarem também que tal jogador de futebol está de cabelo étnico. Enfim, tudo que está associado a África ou Ásia acaba recebendo esse rótulo - lamenta ele.
Sandroni vê a etnomusicologia como um método de pesquisa, que procura examinar as manifestações musicais a partir das experiências vivas e não a partir das partituras. Ele lembra que a etnomusicologia nasceu em oposição à musicologia, no sentido de que enquanto esta se preocupava com a música clássica ocidental do passado por meio de uma abordagem atenta ao texto musical, a outra reivindicava o estudo das músicas do resto do mundo.
Com bacharelado em Sociologia pela PUC-RJ, mestrado em Ciência Política pela IUPERJ e doutorado em musicologia pela Universidades de Tours (França), Carlos Sandroni destacou-se na pesquisa musical dos povos indígenas do Brasil. Morando atualmente em Recife (PE), descobriu que a cultura popular local é mais dinâmica do que imaginava quando chegou à região há dois anos.
Tinha a impressão de que o folclore musical só poderia ser encontrado na boca de velhinhos dos lugares mais perdidos do sertão - lembra ele. Mas para minha surpresa percebi que o maracatu, o coco, o cavalo-marinho e outras atividades consideradas folclóricas estão extremamente vivas sendo acompanhadas com grande interesse por jovens e crianças.
Sandroni ressalva que existiriam elementos de permanência nessa música, a exemplo do que ocorreria na música clássica e na popular-comercial. Salienta, contudo, a presença do elemento de mudança. O folclore não é algo imutável, como muitos pensam, ele está sempre se renovando e se transformando - diz.
Atribuindo um foco de resistência a essas expressões populares, ele acredita que elas sejam um contraponto à temida uniformização cultural planetária trazida pelos ventos da globalização. Em suas observações, ficou impressionado quando conheceu o jogo da serrinha, uma tradição afro-brasileira praticada no bairro de Madureira, no Rio.
É uma manifestação muito bonita, particular, autêntica, com participação de muitas crianças. As pessoas que brincam ali não estão influenciadas pelos meios de comunicação, mas pelas vivências locais diretas e comunitárias. É o que ele percebe também na cultura hip hop da periferia de São Paulo. Segundo o pesquisador, o movimento dos rappers é autêntico na medida em que passa a ser incorporado, vivido e reelaborado pelos seus participantes.
Não tem por que achar que o repente seja mais autêntico para aquelas comunidades - provoca ele. Acho que até que o hip hop pode ser considerado parte de nosso folclore, cujo significado etimológico quer dizer saber do povo. Trata-se de uma fascinante expressão da cultura popular, das camadas excluídas da população. Dizer que se trata de uma manifestação cultural importada não faz sentido, mesmo porque tudo o que é tradicionalmente considerado folclore vem de fora, de antigas tradições.
Sandroni acrescenta que, na verdade, só as culturas indígenas manteriam alguma pureza - e, mesmo assim, misturadas num caldo com tudo o que foi trazido pelos colonizadores.





