O fato de nenhum paranaense ter se classificado para o Festival da Música Brasileira da Rede Globo acendeu a fúria de alguns músicos e provocou uma dolorida dúvida sobre a qualidade dos compositores e instrumentistas do Estado.
É importante ressaltar que um festival desse porte é uma excelente oportunidade para músicos em vários estágios. Desde aqueles que já possuem um trabalho de décadas até novatos, incluindo a grande maioria renegada pela indústria fonográfica e pela mídia.
A fórmula é simples. O Brasil possui, proporcionalmente, poucos grupos e compositores que contam com o apoio da indústria fonográfica. Um verdadeiro exército se abriga em selos alternativos, toca na noite ou tenta se virar com alguns bicos. Era óbvio que essa multidão – marginalizada por fatores que vão desde o jabá até o desemprego – se afunilaria diante de uma oportunidade com âmbito nacional.
Um festival, por mais regras que tenha, faz uma seleção subjetiva. E gosto é um negócio complicadíssimo, vai além da teoria e da técnica. Por isso, dificilmente, a disputa consegue agradar a muitos e, mais raro ainda, alcançar a unanimidade.
Muita gente enxerga na desclassificação uma ofensa. Ficar de fora de um evento desse não significa que tal música ou compositor é ruim. Mas revela que, entre centenas, outras foram escolhidas por N motivos que vão desde a gravação artesanal de má qualidade até o gosto de quem julga.
Radamés Gnattali, por exemplo, nunca foi classificado nos festivais de choro realizados no Rio de Janeiro na década de 70. Nem por isso se tornou um compositor menos reconhecido.
Entre os classificados do Festival da Globo estão Chico César, Zé Renato, Vicente Barreto, José Carlos Costa Netto, José Miguel Wisnik, Moacyr Luz, Mario SSve, Toninho Horta, Rodrigo Lessa, Tião Carvalho, Luiz Tatit, Sérgio Santos, Kléber Albuquerque e Walter Franco.
A lista privilegiou veteranos – são nomes competentes – que frequentam principalmente o triângulo Rio-Minas-São Paulo. Não há representantes de Mato Grosso, Pernambuco ou Rio Grande do Sul. Como não há paranaenses.
Ao apostar na exclusão, um Festival quase sempre gera mais revolta que consenso. Somando-se a esse panorama a situação caótica dos músicos brasileiros, o resultado é um verdadeiro barril de pólvora. Com isso, o evento cumpriu pelo menos um objetivo: levantar a poeira sobre um de nossos principais produtos culturais e debatê-lo.
A música paranaense tem instrumentistas e compositores de expressão – do rock à música caipira. O fato de não haver paranaenses classificados não significa que nossa música vai de mal a pior. Um festival desse porte – com as infinitas variáveis que giram em sua órbita – não funciona como termômetro da qualidade musical de uma região.
O ponto mais importante do debate é outro. Envolve a mídia, as gravadoras, os órgãos de cultura – estatais e privados – e a marginalização que compositores e instrumentistas paranaenses enfrentam em seu próprio Estado. Afinal, até que ponto o Paraná cultiva e absorve a música que produz? Aí reside o cerne da questão.

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