O Brasil comemora em 2008 os 50 anos da bossa nova e em todos os lugares pipocam homenagens aos três mais importantes nomes do gênero, João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A celebração passa por Curitiba com a vinda de Miúcha, cantora e compositora que esteve bem perto dos três e cresceu em um ambiente rodeado de artistas.
Para falar sobre o show, Heloísa Maria Buarque de Hollanda, ou Miúcha, relembrou o passado e os primeiros contatos com o trio criador da bossa nova. Nascida no Rio de Janeiro, em 1937, a artista esteve desde pequena envolvida com a música, já que o pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, era muito amigo de Vinícius de Moares.
''Quando era mais nova, cantava em casa, estava distante dessa coisa toda da música. A grande influência na minha vida foi o Vinícius de Moraes, que era amigo do meu pai e estava o tempo todo por perto. O Vinícius teve a paciência de me ensinar a tocar violão. Foi um cara incrível, que elevou o nível das letras das músicas, com um tom coloquial e alto nível de poesia'', lembra.
No começo dos anos 60, Miúcha, que já havia se mudado para São Paulo quando criança, ganhou uma bolsa de estudos na Europa, onde sua vida mudaria para sempre. ''Fui morar na Europa, em 62, e fiquei meio de saltimbanco, tocando nas ruas e nas boates, nessa época comecei a aprender mais sobre música.'' Em uma dessas apresentações, conheceu João Gilberto, com quem se mudou para Nova Iorque e teve uma filha, Bebel Gilberto.
Sua vida profissional na música começou em 1975, junto com o marido e o músico Stan Getz. Mas, segundo a artista, ser cantora e compositora não estava em seus planos iniciais. ''Nem pensava que iria me profissionalizar com a música. Quando éramos pequenos, em uma família de sete irmãos, a gente sonhava em ser músico, alguns jogavam futebol. Hoje tem quatro na música, mas tudo foi acontecendo naturalmente, o Vinícius trouxe essa coisa da magia na música, que une muito as pessoas. Foi como um filme preto-e-branco que vai ficando colorido. Quando ouvi 'Chega de Saudade' foi uma revelação diferente pra mim'', conta. Além dela, os irmãos Chico Buarque, Ana de Hollanda e Cristina Buarque também têm carreiras envolvidas com o universo sonoro.
O sucesso já começava a se estabelecer em seus primeiros trabalhos - ela inclusive participou do coro na música ''We Are The World'', que reuniu diversos nomes famosos em prol de ajuda humanitária na África -, no entanto, foi com Tom Jobim, no retorno ao Brasil, mais especificamente no Rio, que ela alçou vôos mais altos. ''O Tom, que foi o maior amigo que tive na vida, conheci já depois de casada com o João. Na época, queria morar no Rio e ficar perto do mar. Lancei dois discos com ele, nessa época era da casa para o botequim e do botequim para casa, tínhamos um 'quartel general' dos bons.''
A parceria com Tom Jobim rendeu dois discos e depois disso a artista não parou mais de gravar, colocando seu nome definitivamente entre os maiores da música popular brasileira. O show de hoje revisita muitos desses momentos, em especial o contato com Tom, Vinícius e João. ''O Tom e o Vinícius, embora muito amigos, só se apresentaram duas vezes juntos e como já toquei com eles, assim como com o João, a idéia foi juntar as músicas em uma homenagem'', explica.
''O show é igual em todos os lugares, o que varia bastante é o 'papo furado'. Como tive acesso ao processo criativo do Tom, do Vinícius e do João, conto um pouco disso, sempre de um jeito descontraído, tem muita bobagem também'', confessa.
A apresentação terá a participação de Os Cariocas, veterano grupo vocal que também marcou época na MPB, gravando inclusive uma das primeiras versões de ''Chega de Saudade''. ''Somos amigos cantando sobre outros amigos e nossa vivência, sobre um Rio de Janeiro de uma época mais tranquila, onde gravei dois discos com o Tom em um botequim'', define Miúcha.
Sobre as comemorações dos 50 anos da bossa nova, para Miúcha o mais importante é lembrar de onde tudo saiu, sem querer ''transportá-la'' para o momento da música atual. ''A bossa nova trouxe uma coisa diferente, foi bom para a auto-estima do brasileiro, mas acho que as pessoas têm que procurar sempre o caminho e a linguagem da sua época'', opina.
Entretanto é importante conhecer aquele momento para ter uma visão mais ampla da música nos dias de hoje, tanto na produção quanto na apreciação. ''A Bebel, quando era adolescente, nem gostava de bossa nova, achava um pouco antiquado. Só ouvia música de discoteca. Hoje ela faz essa tradução, mistura a bossa nova com uma linguagem mais pop, própria da época dela. Para buscar coisas novas tem que ir também na base. O começo da bossa nova com o João, o Vinícius e o Tom, por exemplo, foi muito influenciado pelo Ary Barroso e o Dorival Caymmi'', complementa Miúcha.
A vinda de Miúcha para Curitiba faz parte do Itaúbrasil, projeto que em sua primeira edição promove shows itinerantes sobre o cinquentenário da bossa nova, e já realizou neste ano o encontro de Caetano Veloso com Roberto Carlos em homenagem a Tom Jobim e a reunião de jovens artistas para celebrar João Donato, além da exposição tecnológica ''Bossa na Oca'', em São Paulo.

SERVIÇO
-Miúcha e Os Cariocas
Quando - Hoje, às 19h
Onde-Teatro Positivo, em Curitiba
Quanto - R$ 80 (platéia alta) e R$ 60 (platéia baixa)
Mais Informações - (41) 3315-0808

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