O FIM DO MUNDO INFANTIL
Nelson Sato
De Londrina
A infância está com os dias contados. As crianças deixam os últimos vestígios de seu reino encantado numa civilização que, paulatinamente, abole a distinção entre as faixas etárias. A erotização precoce e a criminalidade juvenil aparecem como os sinais mais alarmantes de um mundo em desagregação.
A tese, polêmica, é defendida pelo ensaísta norte-americano Neil Postman no livro O Desaparecimento da Infância (Graphia Editorial). O autor é professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Nova York. Tem diversos livros publicados, a maioria deles tratando das conexões entre mídia e educação.
No livro recém-lançado no Brasil, Postman mostra que o conceito de infância nem sempre existiu e que ele surge, se desenvolve e entra em declínio de acordo com as condições de comunicação de cada época. Para o autor, o lar e a escola perderam sua posição de comando como reguladores do desenvolvimento infantil. A televisão seria hoje não só a babá eletrônica como a grande responsável pelo fim da linha divisória que separa as crianças dos adultos.
As crianças são um grupo de pessoas que não sabem certas coisas que os adultos sabem. Na Idade Média não havia crianças porque não havia para os adultos meios de contar com a informação exclusiva. Na Era de Gutemberg surgiu esse meio. Na Era da Televisão ele se dissolveu resume o autor, em tom apocalíptico.
Já estaria em curso, segundo ele, uma nova configuração das etapas da vida com o surgimento de crianças adultas e adultos infantis. Os sinais da mudança se fariam notar dentro e fora da tela da TV incluindo transformações nas roupas, nos hábitos alimentares, no padrão linguístico, na profissionalização prematura dos esportistas, no fim das velhas brincadeiras infantis, em atitudes mentais e emocionais e particularmente no campo do sexo e da violência.
Para onde quer que a gente olhe, é visível que o comportamento, a linguagem, as atitudes, os desejos e mesmo a aparência física de adultos e crianças se tornam cada vez mais indistinguíveis diz ele. Para cada tópico, Postman apresenta uma ou mais evidências para comprovar seu ponto de vista.
Ao abordar o erotismo precoce, focaliza o aumento da gravidez entre adolescentes e a utilização de garotas de doze a treze anos em anúncios publicitários como se fossem mulheres adultas espertas e sexualmente atraentes.
Ao enfatizar a violência, lembra que diminiu rapidamente a diferença entre crimes cometidos por adultos e crianças, o que aliás ganhou uma conotação de barbárie com a série de assassinatos ocorridos nas escolas americanas e que chocaram o mundo nos últimos três anos. A própria realidade brasileira contribui para ilustrar sua argumentação.
Na área do entretenimento, ele cita uma pesquisa sobre os programas de tevê mais assistidos pelo público e cuja enquete revelou que os quinze preferidos pelos adultos foram também os que obtiveram mais audiência entre os pirralhos. Tampouco observa o autor é necessário distinguir entre gosto adulto e gosto jovem em música, como pode atestar qualquer um que tenha visitado uma discoteca de adulto.
Outro sintoma da mistura de valores e estilos de diferentes faixas etárias pode ser observado nos jogos e brincadeiras infantis, que desaparecem junto com a idéia da diversão pela diversão, esta sustituída por objetivos externos seja ele a conquista de renome, dinheiro, condicionamento físico, ascensão social ou o orgulho nacional. O fenômeno é notável em todas as práticas esportivas, com o futebol à frente.
Mas antes de empilhar evidências para demonstrar sua tese, Postman traça uma breve história da infância lembrando que ela inexistia na Idade Média. O menino de sete anos era um homem em todos os aspectos, exceto na capacidade de fazer amor e guerra anota. As crianças compartilhavam os mesmos jogos com os adultos, os mesmos brinquedos, as mesmas histórias de fadas. Viviam juntos, nunca separados. Se um menino ia à escola, começava aos dez anos de idade ou mais tarde. Vivia sozinho em alojamentos da cidade, longe da família. A maioria era mandada embora de casa para fazer trabalhos subalternos ou servir como aprendizes.
As pinturas que retratam a época, aliás, mostram festas de aldeia reunindo homens e mulheres embriagados apalpando-se com luxúria ao lado de crianças. A própria prática de brincar com as partes íntimas dos menores fazia parte de uma tradição largamente aceita, o que hoje em dia daria até uns trinta anos de cana para o bolinador.
Só a partir da invenção da prensa tipográfica, no século XV, que a identidade de grupo vem à luz no Ocidente. A nova tecnologia criou, segundo Postman, um novo mundo simbólico que exigiu uma nova concepção de idade adulta. A revolução promovida pela palavra impressa socializou a necessidade de alfabetização, multiplicou as escolas, hierarquizou o conhecimento por faixa etária e disseminou noções de pudor.
Todos esses fatores serviram para demarcar a fronteira entre crianças e adultos. Como as crianças foram excluídas do mundo adulto, tornou-se necessário encontrar um outro mundo que elas pudessem habitar. Este outro mundo veio a ser conhecido como infância. Mas hoje, na era dos meios eletrônicos de comunicação, a idéia de infância corre perigo arrastada pelo declínio da cultura letrada e de todas as características associadas à vida adulta.
A TV aparece como a grande vilã na visão de Postman. O autor gasta páginas e mais páginas para expor as mazelas do veículo, que pouco exigiria dos telespectadores além das aptidões naturais e o entendimento da fala. Segundo ele, não existe programação infantil na TV. Tudo é para todos. O ocasional aviso aos pais de que tal programa conteria material reservado só aos adultos, serviria apenas para garantir que um número maior, e não menor, de crianças o assistam.
Para Postman, a televisão tornou desnecessário distinguir a criança do adulto. Sua principal carcterística é homogeneizar as mentalidades. A ironia muitas vezes equivocada no comentário que diz que os programas de televisão se destinam à mentalidade de uma criança de doze anos consiste em que não pode haver nenhuma outra mentalidade para a qual eles podem ser destinados. A televisão é um meio que se compõe de pouquíssima coisa além de figuras e histórias afirma.
O Desaparecimento da Infância foi publicado originalmente nos Estados Unidos em 1982, recebendo uma segunda edição em 1994. No texto introdutório da versão brasileira, o autor nota que entre uma e outra não precisou fazer revisões de monta e muito menos lamentar erros em suas previsões. O que acontecia então, acontece agora. Só que pior assinala. O livro é perturbador.A idéia de infância está em extinção. É o que diz o ensaísta norte-americano Neil Postman em livro recém-lançado no Brasil
ReproduçãoLivro mostra que habitamos um tempo de crianças adultas e adultos infantisReproduçãoArquivo FolhaA erotização precoce e a criminalidade juvenil são apontados como sintomas do mundo em desagregação





