O FIM DA OCIOSIDADE
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de outubro de 2001
Nelson Sato<bR> De Londrina 
Quando os Titãs lançaram o disco ''Domingo'', há seis anos, ninguém imaginou que seu título fosse um anúncio involuntário para uma longa pausa de ociosidade coletiva, durante a qual pouco se compôs e muito se regravou.
Vieram o bem-sucedido ''Acústico'' e seus apêndices ''Volume Dois'' e ''As Dez Mais''. O primeiro chegou a vender 1,6 milhão de cópias levantando o prestígio do grupo, então em declínio e às voltas com os boatos sobre sua suposta dissolução.
O ciclo preguiçoso, porém, chega esta semana ao fim com o lançamento do álbum de inéditas ''A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana''. É o primeiro pela gravadora Abril Music, que irá distribuir o disco simultaneamente nas lojas e bancas de jornais seguindo uma tendência de mercado já testada por Lobão, Karnak e outros menos ilustres.
A volta do grupo ao estúdio coincidiu com a morte trágica do guitarrista Marcelo Frommer, ocorrida às vésperas do início das gravações. Todas as 16 faixas do CD já estavam prontas e cada um dos Titãs já havia levado para casa sua ''demo''. Nada foi acrescentado depois, nem a balada ''Epitáfio'', cuja letra diz: ''Devia ter amado mais, ter chorado mais / Ter visto o sol nascer / Devia ter arriscado mais e até errado mais / Ter feito o que eu queria fazer / Queria ter aceitado as pessoas como elas são''.
Frommer, a quem o disco é dedicado, assina 5 faixas em co-autoria. Nas sessões finais de gravação, sua guitarra foi tocada por Emerson Villani, que acompanhará a banda na turnê promocional do CD. A produção ficou cargo do norte-americano Jack Endino, responsável também pelos trabalhos de estúdio dos discos ''Titanomaquia'' (1993) e ''Domingo'' (1995).
A faixa-título ironiza a voracidade consumista e as manias da mídia com suas listas de melhores e busca frenética pelas novidades. É a primeira faixa de trabalho do CD. Musicalmente, a banda não traz surpresas reforçando a vocação pop/rock que a consagrou, temperada aqui e ali com pitadas de ska e uma incursão pelo samba e o funk em ''Bananas'' (que inclui uma citação do filme ''Terra em Transe'' de Glauber Rocha).
Sérgio Brito pinça ''Daqui pra Lá'' do repertório de Torquato Neto em um dos momentos mais singelos do CD. A dançante ''Mundo Cão'' (com backings vocals de Cecilia Spyer e Jurema Cândida) e a balada radiofônica ''Mesmo Sozinho'' ainda lembram a fase heróica da banda. Mas o grosso do repertório não justifica o retorno, sugerindo esgotamento e indisposição para desbravar novas fronteiras sonoras.
Os CDs distribuídos às lojas convencionais e às bancas serão exatamente iguais. A vantagem para quem comprar nas bancas será uma revista-pôster que acompanhará o disco contendo história, fotonovela, curiosidades e games sobre a banda. Estará à venda a R$ 19,90 por um período limitado de 45 dias. A seguir, leia entrevista que Charles Gavin concedeu à Folha2, por telefone.
Depois de três discos de regravações e covers, vocês finalmente estão lançando um álbum de músicas inéditas. Que idéias orientaram a gravação desse novo trabalho?
Um ponto foi manter a diversidade que sempre caracterizou os Titãs. Procuramos preservar a variedade rítmica e de sonoridade que sempre foi uma de nossas virtudes. Acho que conseguimos isso, porque as músicas são diferentes entre si, ao contrário de discos do começo dos anos 90 que traziam faixas mais homogêneas. Um outro ponto foi manter a ironia nas letras, que é outra marca natural da banda.
A faixa-título ''A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana'' é uma provocação às manias da mídia?
É mais do que isso. É uma reflexão sobre a superficialidade contemporânea, que envolve a mídia, a indústria cultural, a televisão e a música. É um fenômeno do qual os Titãs também fazem parte. Hoje tudo é descartável, produzido para consumo imediato. Se um disco vai para as prateleiras, já era: tem outro para ser ouvido, que é mais novo do que o anterior. As pessoas perderam o hábito de ouvir um disco várias vezes. Eu me lembro que quando era garoto, ouvia um disco exaustivamente. Hoje tudo é consumido vorazmente.
Este é o terceiro álbum em que vocês trabalham com o produtor norte-americano Jack Endino. Qual é a grande qualidade dele?
O Jack compreende a dinâmica dos Titãs, que é algo difícil de lidar por se tratar de uma banda numerosa. Imagine seis cabeças discutindo na hora de escolher o repertório. É complexo. Todo mundo quer ter sua música incluída no disco. O Jack sabe trabalhar as decisões. Pela primeira vez, aliás, nós abrimos a discussão do repertório para alguém de fora permitindo que ele desse palpites na seleção das faixas. Batemos uma bola. E com a morte do Marcelo (Frommer), ele ocupou o espaço tocando guitarra e baixo em várias músicas. Tem ainda o lado técnico, que é uma coisa que não costumamos falar em entrevistas, mas que é muito importante para o resultado de um disco. O Jack tem aquela objetividade americana, aquele pragmatismo necessário num estúdio de gravação que faz dele um dos melhores engenheiros de som que conheço. É um cara que consegue traduzir exatamente o que a banda quer. Acima de tudo, ele é um amigo, com quem falamos sempre por telefone e e-mail.
Os Titãs continuam resistindo à eletrônica apostando no pop/rock com guitarras. A recusa em utilizar programação, ou a rejeição em incorporar batidas das diversas tendências em voga na e-music, é ponto pacífico entre todos os integrantes?
Eu, particularmente, gosto de música eletrônica. Ouço bastante, me seduz. Se eu fosse gravar um disco-solo hoje, certamente incorporaria elementos dessa vertente. Mas os Titãs são várias cabeças, cada uma com suas preferências musicais, o que dificulta bastante a aglutinação em torno de uma mesma onda. Cheguei a apresentar uma idéia nesse sentido, mas fui vencido. Já uma sugestão que dei para convidar um percussionista, foi aceita. Tinha visto o Armando Marçal tocando com o Lulu Santos e queria trazê-lo para as gravações, já que algumas músicas exigiam um acabamento sonoro percussivo. Mas não é fácil trazer uma idéia e tentar convencer mais cinco ou seis caras.
Vocês tiveram alguma participação na idéia de lançar o disco também em bancas de jornais?
A idéia foi da gravadora. No princípio, eu achei estranho, mas depois fui convencido de que é uma iniciativa bem democrática, porque torna o disco acessível às pessoas que moram em pequena cidades do interior e não constam com boas lojas. Com o disco disponível nas bancas, ninguém precisa se deslocar até as capitais ou cidades pólos das regiões para comprá-lo nas lojas. A idéia é boa para os Titãs, para o público, para todo mundo.


