O filme-testamento de Clint Eastwood
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de março de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
O sóbrio classicismo formal e a absoluta transparência narrativa contidos em ''Gran Torino'' não ocultam os diferentes níveis de leitura de um filme que fala simultaneamente de persona e personagem, e que trabalha sobre o imaginário coletivo que o próprio ator e diretor foi forjando ao longo de quase quatro décadas, no contexto de uma obra de temperamento e solidez únicos no panorama do cinema contemporâneo.
O núcleo do argumento desta estreia que chega hoje ao circuito nacional não poderia ser mais simples e acessível. Walter Kowalski (Eastwood) é um velho solitário, ranzinza e resmungão que a própria família evita, família aliás de uma tosca mediocridade que o filme revela e liquida em apenas um par de cenas. Walt acaba de enviuvar, mas resiste a abandonar a típica casa suburbana onde passou toda sua vida. Condecorado veterano da guerra da Coreia e orgulhoso de seu emprego na linha de montagem da Ford, ele não é exatamente um desses aposentados que vão passivamente passar o resto dos dias em ensolaradas casas geriátricas de Miami.
Ao contrário, ele prefere sentar na varanda e tomar cerveja, sob a sombra das listras e estrelas da bandeira dos EUA que tremula sobre sua cabeça, enquanto profere maldições e imprecações a todos que o rodeiam - particularmente os imigrantes orientais - e que fizeram do bairro de Detroit uma espécie de última fronteira, na visão racista e xenófoba de Kowalski. Mas uma série de incidentes, primeiro banais e logo mais graves, relacionados com uma família do sudeste da Ásia, aos poucos coloca em crise algumas certezas de Kowalski.
Pela natureza mesma do filme, que não especula com o suspense, mas que o revela pouco a pouco, não convém avançar mais na trama. Basta que se diga que, por meio de complexa simbiose, o personagem se converterá, sem que tenha desejado, na figura paterna do pequeno núcleo asiático, ao mesmo tempo em que será, inesperadamente, adotado pelos habitantes de uma vizinhança que ele considerava não somente atrevida, como decididamente inimiga.
''Gran Torino'' é o resultado de uma minuciosa observação que o cineasta faz de seu lugar no mundo e de seu próprio mundo, de si mesmo, do cinema que cria e do país onde vive. E todas estas transformações de décadas, fundidas no transcorrer da história breve e singela desse personagem Walt Kowalski encravado numa sociedade para a qual rosna entre dentes - somente um grande ator é capaz de parodiar-se sem demonstrar uma ponta de gozo -, formam de modo direto e sem hipocrisia a grande declaração de princípios deste filme-espelho.
Não há nada de suave ou sentimental em ''Gran Torino''. De resto, o cinema de Clint Eastwood nunca foi nada disto. E aqui não é diferente. As cenas são curtas, eficazes, pungentes. A linguagem é crua, o tom é seco. Medindo bem, dá a impressão de que o filme é tão justo que não falta ou sobra um só plano. Há inclusive muito humor no primeiro terço da narrativa, quando Clint filma a si mesmo sem nenhuma condescendência, rindo não apenas dos achaques próprios de sua idade (está prestes a fazer 79), mas também de seu mau humor e de sua misantropia. Mas progressivamente o diretor vai sobrepondo camadas a essa superfície até imprimir ao filme uma dimensão e uma nobreza que parece naturalmente saída das melhores lições das derradeiras obras do mestre John Ford.
Filme sábio e sereno, ''Gran Torino'' - o título se refere a um emblemático modelo Ford 1972 que Kowalski mantém na garagem como uma espécie de legado, a mesma e boa herança que recebeu de John Ford - foi completamente esnobado no último Oscar, não obtendo uma única nominação. O que a Academia parece ter ignorado é que nesse filme sensível e lacônico há nobreza suficiente fazer dele um dos títulos mais icônicos e perduráveis de Clint Eastwood.


