O filme-catástrofe está de volta
Muito fogo, lava e destruição nos cinemas de todo o País a partir de hoje. E é só o começo

DivulgaçãoCena de ‘‘O Inferno de Dante’’O cinema americano é de fato um fenômeno formidável. Solidamente estruturado numa indústria quase centenária, ao longo de sua história de muitos sucessos e apenas alguns momentos de risco criou regras e mandamentos irremovíveis. Leis não codificadas, muito próprias, corporativas, que jamais dependeram das oscilações do poder vividas pelos magnatas dos grandes estúdios. Espécie de manual de sobrevivência, de uma forma ou de outra estas regras têm sido respeitadas por todos, não importa se representantes do establishment ou realizadores independentes, se remanescentes judeus da golden era ou eletrônicos arrivistas japoneses. E uma das normas tacitamente aceitas como parte do processo de preservação do sistema é a autofagia, buscando nutrientes em diversas fases douradas do passado. Nesse sentido, o revival do cinema-catástrofe iniciado há pouco é exemplar.
Fogo e ranger de dentes Por essas razões, chamar de original o roteiro que Leslie Bohem escreveu e batizou como ‘‘O Inferno de Dante’’ (veja a programação na página 3) é um pouco zombar da inteligência de espectadores de memória mais afiada. É bom conferir. No centro do argumento está a pequena e paradisíaca comunidade de Dante’s Peak, aliás título original do filme e provavelmente uma ‘‘private joke’’: peak é o pico, o cume, exatamente o ponto oposto às profundezas infernais do poema de Dante Alighieri. É para lá que segue um vulcanologista, Harry Dalton (Pierce Brosnan, enquanto não vem o 18º James Bond), a fim de investigar a possibilidade de erupção nas imediações. Marcado por uma tragédia no passado - a noiva morreu na Colombia vítima de lava a 250 graus Celsius -, o pesquisador não quer conversa quando descobre que toda a região é um caldeirão tampado e prestes a explodir. A retirada dos habitantes deve ser iminente, mas a prefeita da cidade, Rachel (Linda Hamilton, a bela guerreira dos ‘‘Exterminadores do Futuro’’), acaba de fechar negócio com um miliardário especulador que pretende se instalar na cidade.
Depois de muita insistência, a mulher concorda com as ponderações do cientista e ordena a saída imediata da população. Mas pode ser tarde. O vulcão entra em feroz atividade, espalhando o de sempre: rios de lava, incêndios, toneladas de cinza, tremores de terra, caos, destruição, morte. Nesses casos, o suspense fica por conta de quem está procurando desesperadamente a saída, e ainda por cima não sabe para onde foram os filhos, ou pior, sabe: subiram a montanha de carro para buscar a teimosa vovó. Pronto, aí está. O cardápio de citações - suave eufemismo para a coletânea de situações ‘‘déjà vu’’ há exatas duas décadas, em títulos diversos como ‘‘Tubarão’’, ‘‘Terremoto’’ ou ‘‘Inferno na Torre’’ - é amplo e comporta outras produções.
Dose dupla A direção de ‘‘O Inferno de Dante’’ coube ao inexpressivo neo-zelandês Roger Donaldson, que desde o clamoroso naufrágio da terceira versão de ‘‘O Grande Motim’’, em 84, só vem consolidando a má fama. Seu mais recente tropeço foi ‘‘A Experiência’’, nauseante mistura de horror e ficção-científica. Mas para conduzir um arsenal de efeitos não se exige grandes personalidades, e assim os superefeitos do filme reinam absolutos, livres de qualquer injunção, digamos, mais humana. Duas curiosidades: consultada a quilométrica relação de técnicos e pessoal encarregado de criar os assombros visuais, não foi encontrada a ILM, melhor dizendo, a onipresente e onicompetente Industrial Light and Magic. Fato raro.
E este não será o único circo vulcânico da temporada. Já está em exibição há alguns dias no circuito americano-canadense o mega-espetáculo ‘‘Volcano’’, carro-chefe da Fox (custo admitido: 70 milhões de dólares), com Tommy Lee Jones e Anne Heche dirigidos por Mick Jackson. Os dois filmes seriam lançados praticamente juntos nos Estados Unidos, mas nesta disputa a Universal foi mais esperta e antecipou em um mês o lançamento de ‘‘Dante’s Peak’’.
(C.E.L.J.)

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