'O filme bate em todos os lados'
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 2015
Marcos Roman<br>Reportagem Local 
O que te motivou a escrever e dirigir "Que horas ela volta"?
Comecei a escrever o roteiro há 20 anos, logo depois de ter meu primeiro filho. Eu, que sempre dei muita ênfase na carreira profissional, de repente percebi que o trabalho da mãe não era apenas o trabalho mais importante do mundo, era um trabalho sagrado. Ao mesmo tempo, atentei para o fato de que no meu meio social este era um trabalho desvalorizado, e que muitas mulheres preferiam entregar cotidianamente seus filhos aos cuidados de babás com baixos salários. E muitas vezes essas mulheres tinham que largar seus filhos para poder cuidar dos filhos dos outros.
O enredo foi inspirado em alguma vivência pessoal ou próxima?
Percebi que na figura da babá estavam contidos grandes paradoxos da sociedade brasileira: paradoxos sociais, afetivos e culturais que circundavam todos em relação à questão da educação. Me inspirei na história de Edna, que foi babá de meu caçula anos atrás. A personalidade de Val foi inspirada na Dagmar, que trabalhou na casa de minha mãe quando eu era criança mas apesar dessas inspirações a história é original.
Por quanto tempo se dedicou ao projeto?
Vinte anos que fiquei pensando e trabalhando no roteiro, seis meses de pré- produção, um mês de filmagem, seis meses de montagem e agora estou o ano todo viajando com promoção do filme.
O filme saiu exatamente como planejado?
Acho que o filme foi além do planejado. Além do filme ter conseguido falar de muitos temas como afeto, educação, arquitetura, regras sociais, passado colonial etc... o talento de Regina Casá agregou muito humor às cenas, muita coisa surgiu no improviso, e nossa montadora foi incrível em conseguir pegar o melhor, manter um ritmo narrativo e ainda deixar ar no meio das cenas. Considero meu melhor filme.
Esperava tamanha repercussão?
Desde as filmagens eu achava que este seria um grande filme. A primeira vez que o projetei foi na sessão Carte Blanche de Locarno, apenas para pessoas da indústria, entre distribuidores e diretores de festivais importantes. Eu estava muito nervosa, mas também estava muito segura do que iria mostrar. As pessoas reagiram muito bem ao filme e tem sido assim desde então. Em Sundance fomos aplaudidos de pé, em Berlim, uma ovação. Mas eu nunca imaginei ter o filme lançado em tantos países e tantos retornos positivos.
Como tem sido o feedback do público?
O que mais me comove são as mensagens que recebo do público diariamente. Recebo a cada cinco minutos histórias diferentes. Ali estão depoimentos emocionados de histórias reais. Elas estão no Facebook, qualquer um pode ver.
Recebeu relatos de patrões que mudaram a forma de convivência com empregados domésticos após assistirem ao filme?
Sim, vários inclusive de amigas minhas. Algumas disseram que se sentiram representadas, sentiram vergonha e quiseram mudar algumas coisa. Uma me disse que iria reformar e aumentar o quarto da empregada. O Cauã Raymond disse na Fatima Bernardes que ele viu o filme e aumentou o salário da empregada. Acho que o filme bate em todos os lados.
Imaginava essa possibilidade de disputar uma vaga para concorrer ao Oscar? Como está a expectativa em torno da indicação?
Sim, eu imaginava sim, pois acho que 'Que horas?' é o filme brasileiro mais forte do ano em termos de sucesso internacional e repercussão nacional, portanto seria natural essa escolha. Quanto à expectativa de conseguir uma vaga no Oscar, sou bem realista. Sei que o filme tem uma carreira internacional linda e faremos o trabalho necessário para tentar uma nominação entre os cinco. Mas ainda está muito cedo para criar expectativas. Meu maior objetivo hoje é fazer o filme chegar a mais pessoas no Brasil porque o filme aqui, além de ser um filme, é um espelho. Meu maior objetivo é que o filme gere debate aqui.
Como foi trabalhar com a Regina Casé?
A Regina, assim como os outros atores são coautores. Gosto que recriem as cenas junto comigo na hora de rodar. E Regina, no que se refere a essa mulher nordestina desta faixa etária - é um museu vivo de gestos, bocas e posturas. Trabalhar com ela não foi tão fácil porque ela é muito inteligente e questionadora. Mas não ser fácil não quer dizer que não tenha sido bom. A considero uma das maiores senão a maior parceira artística que já tive na vida.
O que esse filme representa na sua carreira?
Ele representa minha maturidade tanto quando roteirista, como diretora e como pessoa. Gosto tanto desse filme que às vezes penso que não preciso mais continuar a fazer cinema depois dele. É como se eu já tivesse realizado aquilo que sempre procurei.
Já tem algum novo projeto?
Em novembro do ano passado, enquanto finalizava o Que horas? rodei o filme "Mãe Há Uma Só" um longa metragem premiado no edital do Minc. Agora estamos em fase final de montagem. É a historia de um adolescente que de um dia para o outro vê sua vida virar do avesso quando descobre que não é filho da sua mãe e é obrigado a trocar de família, de nome, de endereço e de irmão. E além disso ele tem traços transgêneros com os quais todos terão que lidar daqui pra frente.


