O filme “Baby”, segundo longa-metragem dirigido pelo cineasta Marcelo Caetano, terá uma sessão especial neste sábado (15), às 15h, no Espaço Villa Rica, em Londrina. A exibição marca mais uma edição do projeto Sessão Kinopus, que desde 2015 traz à cidade filmes independentes que não chegaram ao circuito comercial. Às 17 horas, logo após a sessão, será realizado na Sala Londrina um debate online com o diretor Marcelo Caetano sob mediação do cineasta Rodrigo Grota. A sessão tem Classificação Indicativa para 16 anos e os ingressos podem ser adquiridos pelo site PagTickets

O filme acompanha a trajetória de Wellington (João Pedro Mariano), de 18 anos: depois de ser liberado de um centro de detenção juvenil, ele se vê sozinho sozinho e perdido nas ruas de São Paulo, sem nenhum contato com seus pais e sem recursos para reconstruir sua vida. Ele encontra Ronaldo (Ricardo Teodoro), um homem maduro, que o ensina novas formas de sobrevivência. Gradualmente, a relação entre os dois se transforma em uma paixão conflituosa.

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TRAJETÓRIA EM FESTIVAIS

Rodado entre setembro e outubro de 2023 no centro de São Paulo, “Baby” é uma coprodução entre Brasil, França e Holanda. O filme estreou em maio de 2024, quando conquistou o prêmio de Melhor Ator para Ricardo Teodoro na Semana da Crítica do Festival de Cannes. No Brasil, "Baby" foi exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Mix Brasil (prêmio de Melhor Interpretação), e no Festival do Rio, onde conquistou o prêmio de Melhor Filme.

Imagem ilustrativa da imagem O filme "Baby' estreia neste sábado (15) em Londrina
| Foto: Arthur Costa/ Divulgação

A estreia nos cinemas brasileiros ocorreu no dia 9 de janeiro deste ano. Após seis semanas, o filme, distribuído pela Vitrine Filmes, chegou à notável marca de 30 mil espectadores. Orçado em R$ 5 milhões, incluindo as despesas de lançamento nos cinemas, “Baby” já tem distribuição garantida em 23 países - esta semana, por exemplo, está sendo lançado em Taiwan em 16 salas. Em março o filme será lançado na França (dia 19), na Alemanha e na Áustria (dia 20), e na Suíça (dia 26). Entre abril e maio estão previstos lançamentos na Grécia, República Tcheca, Estados Unidos e Holanda.

Nascido em Belo Horizonte em 1982, Marcelo Caetano vive em São Paulo desde 2004. Após estudar Ciências Sociais na USP, ele iniciou uma carreira sólida de curtas, tendo dirigido 'A Tal Guerreira' (2008), 'Bailão' (2009), 'Na sua Companhia’ (2011) e ‘Verona’ (2013). ‘Bailão' foi exibido pelo Festival Kinoarte em 2010, coincidentemente, no ano em que o festival foi realizado no Villa Rica pela primeira vez. Após os curtas, Caetano dirigiu as séries ‘Hit Parede’ (2021) e ‘Notícias Populares’ (2023), além de estrear na direção de longas com ‘Corpo Elétrico’ (2017). O realizador também colaborou em cerca de vinte filmes como assistente de direção e diretor de elenco, incluindo 'Bacurau' e 'Aquarius', de Kleber Mendonça Filho.

Após essa sessão especial com debate, ‘Baby’ irá entrar em cartaz na semana que vem no Espaço Villa Rica. Diretamente do centro de São Paulo, núcleo afetivo de ‘Baby’, Caetano conversou com a Folha de Londrina por telefone sobre o filme. Confira.

‘Baby' é um filme que celebra a vida em potência máxima, incluindo sentimentos viscerais e contraditórios. Fassbinder tem aquela frase famosa 'o amor é mais frio que a morte', mas ele complementa, 'e o cinema é mais quente que a vida'. Como foi essa articulação de uma escrita tão próxima da vida, sobretudo no que se refere à jornada de autotransformação dos personagens Baby e Ronaldo? Há momentos fantásticos no roteiro, com diálogos muito bem humorados como 'Você fugiu de casa? Eles fugiram de mim' ou 'Você é da Igreja? Não, a gente é de São Paulo'. Mas também há diálogos comoventes, como o da cena final, e passagens essencialmente cinemáticas, como as performances do grupo de amigos de Baby pelo centro de São Paulo. Como é o seu processo de escrita: você incorpora diálogos a partir dos ensaios? Ou gosta de estar mais próximo ao que foi previsto no roteiro?

O meu processo de escrita geralmente parte de pesquisas, de experiências pessoais, de entrevistas. Ele é permeável sim aos atores, às contribuições que eles trazem aos ensaios. Mas em ‘Baby’ os atores trabalharam com o roteiro bastante fechado. Eu acho que ao contrário do meu primeiro filme - do ‘Corpo Elétrico’ -, tive muito tempo para trabalhar no roteiro. Foram seis anos entre um filme e outro. E fiquei dedicado ao roteiro do ‘Baby' por dois anos da minha vida. Então eu consegui trabalhar bastante os diálogos. E aí foi o processo de ensaio com os atores que fazia com que eles fossem se acomodando em relação às palavras, em relação àquilo que tava sendo pedido em termos de emoção e humor. E era mais nesse sentido, dessa incorporação. O que os atores trazem essencialmente pro filme tá menos no diálogo e mais em cima de situações vividas pelos personagens. Tem então, por exemplo, o Ricardo Teodoro, que trouxe a questão do boxe - ele treina boxe. A Ana Flávia Cavalcanti trouxe a fitagem, que é aquele momento familiar negro no final de semana de você hidratar e fitar, encaracolar os cabelos uns dos outros. Então cada um vai trazendo mais essas questões de mise-en-scène propriamente do que de diálogo. Que no caso do ‘Baby’ acho que era um filme que já estava mais formatado antes.

Uma das coisas que mais chama a atenção em ‘Baby’ é o cuidado que você teve em construir todos os aspectos do filme de forma muito sofisticada e ao mesmo tempo orgânica. A fotografia, a arte, a trilha - tudo foi criado em perfeita sintonia com o universo que você está retratando. As cores são quentes, saturadas, vibrantes. As texturas são desgastadas, ‘sujas’ no bom sentido: repletas de vida e passado. Os enquadramentos nos oferecem profundidade, mesmo em espaços reduzidos. É como se você nos dissesse: ‘mesmo em espaços mínimos, há algo imenso’. A trilha já nos encanta no prólogo e ao longo do filme mescla músicas inesperadas e de gêneros distintos. Como você desenvolveu essa proposta estética? Você diria que essa visão de direção está em diálogo com os seus filmes anteriores?

Acho que o filme é mais próximo dos curtas, do que propriamente do primeiro longa, do ‘Corpo Elétrico’. Eu acho que tem um foco no movimento: então em todas as cenas do filme ou os personagens estão em movimento, ou a câmera tá em movimento, ou o fundo.. a cidade.. tá em movimento. Essa era a primeira regra. Em relação ao trabalho da Fotografia e da Arte, a ideia que a gente brincava era de fazer uma suruba de cores. Tem muita cor no filme. E ela tá em tudo. Tá não só nas luzes da cidade, nos objetos, e nos espaços, mas também nas peles, e nas roupas. Então a ideia era que as cores fossem isso mesmo: não tivessem uma organização. As cores do mundo não estão organizadas. É confuso mesmo. E São Paulo é uma cidade que é sempre retratada como uma cidade cinza, uma cidade sem cor, sem vida. É uma experiência diferente da que vivo no Centro da cidade. Porque aqui no Centro, que é um lugar de migração, que é um lugar de pessoas vindas de todos os lugares do mundo e do Brasil, a cor é uma coisa muito viva, muito característica e identitária desses espaços. Então a ideia era ter bastante cor, e que fossem coras sujas mesmo, que uma se sobrepusesse à outra, que tivesse os limites borrados.. Então foi uma proposta estética muito trabalhada com o Thales Junqueira, que é o Diretor de Arte; e a Joana Luz e o Pedro Sotero, que são os fotógrafos. A gente nunca tinha trabalhado junto nessas funções. Na verdade, tínhamos trabalhado nos filmes dos outros, nos filmes do Kleber Mendonça, por exemplo. Então foi um acerto muito grande, por que somos muito próximos, muito amigos, e resolvemos juntar forças pro filme.

‘Baby’ pode ser considerado um filme de atores, apesar de também ser um filme plasticamente e sonoramente tão bem elaborado. Mas o desempenho de João Pedro Mariano como Baby e de Ricardo Teodoro como Ronaldo se destacam nessa mescla de love story e 'romance de formação' que o filme propõe. Como foi o seu trabalho com os atores? Você gosta de conviver com eles um pouco antes, de trocar impressões? E o trabalho físico - pela forma como Baby anda, por exemplo, já sentimos muito da sua vida pregressa. Foram realizados muitos ensaios? Ou você gosta de manter certa espontaneidade? De forma geral, tanto o elenco principal como os coadjuvantes, estão muito à vontade com as suas personagens. Me lembrou um pouco o modo visceral como Cassavetes conduzia seus atores em filmes como ‘The Killing of a Chinese Bookie’.

Com o Ricardo eu já havia trabalhado antes numa série que eu fiz, chamada ‘Notícias Populares’. E o João Pedro, ele surgiu em um casting que abri na internet convocando jovens a se inscreverem para o personagem. Foram testados muitos muitos muitos.. centenas. E eu cheguei no João Pedro - é o primeiro trabalho dele no Cinema. Ele já tinha uma formação de teatro: ele trabalha com teatro desde os 12 anos de idade. Saiu de casa pra viver de teatro. Uma figura muito inteligente, muito interessante, muito à frente da sua idade. Isso permitiu que ele tivesse bastante desenvoltura pra entender a complexidade das cenas. Tem cenas violentas, tem cenas muito sensuais. Ele tinha essa maturidade, que foi importante pro filme. Ao mesmo tempo guardava uma ternura da sua juventude. João Pedro foi bastante ensaiado: acho que foram três meses de ensaio. Mas assim: ensaio comigo não é ficar repetindo a cena. Ensaio comigo é isso: é se conhecer, fazer umas propostas de ver filme junto, de andar pela cidade, de conhecer os outros atores. E daí depois disso tudo ir pras cenas. Ensaiar as cenas em um estilo mais livre pra que se gere uma memória no ensaio, e depois essa memória seja acionada quando eles têm de fazer os diálogos.

Folha de Londrina - Outro aspecto que me chamou atenção em ‘Baby’ é como você consegue articular uma história de amor em destaque em meio a um fundo social mais complexo em segundo plano. E você faz isso sem ser apelativo, panfletário, sem vitimizar as personagens ou tentar encontrar algum culpado. Tanto Baby como Ronaldo não me parecem figuras idealizadas, e sim repletas de camadas, subtextos, vulnerabilidades. É uma postura estética humanística sua, mas que também preserva seu lado ‘rock and roll’ na forma como você os filma e como você filma a cidade. Arrisco dizer que São Paulo não era tão bem filmada assim desde os anos 1980, com filmes como ‘Cidade Oculta’ (1986), de Chico Botelho; e ‘Vera’, de Sérgio Toledo. Não no sentido de filmar a cidade de forma realista, mas sim de criar uma imaginário para ela, assim como Wong Kar Wai fez em Hong Kong, ou Hou Hsiao-Hsien fez em Taiwan. Que tipo de cinema que mais o seduz, e que você quer continuar fazendo? Você sente que em BABY você se aproximou desse caminho que você quer trilhar cada vez mais?

Marcelo Caetano - Eu acho que o ‘Baby’ é um rompimento com o Cinema que eu vinha vendo e praticando, muito próximo ao cinema contemporâneo brasileiro que é muito debitário do documentário. Um cinema observativo, um sentimento que tem um pouco de dificuldade de conduzir as emoções do espectador. E no ‘Baby’ eu me aproximei de um Cinema que é o que eu gosto mais de ver, que é um Cinema épico.. apesar de ser um filme sobre o cotidiano, ele tem um tom épico. Um cinema do desejo, um cinema onde a câmera tem intenção, ela explora os corpos, ela dança com os corpos. Um cinema próximo ao melodrama. Então acho que é um rompimento com algo que eu vinha fazendo, mas que não correspondia à minha cinefilia. A minha cinefilia não é desse Cinema observacional, slow cinema.. Nunca foi. Então é um encontro com aquele Cinema que eu amo, que é um Cinema das emoções, dos corpos. Então acho que sim, que é um caminho que se abriu pra mim, mas essa segurança só veio realmente com a idade, depois de trabalhar muito, depois de encontrar os parceiros ideais pra levar esses projetos. E demanda coragem também. Porque às vezes é muito cômodo a gente se encaixar e se enquadrar na nossa geração. Eu preferi pular fora.

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