O film-noir do 3º milênio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de junho de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Eficiência, é a palavra. A priori, no momento em que uma atordoante pantera de luxo seduz sua bela vizinha de apartamento para melhor enganar o marido mafioso, estilo amor, sexo e violência, não parece haver nada de muito novo no reino do film noir. Engano, e de que proporções. Tão logo se instala na telinha, bem antes de chegar à telona apesar do trailer circulando por aí há um bom tempo, Ligadas pelo Desejo se revela um festim de engenhosidade, ambiguidade e precisão, se dando ao luxo de reinventar as convenções do gênero - aqui, versão lésbica-chique. E de quebra ainda faz misérias com a respiração do espectador até o penúltimo plano.
Escrito e dirigido pelos jovens e atrevidos irmãos Andy e Larry Wachowski, Bound recebeu em setembro de 96 o prêmio do júri no Festival de Deauville, na França (só filmes americanos). Uma distinção plenamente justificada por esta promissora estréia, embora os rabugentos de sempre não vão perder a ocasião de reprovar os irmãos Wachowski. A repreensão vai correr por conta do empréstimo de idéias de Hitchcock, Billy Wilder, De Palma, Tarantino ou à outra fraternidade de talento, Ethan e Joel Cohen. Serão acusados de pecar por excesso de referências, de piscares de olhos de marota cumplicidade ou de outras homenagens a estes mestres. Mas em seu tempo todos esses cineastas, de uma forma ou de outra, também não praticaram a cinefagia, isto é, não foram eles mesmos influenciados por outras idéias, outros estilos ?
Influência da HQ - O que existe de original em Ligadas pelo Desejo, ainda que bem visíveis e detectáveis as apropriações citadas, é um deliberado e bem consumado enquadramento no genêro. O film noir, embora muitos que o tentem não saibam, permite jogar com o sexo, a comédia e o suspense. Bem combinados, são garantia de pura dinamite. E ainda autorizam, como acontece em Bound, um exercício de estilo, permitindo toda uma série de composições gráficas que os espectadores encontram deslocadas em outros filmes. As imagens abertamente compostas do filme não deixam dúvida sobre a passagem da dupla Wachowski pelas histórias em quadrinhos. E um outro dado, tão curioso quanto inédito e particularmente produto de gênio(s): em sã e cartesiana consciência, o argumento de Ligadas pelo Desejo é basicamente implausível. Isto nem se discute, levando-se em conta o caráter mirabolante do plano do casal Corky-Violet (nunca se esqueça do detalhe: Corky é mulher) para roubar os U$ 2 milhões da Máfia e fugir. Mas neste caso uma quase premeditada implausibilidade gera uma quase cúmplice imprevisibilidade; e desta feliz união nasce um suspense com a mecânica hitchcokiana.
Trio infernal Além de uma direção aqui e alí estilizada um pouquinho além da conta, de um ritmo mortífero e frio capaz de gelar o sangue nas veias (nossas veias), a verdadeira força de Bound está na qualidade do roteiro e principalmente na audácia do elenco. Violet é a adorável e carnal morena Jennifer Tilly, que pouca gente viu em Tiros na Broadway, de Woody Allen. Vamp sulfurosa e calculista, Violet conquista o charme musculoso da ex-detenta Corky - a cena de amor logo no início entre as duas, apesar da alta temperatura, preserva raro bom gosto e é fundamenteal para estabelecer as regras da trama criminal.
Corky é Gina Gershon , já vista ao natural como a diva do strip-tease no abominável Showgirls, de Paul Verhoeven. Sua criação da lésbica tatuada, de t-shirt colante ressaltando os músculos e de jeans manchado de graxa foi a grande sensação no Gay and Lesbian Festival de San Francisco, ano passado. E diante das duas, o marido mafioso de Violet, Cesar - Joe Pantoliano, impecável como o criminoso sempre às voltas com o próximo lance. Um trio, enfim, que enriquece ainda mais este thriller que resiste a tudo, principalmente ao preconceito.


