O FESTIVAL SAI DE CENA
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quarta-feira, 30 de maio de 2001
Francelino França De Londrina 
Depois de 30 dias de programação, o Festival Internacional de Londrina FILO encerra hoje a 34ª edição. Ao todo, foram realizadas 81 apresentações de espetáculos de teatro e dança, que sem dúvida deixaram rastros culturais importantes para a cidade. Desmembrando o número total, 14 grupos fizeram 26 apresentações na Sul Mostra Teatro; aconteceram 15 apresentações de 11 grupos no Circuito Londrina e 40 apresentações de 20 grupos na Mostra Internacional. Foram espetáculos que oxigenaram a ética, remodelaram a estética e, mais uma vez, comungaram as diferenças. Além disso, 14 projetos sócios-culturais resultaram em 8 demonstrações públicas.
Com a inserção dos Projetos de Maio aumentou o intercâmbio cultural e deu-se oportunidade de acesso e à difusão cultural a grupos anteriormente invisíveis. O grande questionamento levantado é que não se pode deixá-los órfãos. Se foram apontadas perspectivas de uma outra possibilidade de mundo com os projetos sócio-culturais, eles não podem ficar restritos apenas ao mês de maio. Isso porque, a responsabilidade social de alguns projetos (como o de Expressão Corporal aos morados do Mocó do Zerão) tem outro peso.
Com uma proposta pedagógica, em que escolas da rede pública inseriram o tema Por Uma Cultura da Paz nas atividades curriculares, o Filo tenta dialogar com a interdisciplinariedade. Alunos, pais e professores que participaram das Caminhadas (a abertura oficial do evento), poderiam ter marcado presença também como platéia de alguns espetáculos, como na primeira apresentação de Alta Festa, do grupo Pernas-de-Pau, no dia 11 de maio, tarde em que faltou público e sobrou espaço.
O público presenciou alguns espetáculos prejudicados com a escolha inadequada do espaço para apresentações. O Teatr Cogitatur, da Polônia, conheceu o local para a apresentação de Femina pouco antes de entrar em cena. Sem tempo para um ensaio, o espetáculo acabou arrastado e sem comunicação. A Cia. Étnica, do Rio de Janeiro, fez uma frustrada apresentação de Cobertores no Ginásio de Esportes do Colégio Vicente Rijo, com um público inquieto de 1.600 adolescentes. Além disso, houve falhas de comunicação da produção do Filo com a direção da escola. Os alunos esperaram uma hora antes de entrar no Ginásio de Esportes, desinformados sobre o que iriam assistir, achando que um elenco de estrelas da Rede Globo iria se apresentar.
Pela característica de diversidade do Filo, pôde-se conhecer várias estratificações do teatro. Alguns espetáculos tiveram um caráter de alfabetização teatral, como A Padaria Nossa, com o grupo do MST, de Arapongas, e do Instituto Londrinense de Educação para Surdos, com o espetáculo de Mímica e Interpretação. No teatro amador, Valsa nº 6, com Carla Diacov e o Banquete Performático, com o grupo Fase III, mostraram a potencialidade desses grupos.
No teatro eminentemente profissional, apresentado pelo ator Mário Shoemberger com o eficiente O Ventre do Minotauro, recebeu grande receptividade do público e o espaço do Zaqueu de Melo ficou pequeno, merecia mais uma apresentação.
Outra faceta do teatro que marcou presença com grupos especializados em se apresentar em festivais e preparam produtos direcionados a esses eventos. Pode-se incluir, o Sêmola (da Espanha), Teatr Cogitatur (Polônia) e Teatre De LHull (Espanha). Mas o fundamental num festival é o intercâmbio que se faz com a cultura de outros países. Somente um evento como esse oportuniza o contato com a cultura e o pensamento de localidades distantes. Três espetáculos escancararam no mapa mundi culturas desconhecidas para os brasileiros. Da Colômbia, Álvaro Restrepo, trouxe os alunos de Cartagena (El Colegio Del Cuerpo) com a emocionante coreografia El Alma de Las Cosas. De Porto Rico Una de Cal Y Una de Arena, com o grupo Agua, Sol Y Sereno e da Nicarágua com o espetáculo La Casa de Rigoberta Mira Al Sur, com o Teatro Justo Rufino Garay, mostraram um painel de como sobrevive um povo sufocado pela ditadura econômica dos EUA (no caso de Porto Rico) e mostraram quem são os sobreviventes da ditadura de Somoza (Nicarágua).
Depois da maratona cultural, é momento de questionar por onde anda o público universitário, que agitou o Festival nos anos 80 e 90. Os universitários, que engrossavam as fileiras do festival, quase desapareceram do evento. Com o chamariz de que a Universidade Estadual de Londrina se tornou referência no Brasil, os alunos da instituição cada vez mais vêm de outras cidades, mantendo um vínculo com Londrina apenas como cidade universitária. Nos fins de semana, com o retorno dos estudantes às cidades de origem, o público em potencial que poderia prestigiar apresentações se torna escasso. É preciso recuperar esse público, que vive praticamente alheio à vida cultural de Londrina.
Um dos reflexos disso, é que a programação dos primeiros dias do Festival ficou restrita a um pequeno número de pessoas, tornando o evento quase particular. Na platéia, encontravam-se atores de outros espetáculos, alunos de Artes Cênicas, o pessoal da produção do Filo, penetras, convidados e um número acanhado de pagantes, principalmente no Teatro Núcleo I. Na segunda fase isso se reverteu, principalmente, com o ingresso se tornando mais barato.
Não se pode deixar de ressaltar que o Filo modifica o clima na cidade, com a movimentação nos espaços culturais de Londrina, as filas para a compra de ingressos, o teatro de rua que faz o público invisível parar e se transportar para outra dimensão. A característica do Filo deságua na carnavalização do Cabare, espaço interativo onde pode-se trocar informações sobre teatro, cruzar informações sobre outros assuntos e assistir a shows que dificilmente teriam parada em Londrina. Hilton Ruiz, Oswaldinho do Acordeon, Leny Andrade, Naná Vasconcelos, Tom Zé, João Bosco, Titane e Cássia Eller apresentaram um painel musical eclético e sofisticado, atraindo um público diversificado ao Cabare. A organização encara o Cabare como extensão da proposta cênica do Festival, e não apenas um espaço para shows. O público vê de outra forma a presença das grifes pops na cidade e reivindicam espaços maiores para apresentações.
Por fim, destaque para os nomes de peso do cenário teatral brasileiro que ziguezaguearam pela ruas da cidade, como Luiz Carlos Vasconcelos, João das Neves e Roberto Lage. Eles intercambiaram experiências de vida e profissional. Vale destacar espetáculos que já fazem parte da história do Filo 2001. Só para citar os mais representativos estão Cobertores; La Casa de Rigoberta Mira Al sur, BP Zoom, O Ventre do Minotauro, Livres e Iguais Gabiarra e Um Trem Chamado Desejo.


