O festival da austeridade
Os dias de fausto e brilho terminaram. Ou pelo menos estão adiados, sem data precisa para voltar. Festa, só no encerramento, e ainda assim com parcimônia. O transporte interno na cidade (hotéis-restaurantes-cinema), antes amplo, geral e irrestrito, feito com generosa frota de vans, agora está limitado a ônibus urbanos, versão Grande Londrina, com horários fixos. Outro sinal de contenção: as celebridades mais aparentes, apêndices descartáveis e sem função definida no festival, abundantes em outros tempos e marca registrada da prodigalidade, ficaram em terceiro plano. No momento a prioridade são diretores, produtores, exibidores e atores principais dos filmes da mostra competitiva. A palavra de ordem da organização para este 26º Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro, é valorizar os aspectos culturais e econômicos da discussão sobre o cinema que se faz hoje no Brasil e na vizinhança mais próxima. E isto, com certeza, só será possível com menos badalação e mais trabalho.
A partir deste ano, a mostra competitiva está unificada. Latinos e brasileiros disputam juntos os Kikitos, e não mais separadamente, como acontecia até o ano passado. A produção nacional, embora ainda não estável em número de filmes, já permite esta visão de conjunto. E pelo menos no momento, os ventos sopram mais para os latinos.
ReproduçãoPaulo Betti é o protagonista de O Toque do Oboé de Claudio MacDowell: produção sonolentaDecorridos três dias de festival, o desequilíbrio é evidente. A Argentina abriu bem a mostra competitiva com Plaza de Almas, um tocante drama sobre relações afetivas, em família e fora dela. Apesar de aparentemente pretensioso em sua abrangência, o filme de Fernando Diaz é sensível e preciso na discussão de questões contemporâneas, como a desagregação familiar, a terceira idade, o aborto, a solidão. De quebra ainda coloca indagações interessantes sobre a função do artista na sociedade. O Brasil, em parceria com o Paraguai, respondeu, e mal, à presença superior dos portenhos. O Toque do Oboé, de Claudio MacDowell, é uma sonolenta viagem a uma pequena comunidade paraguaia e seus problemas. O súbito e misterioso aparecimento de um músico brasileiro (Paulo Betti) vai alterar definitivamente o comportamento dos habitantes. A idéia cinematográfica do estranho que vem de longe para transformar corações e mentes não é nova e já rendeu pelo menos dois clássicos em territórios opostos do cinema: o Teorema de Pasolini e Shane de George Stevens. Aqui a coisa simplesmente não funciona porque a carência de talentos é generalizada, a começar do roteiro pesado e desprovido de inventiva. MacDowell tampouco ajuda, com uma direção de chumbo. Nem mesmo subsiste a tentativa de fazer realismo fantástico, ou neo-realismo fantástico, como pretendeu o diretor.
Em outro confronto direto, Um Sonho no Caroço do Abacate, estréia no longa do brasileiro Lucas Amberg, fica muito a dever ao mexicano De Noche Vienes Esmeralda, de Jaime Hermosillo. Pecando por excesso de ingenuidade e caricatura, Um Sonho... é baseado em romance do gaúcho Moacir Scliar, que está por aqui e já desaprovou a adaptação. Somente a histórica cumplicidade entre judeus pode explicar a presença de Elliott Gould e Thalia Shire à frente do elenco, grosseiramente dublados em português. O diretor paulista Amberg é formado em cinema e televisão na Califórnia, e formou uma espécie de núcleo judeu para este seu primeiro filme, com resultados qualitativamente bem modestos.
A amável comédia mexicana De Noche Vienes Esmeralda é a divertida história de uma enfermeira casada com cinco homens, felizes todos na ignorância e até a descoberta e a crise de ciúme do marido mais jovem. De forma amena e sempre engraçada, o diretor Hermosillo cutuca aspectos da sexualidade e alguns valores sociais institucionalizados.
Mas o grande momento do Festival até aqui não foi visto em competição, mas à tarde, na mostra paralela PremiSres Gramado 98. Em primeira exibição nacional, e com lançamento previsto para outubro, o último Almodóvar, Carne Trêmula, é o melhor do cineasta em muitos anos.ReproduçãoPlaza de Almas abriu bem a mostra competitiva: filme do argentino Fernando Diaz é sensível e precisoCarlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2





