São Paulo, 10 (AE) - Ainda não chegou ao Brasil, mas deve vir por aí "Celebridade", o filme de Woody Allen consagrado a este estranho fenômeno dos "15 minutos de fama". Havia muito tempo ele se intrigava com essa curiosa manifestação contemporânea. Por exemplo, quem assistiu ao documentário "Woody Allen in Concert", certamente se lembra de uma passagem. Ele está em Veneza, com a mulherr, e as pessoas o importunam. Pedem autógrafos ou para posar em fotos ao seu lado.
Allen comenta: "Fazem fila para um autógrafo, mas não vão ao cinema ver meus filmes". Parece melancólico, ou sarcástico, mas todo mundo sabe que é verdade pura. A fama de uma pessoa começa com uma obra ou algum acontecimento, mas depois ganha vida autônoma. Ninguém precisa ter visto um filme de Woody Allen para querer aparecer numa foto ao lado de Woody Allen.
Mas foi o caso Bill Clinton-Monica Lewinsky que deu origem a "Celebrity". Allen diz que ficou pasmo ao descobrir que uma pessoa poderia tornar-se uma celebridade internacional ao praticar sexo oral com o presidente dos Estados Unidos da América. Depois do episódio, Monica ficou famosa, escreveu um livro sobre sua "experiência", ganhou milhões, vai para o cinema. Allen interpretou o fato como ápice de puerilidade de uma sociedade baseada na imagem e na aparência.
Escalou um ator principal, Kenneth Branagh, para interpretar um papel que deveria ser seu, se fosse mais jovem. Branagh vive Lee Simon, escritor que vive sua via-crúcis em busca da fama. Ele desfaz um casamento estável, começa vários relacionamentos de ocasião e mete-se nas mais disparatadas situações. Numa delas, a mais engraçada, contracena com um Leonardo Di Caprio, drogado e violento, um tipo anos-luz distante daquele bonequinho amável que se via em "Titanic". Há ainda um elenco da pesada atuando: Melanie Griffith, Joe Mantegna, Judy Davis, Winona Ryder. Ironias - "Celebridade" não chega a ser um libelo azedo contra a fama. Allen mantém, em relação ao fenômeno, uma posição crítica, distanciada, porém irônica e ambígua. Fácil de entender. Como rico e famoso, homem de cinema vindo do show biz, sabe que a fama pode trazer muitas vantagens, apesar do incômodo. Tudo é ambivalente.
As pessoas (Allen entre elas) são capazes de vender a alma ao diabo para se distinguir da multidão, no início da carreira. Quando se tornam conhecidas demais, a fama torna-se um fardo. Ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas entediadas encaram com horror a possibilidade de um dia voltar ao anonimato. Basta ver uma dessas estrelas cadentes por aí. O filme reflete à perfeição esses sentimentos contraditórios.

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