Feliz Natal. Com esta minúscula frase, a fotógrafa Vilma Slomp nomeou o seu mais recente livro, que lhe consumiu dez anos de pesquisa de porta em porta nos bairros de Curitiba. Ela colheu durante todos estes anos registros de enfeites de natal daqueles mais simples, trazidos pelos imigrantes portugueses, alemães, poloneses e italianos.
São estrelas cadentes, cometas, guirlandas, carinhas de papais-noéis, botinhas bordadas, sinos e tudo o mais que possa se relacionar com esta época do ano.
Nestes tempos de Natal de luz, onde a tecnologia do Oriente ilumina mansões, casas comerciais e até as casas mais simples, estes pequenos enfeites tenderiam a desaparecer, não fosse a perpetuação que Vilma praticou durante dez natais.
Como o bom velhinho que todo ano chega, a fotógrafa visitou inúmeras casas, dando preferência às de madeira, captando aquele pequeno adereço que significa mais um estado de espírito do que uma ornamentação.
Tradições ‘‘Os bairros escolhidos representam uma espécie de simbiose entre tradições herdadas dos imigrantes europeus, vindos em massa a partir de 1933 - alemães, poloneses, italianos, ucranianos - com o colonizador português e com os curitibanos de hoje, na aculturação que envolve também os imigrantes’’, escreveu a jornalista Maí Nascimento na apresentação do livro, que conta com o ótimo projeto gráfico de Oswaldo Miranda (Miran).
‘‘Recortados contra portas, janelas e varandas, os sinais do Natal são, às vezes, como um grito de esperança parado no tempo’’, continua Maí, que também é responsável por uma pesquisa sobre tradicionais símbolos natalinos em diversas etnias.
‘‘É um equívoco ‘ler’ estas imagens com rapidez; elas exigem tempo e reflexão’’, alerta o crítico e pesquisador de fotografia Rubens Fernandes Junior. ‘‘A intenção documental e a simplicidade do ensaio, aliadas à opção técnica, recriam novas formas de ver uma manifestação estética ‘‘naif’’ tradicional e preservam os detalhes que pertenciam a um universo efêmero e temporal. Vilma soube valorizar e contextualizar seu registro: as luzes e as cores dessa série de fotografias descortinam a imaginação com intimidade e delicadeza’’.
O crítico encerra seu artigo - intitulado ‘‘Olhar é ilusão’’ - unindo o trabalho de Vilma Slomp a um pensamento do escritor americano William Faulkner: ‘‘O objetivo de todos os artistas é deter o movimento, que é vida, por meios artificiais e mantê-lo fixado de tal maneira que cem anos depois, quando talvez um estranho o contemple, ele torne mais uma vez a mover-se, porque é vida’’.
Vilma tem 44 anos, trabalha com fotografia desde 1975. Participou de diversas exposições individuais e coletivas em vários países. Alguns de seus trabalhos fazem parte do acervo do Musée Français de la Photographie (Paris, 1992), Museu de Arte de São Paulo (1994) e Internacional Center of Photography (New York, 1994).
Resgatando uma tradição prestes a mudar de cores, Vilma nos dá neste Natal um presente magnífico, que tem algo de artesanal - como sempre foi a fotografia e qualquer forma de arte, mesmo as mais cibernéticas - como uma guirlanda da sorte, ou um anjo da guarda que nos protege a memória.
q Feliz Natal - Livro de registros fotográficos de Vilma Slomp sobre enfeites de natal nos bairros de Curitiba. Editado pela Fotográfica Comunicação e Editora Ltda. (Rua Júlia Wanderley, 161, Mercês, em Curitiba, fone 041-335-2002). R$ 40,00.

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